The Project Gutenberg EBook of A Harpa do Crente, by Alexandre Herculano

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Title: A Harpa do Crente
       Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta

Author: Alexandre Herculano

Release Date: September 23, 2007 [EBook #22742]

Language: Portuguese

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*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A HARPA DO CRENTE ***




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A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR DA VOZ DO PROPHETA.

     *     *     *     *     *

LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n. 55._




A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.


PRIMEIRA SERIE.


LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n. 55._




*A Semana Sancta.*


A S. Ex. O MARQUEZ DE RESENDE.


_Em testemunho de amisade e venerao_

                        Offerece o Auctor.




A Semana Sancta.

                  Der Gedanke Gott weckt einen
                  furchterlichem Nachbar auf,
                  sein Name heisst Richter.
                              _Schiller._


                  I.

      Tibio o sol entre as nuvens do occidente
      J l se inclina ao mar. Grave e solemne
      Vai a hora da tarde!--O oeste passa
      Mudo nos troncos da lameda antiga,
      Que j borbulha  voz da primavera:
      O oeste passa mudo, e cruza a porta
      Ponteaguda do templo, edificado
      Por mos rudes de avs, em monumento
      De uma herana de f, que nos legaram,
      A ns seus netos, homens de alto esforo,
      Que nos rimos da herana, e que insultamos
      A cruz e o templo e a crena de outras eras:
      Ns, homens fortes, servos de tyrannos,
      Que sabemos to bem rojar seus ferros
      Sem nos queixar, menospresando a Patria
      E a liberdade, e o combater por ella.

      Eu no!--eu rujo escravo; eu creio e espero
      No Deus das almas generosas, puras,
      E os despotas maldigo.--Entendimento
      _Bronco_, lanado em seculo fundido
      Na servido de goso ataviada,
      Creio que Deus  Deus, e os homens livres!


                  II.

      Oh sim!--rude amador de antigos sonhos,
      Irei pedir aos tumulos dos velhos
      Religioso enthusiasmo, e canto novo
      Hei-de tecer, que os homens do futuro
      Entendero:--um canto escarnecido
      Pelos filhos dest' pocha mesquinha,
      Em que vim peregrino a vr o mundo,
      E chegar a meu termo, e repousar-me
      Depois  sombra de um cypreste amigo.


                  III.

      Passa o vento os do portico da Igreja
      Esculpidos umbraes: correndo as naves
      Sussurrou, sussurrou entre as columnas
      De gothico lavor: no orgam do coro
      Veio em fim murmurar e esvaecer-se.

      Mas porque sa o vento?--Est deserto,
      Silencioso ainda o sacro templo:
      Nenhuma voz humana ainda recorda
      Os hymnos do Senhor. A natureza
      Foi a primeira em celebrar seu nome
      Neste dia de lucto e de saudade!
      Trvas da quarta feira eu vos saudo!
      Negras paredes, velhas testemunhas
      De todas essas oraes de mgoa,
      Ou esperana, ou gratido, ou sustos,
      Depositados ante vs nos dias
      De uma crena fervente, hoje enlutadas
      De mais escuro d, eu vos saudo!
      A loucura da cruz no morreu toda
      Apoz dezoito seculos!--Quem chore
      Do sofrimento o Here existe ainda.
      Eu chorarei--que as lagrymas so do homem--
      Pelo Amigo do povo, assassinado
      Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
      Envilecidas, barbaras, e servas.


                  IV.

      Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
      Que no espao entre o abysmo e os ceus vagueas,
      D'onde mergulhas no oceano a vista;
      Tu que do trovador na mente arrojas
      Quanto ha nos ceus esperanoso e bello,
      Quanto ha no inferno tenebroso e triste,
      Quanto ha nos mares magestoso e vago,
      Hoje te invoco!--oh vem!--lana em minha alma
      A harmonia celeste e o fogo e o genio,
      Que dm vida e vigor a um carme pio.


                  V.

      A noite escura desce: o sol de todo
      Nos mares se afogou: a luz dos mortos,
      Dos brandes o claro fulgura ao longe,
      No cruzeiro somente e em volta da ara:
      E pelas naves comeou rudo
      De compassado andar. Fiis acodem
      A visitar o Eterno, e ouvir queixumes
      Do vate de Sion. Em breve os monges
      Lamentosas canes aos ceus erguendo,
      Sua voz uniro  voz desse orgam,
      E os sons e os cchos reboar no templo.
      Mudo o cro depois, neste recinto
      Dentro em bem pouco reinar silencio,
      O silencio dos tumulos, e as trevas
      Cubriro por esta rea a luz escassa
      Despedida das lampadas, que pendem
      Ante os altares, bruxuleando frouxas.
      Imagem da existencia!--Em quanto passam
      Os dias infants, as paixes tuas,
      Homem, qual ento s, so debeis todas:
      Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
      Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo
      Gemido do remorso, a qual lanar-se
      Vai, com rouco estridor, no antro da morte,
      L onde  tudo horror, silencio, noite.
      Da vida tua instantes florescentes
      Foram dous, e no mais: as cas e rugas,
      Breve, rebate de teu fim te deram.
      Tu foste apenas som, que o ar ferindo
      Se esvau pelo espao immensuravel.

      E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro
      Cortou a penedia; e o canto enorme.
      Polido alveja alli no espesso panno
      Do muro collossal, que ha visto as eras
      Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado:
      A faia e o sobro no car rangeram
      Sob o machado: a trave affeioou-se;
      L na cimo pousou: restruge ao longe
      De martellos fragor, e eis ergue o templo,
      Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

      Homem, do que s capaz! Tu, cujo alento,
      Se esve, como da cerva a leve pista
      No p se apaga ao respirar da tarde,
      Do seio dessa terra em que s estranho
      Sar fazes as moles seculares,
      Que por ti, morto, fallem: ds na ida
      Eterna durao s obras tuas!
      Tua alma  immortal, e a prova a dste!


                  VI.

      Anoiteceu:--nos claustros resoando
      As pisadas dos monges ouo: eis entram;
      Eis se curvaram para o cho beijando
      O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a!
      Igual vos cubrir a cinza um dia,
      Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto
       a pedra do tumulo. Se-lo-ia
      Mais se do justo s a herana fora;
      Mas tambem ao malvado  dada a campa.

      E o criminoso dormir quieto
      Entre os bons sotterrado!--Oh no! em quanto
      No templo ondeam silenciosas turbas,
      Exultaro do abysmo os moradores,
      Vendo o hypocrita vil, mais mpio que elles,
      Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
      Vendo o que julga que oraes apagam
      Vicios e crimes, e o motejo e o riso
      Dado em resposta s lagrymas do pobre;
      Vendo os que nunca ao infeliz soltaram
      De consolo palavra, ou de esperana:
      Sim:--malvados tambem ho-de pisar-lhes
      Os frios restos que separa a terra,
      Um punhado de terra, a qual os ossos
      Destes ha-de cubrir em tempo breve,
      Como cubriu os seus, qual vai sumindo
      Nos mysterios da campa a humanidade.

      Porm a turba esvae-se: ermam bem poucos
      Do templo na amplido: s l no fundo
      De affumada capella, o justo as preces
      Ergue pio ao Senhor, as preces puras
      De um corao que espera, e no mentidas
      De labios de impostor, que engana as turbas
      Com seu meneio hypocrita, calcando
      Na alma lodosa da blasphemia o grito.
      Ento exultaro os bons, e o mpio,
      Que passou, tremer. Em fim, de vivos,
      Da voz, do respirar o som confuso
      Vem-se verter no sussurrar das praas,
      E pela galil s ruge o vento.
      Em trevas no ficou silenciosas
      O sagrado recinto: os candieiros,
      No gelado ambiente ardendo a custo,
      Espalham debeis raios que reflectem
      Das pedras pela alvura; o negro mocho,
      Companheiro do morto, horrido pio
      Solta l da cornija; pelas fendas
      Dos sepulchros deslisa um fumo espesso,
      Onda pela nave--esvi-se: um longo
      Suspiro no se ouviu!--Olhai! l se erguem
      De umas espectros palidos, medonhos,
      A quem bao claro da luz dos mortos
      Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem
      Radiosos espiritos que o premio
      Da virtude, nos ceus, ho recebido:
      Alli treme ante o pobre o rico, e o forte
      Ante o humilde, que nelle os olhos fita
      Severo:--oh que tormento! infernaes dores
      So doces para o mu, a par do aspecto
      Do bom, que mudo lhe recorda os crimes.
      Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas
      Ainda habita o remorso. Embalde, espectro,
      Te curvas ante as aras que insultaste:
      Debalde imploras o perdo celeste.
      Expiraste: o perdo morreu comtigo.
      Infeliz para sempre, a mo levanta
      A essa fronte gelada; entre teus olhos
      De azulado fulgor ampla rajada
      Toca--eterno signal que no perverso
      Do cherubim da morte a dextra estampa:
      Toca-a... Deus reprovou-te; a herana tua
      Volveu-se em maldico: luz de esperana
      Para ti apagou-se: o abysmo evoca
      O filho seu; despenha-te no abysmo!


                  VII.

      Vaga meditao onde arrojaste
      Minha imaginao!--s horas mortas
      De alta noite, no templo solitario,
      E em congresso de mortos, quando o espanto
      Os resguarda co'as azas acurvadas
      Da vista do que vive!--Alli corria
      Minha mente, qual vaga a mente do homem,
      Que em febre ardente desvairou por sonhos,
      Onde se ajunctam troos de existencias,
      Em nebuloso quadro; ou como ondea,
      Entre a esperana e o susto, o moribundo,
      A quem do passamento o vu j cinge
      A amarellada fronte, e a quem j pesam
      Sobre os olhos as palpebras, que affrouxa
      Do anjo da morte o resonante grito.


                  VIII.

      Mas troa a voz do monge, e no meu seio
      O corao bateu. Eia, retumbem
      Pela abobada aguda os sons dos psalmos,
      Que em dia de afflico ignoto vate
      Teceu, banhado em dr: talvez foi elle
      O primeiro cantor que em varias cordas,
       sombra das palmeiras da Idumea,
      Soube entoar melodioso um hymno.
      Deus inspirava ento os trovadores
      Do seu povo querido, e a Palestina,
      Rica dos meigos dons da natureza,
      Tinha o sceptro tambem do enthusiasmo.
      Virgem o genio ainda, o estro puro
      Louvava Deus somente,  luz da aurora,
      E ao esconder-se o sol entre as montanhas
      De Bethoron:--agora o genio  morto
      Para o Senhor, e os cantos dissolutos
      Do lodoso folguedo os ares rompem,
      Ou sussurram por paos de tyrannos,
      Assellados de putrida lisonja,
      Por preo vil, como o cantor que os tece.


                  IX.


            _O Psalmo._

      Quanto  grande o meu Deus!... T onde chega
            O seu poder immenso!
      Elle abaixou os ceus, desceu, calcando
            Um nevoeiro denso.
      Dos cherubins nas azas radiosas
            Sentado elle voou:
      E sobre turbilhes de rijo vento
            O mundo rodeou.
      Se lana  terra o olhar, a terra treme,
            E os mares assustados
      Bramem ao longe, e os montes lanam fumo,
            Da sua mo tocados.
      Se pensou no Universo, ei-lo patente
            Todo perante o Eterno:
      Se o quiz, o firmamento os seios abre,
            Abre os seios o inferno.
      Dos olhos do Senhor, homem, se podes,
            Esconde-te um momento:
      V onde encontrars logar que fique
            Da sua vista isento:
      Sobe aos ceus, transpe mares, busca o abysmo,
            L teu Deus has-de achar;
      Elle te guiar, e a dextra sua
            L te ha-de sustentar:
      Desce  sombra da noite, e no seu manto
            Involver-te procura;
      Mas as trvas para elle no so trvas;
            Nem  a noite escura.
      No dia do furor, em vo buscras
            Fugir ante o Deus forte,
      Quando do arco tremendo, irado, impelle
            Setta em que pousa a morte.
      Mas o que o teme dormir tranquillo
            No dia extremo seu,
      Quando na campa se rasgar da vida
            Das illuses o vu.


                  X.

      Callou-se o monge: sepulchral silencio
       sua voz seguiu-se: e um som soturno
      De orgam partiu-o; som que assemelhava
      O suspiro saudoso, e os ais de filha,
      Que chora solitaria o pe, que dorme
      Seu ultimo, profundo e eterno somno.
      Harmonias depois soltou mais doces
      O instrumento suave; e ergueu-se o canto,
      O lamentoso canto do propheta,
      Da patria sobre o fado. Elle, que o vra,
      Sentado entre ruinas, contemplando
      Seu avto esplendor, seu mal presente,
      A quda lhe chorou: l na alta noite,
      Modulando o Nebel, via-se o vate
      Nos derrubados porticos, abrigo
      Do immundo stellio e gemedora poupa,
      Extasiado--e a lua scintillando
      Na sua calva fronte, onde pesavam
      Annos e annos de dor: ao venerando
      Nas encovadas faces fundos regos
      Tinham aberto as lagrymas: ao longe,
      Nas margens do Kedron, a ra grasnando
      Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
      Era Sion!--o vasto cemiterio
      Dos fortes de Israel. Mais venturosos
      Que seus irmos, morreram pela patria;
      A patria os sepultou dentro em seu seio:
      Elles, em Babylonia, as mos em ferros,
      Passam de escravos miseranda vida,
      Que Deus pesou seus crimes, e, ao pes-los,
      A dextra lhe vergou. No mais no templo
      A nuvem repousra, e os ceus de bronze
      Dos prophetas aos rogos se amostravam,
      O vate de Anathoth a voz soltra
      Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
      Ameaas, promessas, tudo inutil;
      De ferro os coraes no se dobraram.
      Vibrou-se a maldico: bem como um sonho
      Jerusalem passou: sua grandesa
      Somente existe em derrocadas pedras.
      O vate de Anathoth, sobre seus restos,
      Com tal lamento se doeu da patria:
      Canto de morte alou: da noite as larvas
      O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
      Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
      Do portico do templo erguia um pouco,
      Alvejando, a caveira:--era-lhe alivio
      Do sagrado cantor a voz suave
      Desferida ao luar, triste, no meio
      Da vasta solido que o circumdava:
      O propheta gemeu: no era o estro,
      Ou o vivido jbilo que outrora
      Inspirra Moyss: o sentimento
      Fui sim pungente do silencio e morte,
      Que da patria lhe fez sobre o cadaver
      A elegia da noite erguer, e o pranto
      Derramar da esperana e da saudade.


                  XI.

            _A Lamentao._

      Como assim jaz e solitaria e quda
      Esta cidade outrora populosa!
      Qual viuva ficou e tributaria
            A senhora das gentes.
      Chorou durante a noite: em pranto as faces
      Sosinha, entregue  dr, nas penas suas
      Ninguem a consolou: os mais queridos
            Contrarios se volveram.
      As amplas ruas de Sion so ermas,
      E cubertas de relva: os sacerdotes
      Gemem: as virgens pallidas suspiram
            Involtas na amargura.
      Dos filhos de Israel nas cavas faces
      Est pintada a macilenta fome;
      Mendigos vo pedir, pedir a estranhos,
            Um po de infamia eivado.
      O tremulo ancio, de longe, os olhos
      Volta a Jerusalem, della fugindo;
      V-a, suspira, ce, e em breve expira
            Com seu nome nos labios.
      Que horror!--as proprias mes os seus filhinhos
      Despedaaram: barbaras quaes tygres,
      Os sanguinosos membros palpitantes
            No ventre sepultaram.
      Grande Deus, nosso opprobrio olha piedoso!
      Cessa de Te vingar! V-nos escravos,
      Servos de servos em paiz estranho;
            Adoa nossos males!
      Acaso sers Tu sempre inflexivel?
      Esquecste de todo a nao tua?
      O pranto dos hebreus no Te commove?
            s surdo a seus lamentos?


                  XII.

      Doce era a voz do velho: o som do Nablo
      Sonoro: o ceu sereno: clara a terra
      Pelo brando fulgor do astro da noite:
      E o propheta parou: erguidos tinha
      Os olhos para o ceu, onde buscava
      Um raio de esperana e de conforto:
      E elle calra j, e ainda os ecchos,
      Entre as minas sussurrando, ao longe
      Iam os sons levar de seus queixumes.


                  XIII.

      Chro piedoso, o chro consagrado
      s desditas dos seus. Honra ao propheta!
      Oh margens do Jordo, paiz to lindo,
      Que fostes e no sois, tambem suspiro
      Dodo vos consagro!--Assim fenecem
      Imperios, reinos, solides tornados!...
      No:--nenhum deste modo: o peregrino
      Pra em Palmyra e pensa: o brao do homem
      A sacudiu  terra, o fez dormissem
      O seu ultimo somno os filhos della--
      E elle o veio dormir pouco mais longe:
      Mas se chega a Sion treme, enxergando
      Seus lacerados restos. Pelas pedras,
      Aqui e alli dispersas, ainda escripta
      Parece vr-se uma inscripo de agouros,
      Bem como aquella que aterrou um mpio
      Quando, no meio de ruidosa festa,
      Blasphemava dos ceus, e mo ignota
      O dia extremo lhe apontou de crimes.
      A maldico do Eterno est vibrada
      Sobre Jerusalem!--Quanto  terrivel
      A vingana de Deus! O Israelita,
      Sem patria, e sem abrigo, vagabundo,
      Odio dos homens, neste mundo arrasta
      Uma existencia mais cruel que a morte,
      E que vem terminar a morte e inferno.
      Desgraada nao!--aquelle solo
      Onde manava o mel, onde o carvalho,
      O cedro e a palma o verde, ou claro ou torvo,
      To grato  vista, em bosques misturavam:
      Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
      Crescimento espontaneo entre as roseiras,
      Hoje, campo de lagrymas, s cria
      Humilde musgo de escalvados cerros.


                  XIV.

      Ide vs a Mambr:--l, bem no meio
      De um valle, outrora de verdura ameno,
      Erguia-se um carvalho magestoso:
      Debaixo de seus ramos, largos dias
      Abraho repousou: na primavera
      Vinham os moos adornar-lhe o tronco
      De capellas cheirosas de boninas,
      E coras gentis traar-lhe em roda.
      Nasceu com o orbe a planta veneravel,
      Viu passar geraes, julgou seu dia
      Final fosse o do mundo, e quando airosa
      Por entre as densas nuvens se elevava,
      Mandou o Nume aos aquiles rugssem.
      Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
      Murcharam-se cando, e o rei dos bosques
      Servio do pasto aos tragadores vermes:
      Deus estendeu a mo:--no mesmo instante
      A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
      Da Palestina os platanos frondosos
      No mais cresceram, como d'antes, bellos:
      O armento, em vez de relva, achou nos prados
      Somente ingratas, espinhosas urzes.
      No Golgotha plantada, a Cruz clamra
      Justia: a seu clamor horrido espectro
      No Moriah sentou-se; era seu nome
      Assolao--e despregando um grito,
      Cau com longo som de um povo a campa.
      Assim a herana de Judah, outrora
      Grata ao Senhor, existe s nos ecchos
      Do tempo que j foi, e que ha passado
      Como hora de prazer entre desditas.

      Minha Patria onde existe?
                                l somente!

      Oh lembrana da Patria acabrunhada
      Um suspiro tambem tu me has pedido:
      Um suspiro arrancado aos seios d'alma
      Pela offuscada gloria, e pelos crimes
      Dos homens que ora so, e pelo opprobrio
      Da mais illustre das naes da terra!

      A minha triste Patria era to bella,
      E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
      E o sabio e o homem bom acol dormem,
      Acol, nos sepulchros esquecidos,
      Que a seus netos infames nada contam
      Da antiga honra e pudor e eternos feitos.

      O escravo portuguez agrilhoado
      Carcomir-se-lhes deixa juncto s lousas
      Os decepados troncos desse arbusto,
      Por mos delles plantado  liberdade,
      E por tyrannos derrubado em breve,
      Quando patrias virtudes se acabaram,
      Como um sonho da infancia.
                                O vil escravo
      Immerso em vicios, em bruteza e infamia
      No erguer os macerados olhos
      Para esses troncos, que destroem vermes
      Sobre as cinzas de heres, e, acceso em pejo,
      No surgir jmais?--No ha na terra
      Corao portuguez, que mande um brado
      De maldico atroz, que v cravar-se
      Na vigilia e no somno dos tyrannos,
      E envenenar-lhes o prazer nos braos
      Das prostitutas vs, e em seus banquetes
      De embriaguez, lanar fel e amarguras?

      No!--Bem como um cadaver j corrupto,
      A nao se dissolve: e em seu lethargo
      O povo, involto na miseria, dorme.


                  XV.

      Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
      Terei de erguer  Patria hymno de morte,
      Sobre seus mudos restos vagueando!
      Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta
      Minhas preces e lagrymas:--se em breve,
      Qual jaz Sion, jazer deve Ulissea:
      Se o anjo do exterminio ha-de risc-la
      Do meio das naes, que d'entre os vivos
      Risque tambem meu nome, e no me deixe
      Na terra vaguear, orpham de Patria.


                  XVI.

      Cessou da noite a gro solemnidade
      Consagrada  tristeza, e a memorandas
      Recordaes:--os monges se prostraram
      A face unida  pedra: a mim, a todos
      Correm dos olhos lagrymas suaves
      De compunco. Atheu, entra no templo;
      No temas esse Deus, que os labios negam,
      E o corao confessa: a corda do arco
      Da vingana, em que a morte se debrua
      Frouxa est; Deus  bom; entra no templo.
      Tu para quem a morte ou vida  frma,
      Frma smente de mais puro barro,
      Que nada crs, mas nada esperas, olha,
      Olha o conforto do christo: se o calis
      Da amargura a provar os ceus lhe deram,
      Elle se consolou: balsamo sancto
      Dentro no corao a f lhe entorna
      "Deus piedade ter!"--Eis seu gemido:
      Porque a esperana lhe sussurra emtorno:
      "Aqui--ou l--a Providencia  justa."

      Atheu, a quem o mal fizera escravo,
      Teu futuro qual ? Quaes so teus sonhos?
      No dia da afflico emmudeceste
      Ante o espectro do mal. E a quem alaras
      O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas
      No altera por ti?--Ao ar, que some
      Pela sua amplido as queixas tuas?
      Aos rochedos alpestres, que no sentem,
      Nem sentir podem teu gemido inutil?
      Tua dr, teu prazer existem, passam,
      Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
      Nas angustias da vida, o teu consolo
      O suicidio  s, que te promette
      Rica messe de goso, a paz do nada!--
      E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso,
      No limiar da morte indo assentar-te!
      Alli grita uma voz no ultimo instante
      Do passamento: a voz atterradora
      Da _Consciencia_  ella: e has-de escut-la
      Mau grado teu: e tremers em sustos,
      Desesperado aos ceus erguendo os olhos
      Irados, de travez, amortecidos--
      Aos ceus, cujo caminho a Eternidade
      Co'a vagarosa mo te vai cerrando,
      Para guiar-te  solido das dores,
      Onde maldigas teu primeiro alento,
      Onde maldigas teu extremo arranco,
      Onde maldigas a existencia e a morte.


                  XVII.

      Calou tudo no templo: o ceu  puro:
      A tempestade ameaadora dorme.
      No espao immenso os astros scintillantes
      O Rei da creao louvam com hymnos,
      No ouvidos por ns, nas profundezas
      Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
      Ante milhes de estrellas, que recamam
      O firmamento, ajunctar seu canto
      Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa
      Mortal, no meio da harmonia etherea,
      No concerto da noite? Oh, no silencio,
      Eu pequenino verme irei sentar-me
      Aos ps da Cruz, nas trvas do meu nada.
      Assim se apaga a lampada nocturna
      Ao despontar do sol o alvor primeiro:
      Por entre a escurido deu claridade,
      Mas do dia ao nascer, que j rutila,
      As torrentes de luz vertendo ao longe,
      Da lampada o claro sumiu-se inutil
      Nesse fulgido mar, que inunda a terra.

_Lisboa_--1829.




*NOTAS.*




NOTAS.


Eis o poema da minha mocidade: so os unicos versos que conservo desse
tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje
me dissessem: faze um poema de quinhentos versos cerca da Semana Sancta,
eu olharia ao primeiro aspecto esta proposio como um absurdo: entretanto
eu mesmo ha nove annos realizei esse absurdo. No  esta a primeira das
minhas contradicces, e espero em Deus, e na minha sincera consciencia,
que no seja a ultima.

Quando compuz estes versos, ainda eu possuia toda a vigorosa ignorancia da
juventude; ainda eu cria conceber toda a magnificencia do grande drama do
christianismo, e que a minha harpa estava affinada para cantar um tal
objecto. Enganava-me; a Semana Sancta do poeta no sau semelhante  Semana
Sancta da Religio. O que  esta, de feito?--Um poema representado, um
drama, cuja essencia  um facto universal, o maior de todos; o que veio
mudar idas, civilisao, e destinos do genero humano inteiro. Tinha eu
foras para o tractar? No por certo; porque at hoje s houve um
Klopstock; talvez s um haver at a consummao dos seculos.

Assim, eu corri as memorias do passado, e as esperanas do fucturo; chorei
sobre Jerusalem, e sobre a minha patria; subi aos ceus, e desci aos
infernos; saudei o sol, e as trvas da noite; em tudo, e em toda a parte
busquei inspiraes, menos onde as devia buscar; por que acima da minha
comprehenso estava o meu objecto--a redempo, e as suas consequencias.
Foi disto justamente que eu no tractei; e era disto que eu devia tractar,
se o podesse ou soubesse fazer.

Porque, pois, no acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade
no caminho da fogueira! Porque publco um poema falho na mesmissima
essencia da sua concepo!

Porque tenho a consciencia de que ha ahi poesia; e porque no ha poeta,
que, tendo essa consciencia, consinta de bom grado em deixar nas trvas o
fructo das suas vigilias.


[Pag. 9.]

      _A loucura da Cruz no morreu toda_

"Verbum enim Crucis pereuntibus quidem stultitia est".

_Paul. Ad Corinth. 1.--1._


[Pag. 15.]

                        _ignoto vate_
      _Teceu_

Ainda que os Psalmos se attribuam geralmente a David, ha cerca disso muita
incertesa, e o que, ao menos, parece indubitavel  que alguns lhe no
pertencem, por fallarem no captiveiro de Babylonia, e trazerem alluses a
pochas mais recentes. Verdade  que se chegou a crer heretica semelhante
opinio; mas os Padres gregos, e com elles Sancto Hilario, e S. Jeronymo,
julgam absurdo attribui-los todos a David. Esdras voltando do captiveiro
foi quem reuniu estes hymnos, e nessa colleco  provavel fizesse entrar
todas os poesias hebraicas deste genero lyrico e religioso.


[Pag. 16.]

      _E ao esconder-se o sol entre as montanhas
      De Bethoron_

Bethoron inferior, cidade situada perto de Gadara ou Gazara e de Bethel, e
todas ellas em uma serie de montanhas no extremo da Tribu de Ephraim, ao
occidente de Jerusalem. Cumpre no a confundir com a outra Bethoron ou
Bethra, a quatro milhas de Jerusalem para o norte, no caminho de Sichem ou
Naplusa.


[Pag. 16.]

_O Psalmo._

Commota est, et contremuit terra: fundamenta montium conturbata sunt, et
commota sunt, quoniam iratus est eis.

Ascendit fumus in ira ejus: et ignis  facie ejus exarsit: carbones
succensi sunt ab eo.

Inclinavit coelos et descendit: et caligo sub pedibus ejus.

Et ascendit super cherubim, et volavit: volavit super pennas ventorum.

_Psalm. 17--v. 8--9--10--11._

Qu ibo a spiritu tuo? et qu  facie tua figiam?--

Si ascendero in coelum, tu illic es: si descendero in infernum, ades.

Si sumpsero pennas meas diluculo, et habitavero in extremis maris:

Etenim illuc manus tua deducet me: et tenebit me dextera tua.

Et dixi: Forsitan tenebrae conculcabunt me: et nox illuminatio mea in
deliciis meis.

Quia tenebrae non obscurabuntur a te, et nox sicut dies illuminabitur:
sicut tenebrae ejus, sicut et lumen ejus.

_Psalm. 138--v. 7--8--9--10--11--12._

------- arcum suum tetendit et paravit illum.

Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effecit.

_Psalm. 7--v. 13--14._


[Pag. 18.]

      _------ e um som soturno
      Do orgam partiu-o:_

O orgam  um instrumento propriissimo para acompanhar os hymnos religiosos.
Os protestantes, apartando-se da communho romana, e fazendo voltar o culto
quasi  simplicidade primitiva, conservaram nos seus templos este
instrumento, cujos sons melodiosos, e ao mesmo tempo severos, se adaptam
to bem s idas que suscitam os cantos da Igreja. O primeiro orgam, que se
viu no occidente da Europa, foi o que mandou, em 758, Constantino
Copronymo, imperador de Constantinopola, a Pepino, pae de Carlos-Magno.
Depois o seu uso se tomou quasi exclusivo nos templos.


[Pag. 18.]

      _Modulando o Nebel_

O _Nebel_, que os gregos traduzem por _Psalterion_ ou _Nablon_, era entre
os hebreus um instrumento proprio da musica religiosa, como entre os
christos o orgam. A sua frma triangular, e o ser instrumento de cordas,
fez com que na Vulgata se vertesse a palavra hebraica _Nebel_, umas vezes
por lyra, outras por cythara, sem ser nenhuma das duas cousas. Veja-se a
Dissertao de Calmet cerca da musica dos hebreus.


[Pag. 18.]

      _Do immundo Stellio_

O Stellio  o lagarto da 1. especie, ou a salamandra de Lacepede.
_Stellio_ manibus nititur et moratur in aedibus regis. _Prov. 30 v.
28_--Migale, et chamaeleon, et _stellio_, et lacerta, et talpa. _Levit.
11--v. 30._


[Pag. 19.]

      _Nas margens do Kedron a ra grasnando_

A torrente de _Kedron_, que passa entre Jerusalem e o monte Olivete, ao
oriente da cidade, scca inteiramente no estio, e no hynverno as suas aguas
so torvas e avermelhadas. D'ahi o seu nome, que sa como--_torrente da
tristeza_--. Alguem lhe chamou--_torrente dos cedros_, tomando a palavra
hebraica _Kedron_ pelo plural grego _Kedron_.


[Pag. 19.]

      _O vate de Anathoth_

Jeremias era natural de Anathoth cidade sacerdotal na Tribu de
Benjamim.--Verba Jeremiae filii Helciae, de sacerdotibus qui fuerunt in
Anathoth, in terra Benjamim. _Jer. 1--1._


[Pag. 19.]

      _Entre o povo infiel, de Eloha em nome_

_Eloha_ ou _Elah_--Nome de Deus em hebraico, ou antes chaldaico, e palavra
asss commum na Biblia. O auctor do Genesis usa do plural _Elohim_ ou
_Elahim_ para significar, ora o _Deus uno_, ora os deuses dos pagos.
Consulte-se Volney, _Recherches sur l'histoire ancienne._ Cap. 17.


[Pag. 19.]

      _Inspirra Moyss_

Alluso ao cantico depois da passagem do mar roxo.


[Pag. 20.]

_A Lamentao._

Quomodo sedet sola civitas plena populo!--Facta est quasi vidua Domina
Gentium: princeps provinciarum facta est sub tributo.

Plorans ploravit in nocte, et lachrymae ejus in maxillis ejus: non est qui
consoletur eam ex omnibus caris ejus: omnes amici ejus spreverunt eam, et
facti sunt ei inimii.

Viae Sion lugent, e quod non sint, qui veniant ad solemnitatem: omnes
portae ejus destructae: sacerdotes ejus gementes: virgines ejus squallidae,
et ipsa oppressa amaritudine.

_Threni c. 1--v. 1--2--4._

Omnis populus ejus gemens, et quaerens panem: dederunt pretiosa quaeque
piro cibo ad refocilandum animam.

_C. 1--v. 11._

A Egypto dedimus manum, et Assyriis ut saturaremur pane.

_Oratio Jerem. 6._

Jacuerunt in terra foris puer, et senex.

_Threni c.--v. 21._

Manus mulierum misericordium coxerunt filios suos: facti sunt cibus earum
in contritione filiae populi mei.

_Thren. 4.--v. 10._

Recordare Domine quid acciderit nobis: intuere et respice opprobrium
nostrum.

Haereditas nostra versa est ad alienos; domus nostrae ad extraneos.

Servi dominati sunt nostri: non fuit qui redimeret de manu eorum.

Quare in perpetuum oblivisceris noatri? derelinques nos in longitudine
dierum?

_Orat. Jer. v. 1--2--8--10._


[Pag. 22.]

      _Bem como aquella que atterrou um mpio._

Baltasar rex facit grande convivium optimatibus suis mille; et unusquisque
secundm suam bibebat aetatem.

Praecepit ergo jam temulentus ut afferrentur vasa aurea et argentea, quae
asportaverat Nabuchodonosor pater ejus de templo, quod fuit in Jerusalem,
ut biberent in eis rex et optimates ejus, uxoresque ejus, et concubinae.
Tunc allata sunt vasa aurea et argentea, quae asportaverat de templo, quod
fuerat in Jerusalem: et biberunt in eis rex, et optimates ejus, uxores et
concubinae illius. Bibebant vinum el laudabant deos suos aureos, et
argenteos, aereos, terreos, ligneosque et lapideos. In eadem hora
aparuerunt digiti, quasi manus hominis scribentis contra candelabrum in
superficie parietis aulae regiae: et rex aspiciebat articulos manus
scribentis. Tunc facies regis commutata est, et cogitationes ejus
conturbabant eum; et compages renum ejus solvebantur, et genua ejus ad se
invicem collidebantur. Haec est autem scriptura, quae digesta est: _Mane_,
_Thecel_, _Phares_. Et haec est interpretatio sermonis: _Mane_: numeravit
Deus regnum tuum et complevit illud. _Thecel_: appensus es in statera, et
inventus es minus habens. _Phares_: divisum est regnum tuum, et datum est
Medis, et Persis.

_Danielis Proph. c. 5--v. 1 a 6--25 a 28._


[Pag. 23.]

      _Hoje, campo de lagrymas, s cria
      Humilde musgo de escalvados cerros._

Varios passos, cem vezes citados, de Tacito e de outros escriptores
gravissimos da antiguidade, nos provam que a Judea foi um paiz feracissimo.
Os viajantes modernos no-la descrevem como uma regio arida e inculta. O
despotismo, que ha seculos tem opprimido a Syria, e a rapacidade dos
arabes; so em grande parte causa da aniquilao da agricultura na
Palestina; porm a sua esterilidade no se pde attribuir, por certo, a uma
causa politica. Os sectarios do Crucificado no podem deixar de vr neste
phenomeno os effeitos da maldico de Deus sobre a terra que bebeu o sangue
do _Filho do Homem_.


[Pag. 23.]

      _Ide vs a Mambr:_

O valle de Mambr estava situado juncto de Kariath-Arb [Hebron] na tribu
de Judah, e ao Meio-dia de Jerusalem. O carvalho ou terebintho de Abraho,
que, segundo o testemunho de S. Jeronymo, ainda existia no tempo de
Constantino, o tornava notavel. cerca desta arvore clebre existem muitas
tradies entre os Judeus; e at para os christos dos primeiros seculos
era o valle de Mambr um logar de devoo e romagem. Sozomeno nos descreve
o _Valle de Terebintho_ como um sitio de festivas reunies, e foi a sua
narrao quem suscitou este pedao de Poema.


[Pag. 23.]

                              _na primavera
      Vinham os moos adornar-lhe o tronco_

Aqui [em Mambr] ha um logar que hoje chamam Terebintho, distante de
Chebron, que lhe fica ao meio-dia, 15 stadios, e de Jerusalm quasi
250.--Os habitantes deste sitio, no tempo do estio, fazem uma feira a que
concorrem os vizinhos do valle, e ainda povos mais remotos, como os
Palestinos, os Arabes, e os Phenicios. _Sozom. Histor. Eccles._


[Pag. 24.]

      _No Golgotha plantada a cruz clamra_

O monte Golgotha ou Calvario foi o logar onde crucificaram J. C.--Esta
palavra significa: _Logar onde repousam os craneos dos mortos._


[Pag. 24.]

      _No Moriah sentou-se:_

O monte Moriah, onde estava o templo de Salomo, levantava-se no meio de
Jerusalem, e ficava-lhe ao norte o monte Sion. Diz-se que neste logar
estivera Abraho para sacrificar seu filho.--_Calmet Diction._




A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.


SEGUNDA SERIE.


LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n. 55._




*A Arrabida.*


A RODRIGO DA FONSECA MAGALHES,

ORNAMENTO DA TRIBUNA PORTUGUEZA,

      _Em testemunho da sincera amizade,_

                        Offerece o Auctor.




A Arrabida.

[1830.]


                  I.

      Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
      Salve, oh terra de paz, deserto sancto,
      Onde no chega o sussurrar das turbas!
      Slo sagrado a Deus, podesse o bardo
      Ser um dos teus, e no voltar ao mundo!


                  II.

      Suspira o vento no alamo frondoso;
      As aves soltam matutino canto;
      Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
      Nos rochedos da concava bahia:
      Eis o ruido de ermo!--Ao longe o negro,
      Insondado oceano, e o ceu ceruleo
      Se abraam no horizonte: immensa imagem
      Da eternidade e do infinito, salve!


                  III.

      Oh, como surge magestosa e bella,
      Com vio da creao, a naturesa,
      No solitario valle!--E o leve insecto,
      E a relva, e os matos, e a fragrancia pura
      Das boninas da encosta esto contando
      Mil saudades de Deus, que os ha lanado,
      Com mo profusa, no regao ameno
      Da solido, onde se esconda o justo.

      E l campeam no alto das montanhas
      Os escalvados pincaros, severos,
      Quaes guardadores de um logar que  sancto:
      Atalaias que ao longe o mundo observam,
      Cerrando at o mar o ultimo abrigo
      Da crena viva, da orao piedosa,
      Que se ergue a Deus de labios innocentes.

      Sobre esta scena o sol verte em torrentes
      Da manhan o claro; a brisa esvae-se
      Por esses matos de alecrim flordo,
      Embalsamando o ar de brando aroma:
      O roco da noite  rosa agreste
      No seio derramou frescor suave,
      E 'inda existencia lhe dar um dia!

      Formoso ermo do sul, outra vez, salve!


                  IV.

      Negro, esteril rochedo, que contrastas,
      Na mudez tua, o placido sussurro
      Das arvores do valle, que verdecem,
      Ricas d'encantos, co'a estao propicia;
      Suavissimo aroma, que manando
      Das variegadas flores, derramadas
      Na sinuosa encosta da montanha,
      Do altar da solido subindo aos ares,
      s digno incenso ao Creador erguido;
      Livres aves, vs filhas da espessura,
      Que s teceis da natureza os hymnos;
      O que cr, o cantor, que foi lanado,
      Estranho ao mundo, no bulicio delle,
      Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
      Dos homens esquecer paixes e opprobrio,
      E vr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
      O sol, e uma s vez pura saudar-lha.

      Comvosco eu sou maior: mais longe a mente
      Pelos seios dos cus se immerge livre,
      E se desprende de mortaes memorias
      Na solido solemne, onde, incessante,
      Em cada pedra, em cada flor se escuta
      Do Sempiterno a voz, e v-se impressa
      A dextra sua em multiforme quadro.


                  V.

      Escalvado penedo, que repousas
      L no cimo do monte, ameaando
      Ruina s matas de alecrim e murta,
      Que nesta encosta ondeam, meneadas
      Pelo vento do sul, foste j lindo,
      J te cubriram cespedes virentes;
      Mas o tempo voou, e nelle involta
      A tua formosura: as grossas chuvas,
      Despedidas das nuvens, se arrojaram
      Sobre ti, oh rochedo, arrebatando
      A terra e o vio, que te ornava o cimo.
      Eis-te n esqueleto!--o sol queimou-te:
      Tua alvura passou: to negro s hoje,
      Quanto de mar erguido escuras vagas.

      Cveira da montanha, ossada immensa,
       tua campa o ceu: sepulchro o valle
      Um dia te ser. Quando sentires
      Rugir com som medonho a terra ao longe,
      Na expanso dos volces, e o mar bramindo,
      Lanar  praia vagalhes cruzados;
      Tremer-te a larga base, e sacudir-te
      Do vasto dorso, o fundo deste valle
      Te ve servir de tumulo: e os carvalhos
      Do mundo primogenitos, e os freixos,
      Arrastados por ti l da collina,
      Comtigo ho-de jazer.--De novo a terra
      Te cubrir o dorso sinuoso:
      Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
      Do seu puro candor ho-de adornar-te:
      E tu, ora medonho, e n, e triste,
      Ainda bello sers, vestido e alegre.

      Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
      Dos tumulos cair; quando uma pedra
      Os ossos me esmagar, se me fr dada,
      No mais reviverei: no mais meus olhos
      Vero o pr do sol, em dia estivo,
      Se em turbilhes de purpura, que ondeam
      Pelo extremo dos cus sobre o occidente,
      Ve provar que um Deus ha a estranhos povos,
      E alem das ondas tremulo sumir-se;
      Nem, quando, l do cimo das montanhas,
      Com torrentes de luz inunda as veigas:
      Nem mais verei o refulgir da lua
      No irrequieto mar, na paz da noite,
      Por horas em que vla o criminoso,
      A quem ntima voz rouba o socego,
      E em que o justo descana, ou, solitario,
      Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.


                  VI.

      Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
      Das aguas, ento qudas, do oceano,
      Eu tambem o louvei, sem ser um justo:
      E meditei--e a mente extasiada
      Deixei correr pela amplido das ondas.

      Como abrao materno, era suave
      A aragem fresca do car das trvas,
      Em quanto, involta em gloria, a clara lua
      Sumia em seu fulgor milhes d'estrellas.
      Tudo calado estava: o mar somente
      As harmonias da creao soltava,
      Em seu rugido; e o freixo do deserto
      Se agitava, gemendo e murmurando,
      Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos
      O pranto me correu, sem que o sentisse,
      E aos ps de Deus se derramou minha alma.


                  VII.

      Oh, que viesse o que no cr, comigo,
       vecejante Arrabida, de noite,
      E se assentasse aqui sobre estas fragas,
      Escutando o sussurro incerto e triste
      Das movedias ramas, que povoa
      De saudade e de amor nocturna brisa;
      Que visse a lua, o espao oppresso de astros,
      E ouvisse o mar soando:--elle chorra,
      Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
      E adorando o Senhor detestaria
      De uma sciencia van seu vo orgulho.


                  VIII.


       aqui neste valle, ao qual no chega
      Humana voz e o tumultuar das turbas,
      Onde o nada da vida sonda livre
      O corao, que busca ir abrigar-se
      No futuro, e debaixo do amplo manto
      Da piedade de Deus: aqui serena
      Vem a imagem da campa, como a imagem
      Da patria ao desterrado: aqui, solemne,
      Brada a montanha, memorando a morte.

      Essas penhas, que, l no alto da encosta,
      Negras, despidas, dormem solitarias,
      Parecem imitar da sepultura
      O aspecto melancholico, e o repouso
      To desejado do que em Deus confia.
      Bem semelhante  paz, que se ha sentado
      Por seculos, alli, nas serranias,
       o silencio do adro, onde reunem
      Os cyprestes e a cruz o cu e a terra.

      Como tu vens cercado de esperana,
      Para o innocente, oh placido sepulchro!
      Juncto das tuas bordas pavorosas
      O perverso reca horrorisado:
      Aps si volve os olhos; na existencia
      Deserto rido s descobre ao longe,
      Onde a virtude no deixou um trilho.
      Mas o justo chegando  meta extrema,
      Que separa de ns a eternidade,
      Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta.
      O infeliz e o feliz l dormem ambos,
      Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
      Que peregrino vagueou na terra,
      Sem encontrar um corao de fogo,
      Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
      Ignota, por l busca; e quando as eras
      Vierem juncto s cinzas collocar-lhe
      Tardios louros, que escondra a inveja,
      Elle no erguer a mo mirrada,
      Para os cingir na regelada fronte.
      Justia, gloria, amor, saudade, tudo,
      Ao p da sepultura,  som perdido
      De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
      O despertar um pae, que saborea,
      Entre os braos, da morte o extremo somno,
      J no  dado ao filial suspiro:
      Em vo o amante, alli, da amada sua
      De rosas sobre a c'roa debruado,
      Rega de amargo pranto as murchas flores
      E a fria pedra: a pedra  sempre fria,
      E para sempre as flores se murcharam,


                  IX.

      Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma,
      Aspirando o futuro alm da vida,
      E um halito dos ceus, gemer, atada
       columna do exilio, a que se chama,
      Em lingua vil e mentirosa, o mundo.
      Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
      Dos sonhos meus. A imagem do deserto
      Guarda-la-hei no corao, bem juncto
      Com minha f, meu unico thesouro.

      Qual pomposo jardim de verme illustre,
      Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
      Comparar-se, oh deserto?--Aqui no cresce
      Em vaso de alabastro a flor captiva,
      Ou arvore educada, por mo do homem,
      Que lhe diga: s escrava: e erga um ferro,
      E lhe decepe os troncos. Como  livre
      A vaga do oceano,  livre no ermo
      A bonina rasteira, e o freixo altivo:
      No lhes diz: nasce aqui, ou l no cresas:
      Humana voz. Se baqueou o freixo,
      Deus o mandou; se a flor pendida murcha,
       que o rocio no desceu de noite,
      E da vida o Senhor lhe nega a vida.

      Ceu livre, terra livre, e livre a mente,
      Paz ntima, e saudade, mas saudade
      Que no doe, que no mirra, e que consola
      So as riquezas do ermo, onde sorriem
      Das procellas do mundo os que o deixaram.

      Ahi, na branda encosta, hontem de noite,
      Alvejava por entre as azinheiras
      Do solitario a habitao tranquilla:
      E eu vagueei por l: patente estava
      O pobre alvergue do eremita humilde,
      Onde jazia o filho da esperana,
      Sob as azas de Deus,  luz dos astros,
      Em leito, duro sim, no de remorsos,
      Oh, com quanto socego o bom do velho
      Dormia!--A leve aragem lhe ondeava
      As raras cas na fronte, onde se lia
      A bella historia de passados annos.
      De alto choupo atravez passava um raio
      Da lua--astro de paz, astro que chama
      Os olhos para o ceu, e a Deus a mente--
      E em luz pallida as faces lhe banhava:
      E talvez neste raio o Pae celeste
      Da patria eterna lhe enviava a imagem,
      Que o sorriso dos labios lhe fugia,
      Como se um sonho de ventura e gloria
      Na terra de antemo o consolasse.
      E eu comparei o solitario obscuro
      Ao inquieto filho das cidades;

      Comparei o deserto silencioso
      Ao perptuo ruido que sussurra
      Pelos palacios do abastado e nobre,
      Pelos paos dos reis; e condo-me
      Do corteso suberbo, que s cura
      De honras, haveres, gloria, que se compram
      Com maldices e perennal remorso.
      Gloria!--A sua qual ?--Pelas campinas,
      Cubertas de cadaveres, regadas
      De negro sangue, elle segou seus louros;
      Louros que vo cingir-lhe a fronte altiva,
      Ao som do choro da viuva, e do orpham;
      Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
      Os homens--seus irmos--flagella e opprime.
      L o filho do p se julga um nume,
      Porque a terra o adorou: o desgraado
      Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
      Nunca se ha-de chegar, para traga-lo,
      Ao banquete da morte, imaginando
      Que uma lagem de marmore, que esconde
      O cadaver do grande,  mais duravel
      Do que esse cho sem inscripo, sem nome,
      Por onde o oppresso, o misero, procura
      O repouso, e se atira aos ps do throno
      Do Omnipotente, a demandar justia
      Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos.


                  X.

      Oh cidade, cidade, que trasbordas
      De vicios, de paixes, e de amarguras!
      Tu l ests, na tua pompa involta,
      Suberba prostituta, alardeando
      Os theatros, e os paos, e o ruido
      Das carroas dos nobres, recamadas
      De ouro e prata, e os praseres de uma vida
      Tempestuosa, e o tropear contnuo
      Dos frvidos ginetes, que alevantam
      O p e o lodo corteso das praas;
      E as geraes corruptas de teus filhos
      L se revolvem, qual monto de vermes
      Sobre um cadaver putrido!--Cidade,
      Branqueado sepulchro, que misturas
      A opulencia, a miseria, a dr e o goso,
      Honra, infamia, pudor, e impudicicia,
      Ceu e inferno, que s tu?--Escarneo ou gloria
      Da humanidade?--O que o souber que o diga!

      Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
      A imagem desse povo, que reflue
      Das moradas  rua,  praa, ao templo,
      Que a noite sorve, e que vomita o dia,
      Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
      Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
      Absurdo mixto de baixesa extrema
      E de extrema ousadia; vulto enorme,
      Ora aos ps de um vil despota estendido,
      Ora surgindo, e arremessando ao nada
      As memorias dos seculos que foram;
      E depois sobre o nada adormecendo.

      V-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
      Em joelhos, nos atrios dos tyrannos,
      Onde, entre o lampejar de armas de servos,
      O servo popular adora um tigre?
      Esse tigre  o idolo do povo!
      Saudae-o; que elle o manda: abenoae-lhe
      O ferreo sceptro: ide folgar em roda
      De cadafalsos, povoados sempre
      De victimas illustres, cujo arranco
      Seja como harmonia, que adormente,
      Em seus terrores, o senhor das turbas.
      Passae depois. Se a mo da Providencia
      Esmigalhou a fronte  tyrannia;
      Se o dspota cau, e est deitado
      No lodaal da sua infamia, a turba
      L vai buscar o sceptro dos terrores,
      E diz-- meu--; e assenta-se na praa;
      E involta em roto manto, e julga e reina.
      Se um mpio, ento, na affogueada boca
      De volco popular sacode um facho,
      Eis o incendio que muge, e a lava sobe,
      E referve, e trasborda, e se derrama
      Pelas ruas alm: clamor retumba
      De anarchia impudente, e o brilho de armas
      Pelo escuro transluz, como um presagio
      De assolao; e se amontoam vagas
      Desse mar d'abjeco, chamado o vulgo;
      Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos,
      Cava fundo da Patria a sepultura,
      Onde, abraando a gloria do passado
      E do futuro a ultima esperana,
      As esmaga comsigo, e ri morrendo.

      Tal s cidade, licenciosa ou serva!
      Outros louvem teus paos sumptuosos,
      Teu ouro, teu poder:--sentina impura
      Da corrupo, eu no serei teu bardo!


                  XI.

      Cantor da solido, eu me hei sentado
      Juncto do verde cespede do valle;
      E a paz de Deus do mundo me consola.

      Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo,
      Um pobre conventinho. Homem piedoso
      O alevantou ha seculos, passando,
      Como orvalho do ceu, por este sitio,
      De virtudes depois to rico e fertil.
      Como um pae de seus filhos rodeado,
      Pelos matos do outeiro o vo cercando
      Os tugurios de humildes eremitas,
      Onde o cilicio e a compunco apagam
      Da lembrana de Deus passados erros
      Do peccador, que reclinou a fronte
      Penitente no p. O sacerdote
      Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
      E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
      Do que espirando perdoava, o Justo
      Que entre os humanos no achou piedade.

      Religio! do misero conforto,
      Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
      O longo agonisar de uma saudade,
      Da deshonra, do exilio, ou da injustia,
      Tu consolas aquelle, que ouve o verbo,
      Que renovou o corrompido mundo,
      E que mil povos pouco a pouco ouviram.
      Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
      O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
      Da desgraa no dia ajoelharam
      No limiar do solitario templo.
      Ao p desse portal, que veste o musgo,
      Encontrou-os chorando o sacerdote,
      Que da serra descia  meia-noite,
      Pelo sino das preces convocado:
      Ahi os viu ao despontar do dia,
      Sob os raios do sol, ainda chorando.
      Passados mezes, o burel grosseiro,
      O leito de cortia, e a fervorosa
      E contnua orao foram cerrando
      Nos coraes dos miseros as chagas,
      Que o mundo sabe abrir, mas que no cura.
      Aqui, depois, qual halito suave
      Da primavera, lhes correu a vida,
      At sumir-se no adro do convento,
      Debaixo de uma lagem tosca e humilde,
      Sem nome, nem palavra, que recorde
      O que a terra abrigou no somno extremo.

      Eremiterio antigo, oh se podesses
      Dos annos que l vo contar a historia;
      Se ora,  voz do cantor, possivel fosse
      Transsudar desse cho, gelado e mudo,
      O mudo pranto, em noites dolorosas,
      Por naufragos do mundo derramado
      Sobre elle, e aos ps da cruz!... se vs podesseis,
      Broncas pedras, fallar, o que dirieis!

      Quantos nomes mimosos da ventura,
      Convertidos em fabula das gentes,
      Despertariam o eccho das montanhas,
      Se aos negros troncos do sobreiro antigo
      Mandasse o Eterno sussurrar a historia
      Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
      Para um leito formar, onde velassem
      Da magoa, ou do remorso as longas noites!
      Aqui veio talvez buscar asylo
      Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
      Despenhado nas trvas do infortunio:
      Aqui, talvez, gemeu o amor trahido,
      Ou pela morte convertido em cancro
      De infernal desespero: aqui soaram
      Do arrependido os ultimos gemidos,
      Depois da vida derramada em gosos,
      Depois do goso convertido em tedio.
      Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram
      Suas vestes mortaes, nenhum vestigio
      Resta dos nomes seus.--E isso que importa,
      Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes
      Elle contou, para as pagar com gloria?

      Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda,
      Que dos montes alm conduz ao valle,
      Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
      Como um pharol de vida, em mar de escolhos:
      Ao christo infeliz acolhe no ermo,
      E consolando-o, diz-lhe: a patria tua
       l no ceu:--abraa-te comigo:
      Juncto della esses homens, que passaram
      Acurvados na dr, as mos ergueram
      Para o Deus, que perdoa, e que  conforto
      Dos que aos ps deste symbolo da esp'rana
      Vem derramar seu corao afflicto:
       do deserto a historia a cruz e a campa;
      E sobre tudo o mais pousa o silencio.


                  XII.

      Feliz da terra, os monges no maldigas;
      Do que em Deus confiou no escarneas!--
      Folgando segue a trilha, que ha juncado,
      Para teus ps, de flores a fortuna,
      E sobre a morta crena, em paz descana.
      Que mal te faz, que goso vae roubar-te
      O que ensanguenta os ps nas bravas urzes,
      E sobre a fria pedra encosta a fronte?
      Que mal te faz uma orao erguida,
      Nas solides, por voz sumida e frouxa,
      E que, subindo aos cus, s Deus escuta?
      Oh, no insultes lagryimas alheias,
      E deixa a f ao que no tem mais nada!...

      E se estes versos te contristam--rasga-os.
      Teus menestreis te vendero seus hymnos,
      Nos banquetes opiparos, em quanto
      O negro po repartir comigo,
      Seu trovador, o pobre anachoreta,
      Que no te inveja as ditas, como aos bardos
      Do prazer dissoluto eu no invejo
      Essas cras, que s vezes cingem frontes,
      Onde, por baixo, se escreveu--_Infamia!_--




*A Voz.*




A Voz.


          to suave ess'hora,
      Em que nos foge o dia,
      E em que suscita a lua
      Das ondas a ardentia;

         Se em alcants marinhos
      Nas rochas assentado,
      O trovador medita,
      Em sonhos enleiado!

         O mar azul se encrespa
      Co' a vespertina brisa,
      E no casal da serra
      A luz j se divisa.

         E tudo em roda cala,
      Na praia sinuosa,
      Salvo o som do remanso,
      Quebrando em furna algosa.

         Alli folga o poeta
      Nos desvarios seus;
      E nessa paz que o cerca
      Bemdiz a mo de Deus.

         Mas despregou seu grito
      A alcyone gemente,
      E nuvem pequenina
      Ergueu-se no occidente;

         E sbe, e cresce, e immensa,
      Nos ceus negra fluctua,
      E o vento das procellas
      J varre a fraga nua.

         Turba-se o vasto oceano,
      Com horrido clamor:
      Do vagalho nas ribas
      Expira o vo furor.

         E do poeta a fronte
      Cubriu vu de tristesa:
      Partiu-se  luz do raio
      Seu hymno  naturesa.

         Feia alma lhe vagava
      Um negro pensamento,
      Da alcyone ao gemido,
      Ao sibillar do vento.

         Era blasphema ida,
      Que triumphava em fim:
      Mas voz soou ignota,
      Que lhe dizia assim:

         "Cantor, esse queixume
      Da nuncia das procellas,
      E as nuvens, que te roubam
      Myriadas de estrellas;

         E o fremito dos euros,
      E o estourar da vaga,
      Na praia, que revolve,
      Na rocha, onde se esmaga;

         Onde espalhava a brisa
      Sussurro harmonioso,
      Em quanto do ether puro
      Descia o sol radioso,

         Typo da vida do homem,
       do universo a vida;
      Depois do afan repouso,
      Depois da paz a lida.

         Se ergueste a Deus um hymno
      Em dia de amargura;
      Se te amostraste grato
      Nos dias de ventura,

         Seu nome no maldigas,
      Quando se turba o mar:
      No Deus, que  pae, confia,
      Do raio ao scintilar.

         Elle o mandou:--a causa
      Disso o universo ignora--
      E mudo est:--seu nume,
      Como o universo, adora!"

     *     *     *     *     *

         Oh sim: torva blasphemia
      No manchar seu canto!
      Brama procella embora;
      Pese sobre elle o espanto;

         Que de su' harpa os hymnos
      Derramar o bardo,
      Aos ps de Deus, qual oleo
      De recendente nardo.

_Lea da Palmeira 1835_




*A Victoria e a Piedade.*




A Victoria e a Piedade.


      Eu nunca fiz soar meu canto humilde
              Nos paos dos senhores:
      Eu jmais consagrei hymno mentido
              Da terra aos oppressores.
      Mal haja o trovador que vae sentar-se
               porta do abastado,
      O qual com ouro paga a alha infamia,
              O cantico aviltado.
      O filho das canes, da gloria o bardo
              No manchou o alaude;
      O ingenho seu ha consagrado  Patria;
              Seu canto  da virtude.
      Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste
              Nos dias de afflico,
      Qual solto vento em areal deserto,
              Livres teus cantos so.
      No despontar da vida, do infortunio
              Murchou-me o sopro ardente:
      Pela terra natal, na flor dos dias,
              Eu suspirei ausente.
      O solo do desterro, ah, quanto ingrato
               para o foragido;
      Ennevoado o ceu; arido o prado;
              O rio adormecido!
      Eu l chorei, na idade da esperana,
              Da patria a dura sorte:
      Esta alma encaneceu;--e antes de tempo
              Ergueu hymnos  morte.
      E que infeliz ha hi, a quem no ria
              Da sepultura a imagem?
      Alli  que se afferra o porto amigo,
              Depois de ardua viagem.

      Mas, quando o pranto me queimava as faces,
              O pranto da saudade,
      Deus escutou dos profugos as preces,
              Teve de ns piedade.
      Armas!--bradaram do desterro os filhos:
              Bem-disse-os o Senhor:
      E vencer ou morrer juncto com elles
              Jurou o trovador.
      Pelas vagas do mar correndo affoutos,
               gloria nos votmos;
      E, nos campos nataes, pendo invicto
              Os livres, ns, plantmos.
      Fanatismo, ignorancia, odio fraterno;
              De fogo cus toldados;
      A fome, a peste, o mar avaro, as hostes
              De innumeros soldados;
      Um futuro sem raio de esperana;
              Ouvir o vo lamento
      De infante, a vida incerta conduzido
              Por mo do soffrimento;
      Comprar com sangue o po, com sangue o fogo
              Em regelado inverno;
      Eis contra o que, por mezes de amargura,
              Nos fez luctar o inferno.
      Mas constancia e valor tudo ha vencido:
              Ganhou-se eterna gloria;
      E dos tyrannos apesar, colhemos
              Os louros da victoria.

      Tea-se, pois, o cantico subido
              Aos fortes vencedores.
      Livres somos!--Sumiram-se qual fumo
              Da Patria os oppressores.
      Sobre essa encosta, sobranceira aos campos,
              De sangue ainda impuros,
      Onde o canho troou, por mais de um anno,
              Contra invenciveis muros,
      Eu, tomando o alade, irei sentar-me;
              Pedir inspiraes
      A amiga noite, o genio que me ensina
              Suavissimas canes.

      Reina em silencio a lua, o mar no brame,
              Os ventos nem bafejam.....
      Mas que ossadas so estas, que na encosta,
              Aqui e alli, alvejam?
      Esses?--So ossos vs, que no resguarda
              O sussurrar da gloria;
      Herdeiros s das maldices das gentes,
              Das maldices da historia:
      So os restos dos homens, que luctaram,
              Valentes no seu crime,
      Contra ns, contra a mo da Providencia,
              Que os maus derruba e opprime.
      Mas quem por padro que aos evos conte,
              Seus feitos derradeiros!
      Quem dir--aqui dormem portuguezes;
              Aqui dormem guerreiros--?
      Quem vir na alta noite erguer por elles
              Resas de salvao?
      Quem ousar pedir para o vencido
              Um ai de compaixo?
      Viro, acaso, alevantar seus filhos
              O pranto solitario,
      Pelo que lhes legou de avs o nome
              Involto em vil sudario?
      Ser a esposa, que lhes cubra as cinzas
              Com orao piedosa?
      No!--nenhuma ousar dizer, chorando,
              Eu fui do escravo esposa.
      Ser a amante?--Em tremedaes a pura
              Rosa nascer no sabe:
      A mais bella paixo no  de servos;
              Vil goso s lhes cabe.
      De me o amor tentra, unicamente,
              Sobre os corpos gelados,
      Vir chorar a esperana, em flor colhida,
              De seus annos cansados:
      Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito
              Do rude velador;
      Da noite os medos; de armas, j sem donos,
              Nas trvas o esplendor.

      Quem, pois, consolar gementes sombras,
              Que ondeam juncto a mim?
      Quem seu perdo da Patria implorar ousa,
              Seu perdo de Elohim?
      Eu:--o christo:--o trovador do exilio,
              Contrario em guerra crua,
      Mas que no sei cuspir o fel da affronta
              Sobre uma ossada nua.
      O misero pastor desceu dos montes,
              Abandonando o gado,
      Para as armas vestir, dos cus em nome,
              Por phariseus chamado.
      De um Deus de paz hypocritas ministros
              Os tristes enganaram:
      Foram elles, no ns, que estas caveiras
              Aos vermes consagraram.
      Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
              Que do Senhor no templo,
      A virtude insultando, ao crime incitas,
              Ds do furor o exemplo!
      Sobre os restos da Patria, tu bem creste
              Folgar de nosso mal,
      E, sobre as cinzas de cidade illustre,
              Soltar riso infernal.
      Tu, no teu corao insipiente,
              Disseste--Deus no ha!--
      Elle existe, malvado!--e ns vencemos:
              Treme.... que tempo  j.
      Mas esses, cujos ossos espalhados
              No campo da peleja
      Jazem, exoram a piedade nossa;
              Piedoso o livre seja!
      Eu pedirei a paz dos inimigos,
              Mortos como valentes,
      Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
              Culpados de innocentes.
      Perdoou, expirando, o Filho do Homem
              Aos seus perseguidores:
      Perdo, tambem, s cinzas de infelizes!
              Perdo--oh vencedores!
      No insulteis o morto. Elle ha comprado
              Bem caro o esquecimento,
      Vencido adormecendo em morte ignobil,
              Sem dobre ou monumento.
      Que resta aos desditosos?--Somno eterno,
              Da Patria a maldico,
      A justia de Deus, tremenda, ignota,
              E a humana execrao.
      Mas ns, saibamos esquecer os odios
              De guerra lamentavel;
       generoso o forte, e deixa ao fraco
              O ser inexoravel.
      Oh, perdo para aquelle, a quem a morte
              No seio agasalhou!
      Elle  mudo:--pedi-lo j no pde;
              O da-lo a ns deixou.
      Da lei a espada puna o criminoso,
              Que v a luz dos cus:
      O que legou  terra o p da terra,
              Julga-lo cabe a Deus.
      E vs, meus companheiros, que no vistes
              Nossa inteira victoria,
      No precisaes do trovador o canto;
              Vosso nome  da historia.
      Eu do vencido consolei a sombra;
              Eu perdoei por vs.
      Filhos da infamia os desgraados eram;
              Ricos de gloria ns.

_Porto--Agosto de 1833_


NOTA.

Este fragmento, que segue, e que servir para intelligencia dos precedentes
versos, pertence a um livro j todo escripto no entendimento, mas de que s
alguns capitulos esto trasladados ao papel. A guerra da restaurao de
1832 a 1833  o acontecimento mais espantoso e mais poetico deste Seculo.
Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de
_D. Branca_, do _Cames_, de _Joo Minimo_; o Sr. Lopes de Lima, e outros:
mas a politica engodou todos os ingenhos, e levou-os comsigo. Os homens de
bronze, os sete mil de Mindello no tiveram um cantor; e apenas eu, o mais
obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta poro de
tanta riquesa poetica. Oxal que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca
valia, no fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. Todos
ns temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais
 que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas vale, por via de
regra, tanto como poesia de politicos.

            _Fragmento._

O combate da antevespera estava ainda vivo na minha imaginao: eu cria vr
ainda os cadaveres dos meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do
fatal reducto, em que estava assentado: ainda me soavam nos ouvidos o seu
clamor de enthusiasmo ao accommette-lo, o sibillar das ballas, o grito dos
feridos, o som das armas caindo-lhes das mos, o gemido doloroso e longo da
sua agonia, o estertor de moribundos, e o arranco final do morrer. Os
dentes me rangeram de clera, e a lagryma envergonhada de soldado me
escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos valentes
cairam nesse dia! Eu ia amaldioar os cadaveres dos vencidos, que ainda por
ahi jaziam; porm pareceu-me que elles se alevantavam e me
diziam:--Lembra-te de que tambem fomos soldados: lembra-te de que fomos
vencidos!--E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido, no momento de
expirarem, as idas de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma s, como
tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os
umbraes do outro mundo. Ento ore a Deus por elles: antes de irmo de
armas eu tinha sido christo; e Jesu-Christo perdora, entre as affrontas
da Cruz, aos seus assassinos. A ida de perdo parecia me consolava da
perda de tantos e to valentes amigos. Havia nessa ida torrentes de
poesia; e eu te devi ento, oh crena do Evangelho, talvez a melhor das
minhas pobres canes.

(_Da Minha Mocidade--Poesia e Meditao Cap...._)




A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.


TERCEIRA SERIE.


LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n. 55._




*Deus.*




Deus.


      Nas horas do silencio-- meia-noite--
              Eu louvarei o Eterno!
      Ouam-me a terra, e os mares rugidores,
              E os abysmos do inferno.
      Pela amplido dos cus meus cantos soem,
              E a lua prateada
      Pare no gyro seu, em quanto pulso
              Esta harpa, a Deus sagrada.

      Antes de tempo haver, quando o infinito
              Media a eternidade,
      E s do vacuo as solides enchia
              De Deus a immensidade,
      Elle existiu--em sua essencia involto;
              E, fra delle, o nada:
      No seio do Creador a vida do homem
              Estava ainda guardada:
      Ainda ento do mundo os fundamentos
              Na mente se escondiam
      Do Omnipotente, e os astros fulgurantes
              Nos cus no se volviam.

      Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
              Das mos se do Senhor:
      Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
              Uma primeira flor:
      Sobre o invisivel eixo range o globo:
              O vento o bosque onda:
      Retumba ao longe o mar: da vida a fora
              A naturesa anca!

      Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
              Ou cantar teu poder?
      Quem dir de Teu brao as maravilhas,
              Fonte de todo o ser,
      No dia da creao; quando os thesouros
              Da neve amontoaste;
      Quando da terra nos mais fundos valles
              As aguas encerraste?!

      E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
              Com dextra poderosa,
      Fez, por lei immutavel, se librassem
              Na mole ponderosa?
      Onde existia ento? No typo immenso
              Das geraes futuras;
      Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
              Na terra e nas alturas!

      Oh, quanto  grande o Rei das tempestades,
              Do raio, e do trovo!
      Quo grande o Deus, que manda, em secco estio,
              Da tarde a virao!
      Por sua Providencia nunca, embalde,
              Zumbiu minimo insecto;
      Nem volveu o elephante, em campo esteril,
              Os olhos, inquieto.
      No deu Elle  avezinha o gro da espiga,
              Que ao ceifador esquece;
      Do norte ao urso o sol da primavera,
              Que o reanima e aquece?
      No deu Elle  gazella amplos desertos,
              Ao cervo o bosque ameno,
      Ao flamingo os paues, ao tigre um antro,
              No prado ao touro o feno!
      No mandou Elle ao mundo, em lucto e trvas,
              Consolao e luz?
      Acaso, em vo, algum desventurado
              Curvou-se aos ps da cruz?
      A quem no ouve Deus? Smente ao mpio,
              No dia da afflico,
      Quando pesa sobre elle, por seus crimes,
              Do crime a punio.

      Homem, ente immortal, que s tu perante
              A face do Senhor?
      s a juna do brejo, harpa quebrada
              Nas mos do trovador!
      Olha o negro pinheiro, campeando
              Dos Alpes entre a neve:
      Quem arranca-lo de seu throno ousra,
              Quem destruir-lhe a seve?
      Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
              Extremo Deus mandou!
      L correu o aquilo: fundas raizes
              Aos ares lhe assoprou.
      Suberbo, sem temor, sau na margem
              Do caudaloso Nilo,
      O corpo monstruoso ao sol voltando,
              Medonho crocodilo.
      De seus dentes em roda o susto mra:
              V-se a morte assentada
      Dentro em sua garganta, se descerra
              A boca affogueada.
      Qual duro arnez de intrepido guerreiro
               seu dorso escamoso;
      Como os ultimos ais de um moribundo
              Seu grito lamentoso:
      Fumo e fogo respira quando irado:--
              Porm, se Deus mandou,
      Qual do norte impellida a nuvem passa,
              Assim elle passou!

      Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
              Perdoa ao teu cantor!
      Dignos de ti no so meus frouxos cantos;
              Mas so cantos de amor.
      Embora vs hypocritas te pintem
              Qual barbaro tyranno;
      Mentem, por dominar, com ferreo sceptro,
              O vulgo cego e insano.
      Quem os cr  um mpio!--Arrecear-te
               maldizer-te, oh Deus:
       o throno dos despotas da terra
              Ir collocar nos cus.
      Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
              Dos males da existencia
      Tranquillo, e sem terror,  sombra posto
              Da tua Providencia.

_Plymouth--Setembro de 1831._




*A Tempestade.*


A ANTNIO FELICIANO DE CASTILHO.


            _Alma affinada pelas harpas de anjos;
            Rei das canes--entenders meu hymno!_


                                          O Auctor.




A Tempestade.


      Sibilla o vento:--os torrees de nuvens
              Pesam nos densos ares:
      Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
              Pela extenso dos mares:
      A immensa vaga ao longe vem correndo,
              Em seu terror involta;
      E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
              A tompestade slta.
      Do sol, no occaso, um raio derradeiro,
              Que, apenas fulge, morre,
      Escapa  nuvem, que, appressada e espessa,
              Para apaga-lo corre.
      Tal nos affaga em sonhos a esperana,
              Ao despontar do dia,
      Mas, no acordar, l vem a consciencia
              Dizer que ella mentia.

      As ondas negro-azues se conglobaram;
              Serras tornadas so,
      Contra as quaes outras serras, que se arqueam,
              Bater, partir-se vo.

      Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume,
              Da naturesa aoite!
      Tu guias os bulces, do mar princesa;
              E  teu vestido a noite!
      Quando no pinheiral, entre o granizo,
              Ao sussurrar das ramas,
      Vibrando sustos, pavorosa ruges,
              E assolao derramas,
      Quem porfiar comtigo, ento, ousara
              Da gloria e poderio;
      Tu que fazes gemer pendido o cedro,
              Turbar-se o claro rio?

      Quem me dera ser tu, por balouar-me
              Das nuvens nos castellos,
      E vr dos ferros meus, em fim, quebrados
              Os rebatidos los!
      Eu rodera, ento, o globo inteiro:
              Eu sublevra as aguas:
      Eu dos volces, com raios accendra
              Amortecidas frguas:
      Do robusto carvalho e sobro antigo
              Accurvaria as frontes;
      Com furaces, os areaes da Lybia
              Converteria em montes:
      Pelo fulgor da lua, l do norte
              No polo me assentra,
      E vra prolongar-se o gelo eterno,
              Que o tempo amontora.
      Alli eu solitario, eu rei da morte,
              Ergura meu clamor,
      E dissera: sou livre, e tenho imperio:
              Aqui, sou eu senhor!

      Quem se poder erguer, como estas vagas,
              Em turbilhes incertos;
      E correr, e correr--troando ao longe--
              Nos liquidos desertos!
      Mas entre membros de lodoso barro
              A mente presa est!....
      Ergue-se em vo aos cus:--precipitada,
              Rapido, em baixo d.

      Oh morte!--amiga morte!-- sobre as vagas,
              Entre escarceus erguidos,
      Que eu te invoco, pedindo-te feneam
              Meus dias aborridos:
      Quebra duras prises, que a naturesa
              Lanou a esta alma ardente;
      Que ella possa voar, por entre os orbes,
              Aos ps do Omnipotente:
      Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
              Desa, e estourando a esmague;
      E a grossa proa, dos tufes ludibrio,
              Solta, sem rumo vague!

      Porm, no!--Dormir deixa os que me cercam
              O somno do existir:
      Deixa-os; vos sonhadores de esperanas
              Nas trvas do porvir.
      Dce me do repouso--extremo abrigo
              De um corao oppresso--
      Que ao ligeiro prazer,  dor canada
              Negas no seio accesso,
      No despertes--oh no--os que abominam
              Teu amoroso aspeito;
      Febricitantes, que se abraam, loucos,
              Com seu dorido leito!
      Tu, que ao misero ris com rir to meigo,
              Calumniada morte;
      Tu, que entre os braos teus lhe ds azilo
              Contra o furor da sorte;
      Tu que esperas s portas dos senhores;
              Do servo ao limiar;
      E eterna corres, peregrina, a terra,
              E as solides do mar,
      Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
              J filhos teus nasceram:
      Um dia acordaro desses delirios,
              Que to gratos lhes eram.
      E eu, que vlo na vida,--e j no sonho,
              Nem gloria, nem ventura;
      Eu, que esgotei to cedo, at as fezes,
              O calis da amargura;
      Eu, vagabundo e pobre, e aos ps calcado
              De quanto ha vil no mundo,
      Morrer sentindo inspiraes de bardo,
              Do corao no fundo;
      Sem achar sobre a terra uma harmonia
              De alma, que a minha entenda;
      Porque seguir, curvado ante a desgraa,
              Esta espinhosa senda?

      Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa
              Fragor da tempestade;
      Psalmo de mortos, que retumba ao longe;
              Grito da eternidade!....

      Pensamento infernal!--Fugir cobarde
              Ante o destino iroso?
      Lanar-me, involto em maldices celestes,
              No abysmo tormentoso?
      Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me
              Nas lagrymas da terra;
      Guardarei minha estancia attribulada,
              Com meu desejo em guerra.
      O fiel guardador ter seu premio,
              O seu repouso, em fim;
      E atalaiar o sol de um dia extremo
              Vir outro apoz mim.
      Herdarei o morrer!--Como  suave
              Beno de pae querido,
      Ser o despertar; vr meu cadaver,
              Vr o grilho partido.

      Um consolo, entretanto, resta ainda
              Ao pobre velador:
      Deus lhe deixou, nas trvas da existencia,
              Doce amisade e amor.
      Tudo o mais  Sepulchro, branqueado
              Por embusteira mo;
      Tudo o mais vos prazeres, que s trazem
              Remorso ao corao.
      Passarei minha noite a luz to meiga,
              At o amanhecer;
      At que suba  patria do repouso,
              Onde no ha morrer.

_A bordo da Juno, na Bahia da Biscaya--Maro de 1853._




*O Soldado.*




O Soldado.


            I.

      Veia tranquilla e pura
      Do meu paterno rio:
      Dos campos, que elle rega,
      Mansissimo armentio:

      Roco matutino:
      Prados tao deleitosos:
      Valles, que assombram selvas
      De sinceiraes frondosos:

      Terra da minha infancia:
      Tecto de meus maiores:
      Meu breve jardimzinho:
      Minhas pendidas flores:

      Harmonioso e sancto
      Sino do presbyterio:
      Cruzeiro venerando
      Do humilde cemiterio,

      Onde os avs dormiram,
      E dormiro os paes;
      Onde eu talvez no durma,
      Nem rese, talvez, mais:

      Eu vos sado!--E o longo
      Suspiro amargurado
      Vos mando.-- quanto pde
      Mandar pobre soldado.

      Sobre as cavadas ondas
      Dos mares procellosos,
      Por vs j fiz soar
      Meus cantos dolorosos.

      Na proa resonante
      Eu me assentava mudo,
      E aspirava ancioso
      O vento frio e agudo;

      Porque em meu sangue ardia
      A febre da saudade,
      Febre que s minora
      Sopro de tempestade;

      Mas que se irrita, e cresce,
      Quando  tranquillo o mar;
      Quando da Patria o cu
      Cu puro vem lembrar,

      Quando, l no occidente,
      A nuvem vaporosa
      A frouxa luz da tarde
      Tinge de cr de rosa;

      Quando, qual globo em brasa,
      O sol vermelho crece,
      E paira sobre as aguas,
      E em fim desapparece;

      Quando no mar se estende
      Manto de negro d;
      Quando ao quebrar do vento,
      Noite e silencio  s;

      Quando sussurram meigas
      Ondas que a nau separa,
      E a rapida ardentia
      Em torno a sombra aclara.


            II.

      Eu j ouvi, de noite,
      No pinheiral fechado,
      Um fremito soturno
      Passando o vento irado:

      Assim o murmurio
      Do mar, fervendo  pra,
      Com o gemer do afflicto,
      Sumido, accorde soa:

      E o scintillar das aguas
      Gera amargura e dr,
      Qual lampada, que pende
      No templo do Senhor,

      L pela madrugada,
      Se o oleo lhe escaca,
      E a espaos expirando,
      Affrouxa e bruxula.


            III.

      Bem abundante messe
      De pranto, e de saudade,
      O foragido errante
      Colhe na soledade!

      Para o que a patria perde
       o universo mudo;
      Nada lhe ri na vida;
      Mra o fastio em tudo;

      No meio das procellas;
      Na calma do oceano;
      No sopro do galerno,
      Que enfuna o largo panno;

      E no entestar co'a terra
      Por abrigado esteiro;
      E no pousar  sombra
      Do tecto do estrangeiro.

      E essas memorias tristes
      Minha alma laceraram;
      E a senda da existencia
      Bem agra me tornaram:

      Porm nem sempre ferreo
      Foi meu destino escuro;
      Sulcou de luz um raio
      As trvas do futuro:

      Do meu paiz querido
      A praia ainda beijei;
      E o velho castanheiro
      No valle ainda abracei!

      Nesta alma regelada
      Surgiu ainda o goso;
      E um sonho lhe sorriu
      Fugaz, mas amoroso.

      Oh, foi sonho da infancia
      Desse momento o sonho!
      Paz e esperana vinham
      Ao corao tristonho.

      Mas o sonhar que monta
      Se passa, e no conforta?
      Minh'alma deu em terra,
      Como se fosse morta,

      Foi a esperana nuvem,
      Que o vento some  tarde.
      Facho de guerra acceso
      Em labaredas arde!

      Do fratricidio a luva
      Irmo a irmo lanra;
      E o grito: _ai do vencido!_
      Nos montes retumbra.

      As armas se ho cruzado:
      O p mordeu o forte:
      Caiu: dorme tranquillo:
      Deu-lhe repouso a morte.

      Ao menos, nestes campos
      Sepulchro conquistou;
      E o adro do estrangeiro
      Seus ossos no tragou.

      Elle herdar, ao menos,
      Aos seus honrado nome:
      Paga de curta vida
      Ser-lhe-ha largo renome.


            IV.

      E a balla sibillando,
      E o trom da artilharia,
      E a tuba clamorosa,
      Que os peitos accendia;

      E as ameaas torvas,
      E os gritos de furor,
      E desses, que expiravam,
      Som cavo de estertor;

      E as pragas do vencido,
      Do vencedor o insulto,
      E a palidez do morto,
      Nu, sanguento, insepulto,

      Eram um chos de dores,
      Em convulso horrivel,
      Sonho de accesa febre,
      Scena tremenda e incrivel!

      E suspirei:--nos olhos
      Me borbulhava o pranto;
      E a dor, que trasbordava,
      Pediu-me infernal canto.

      Oh, sim!--maldisse o instante,
      Em que buscar viera,
      Por entre as tempestades,
      A terra em que nascra.

      Que , em fraternas lides,
      Um canto de victoria?
       um prazer mesquinho;
       triumphar sem gloria.

      Maldicto era o triumpho,
      Que rodeava o horror,
      Que me tingia tudo
      De sanguinosa cr!

      Ento olhei saudoso
      Para o sonoro mar;
      Da nau do vagabundo
      Meigo me riu o arfar.

      De desespero um brado
      Soltou, impio, o poeta.
      Perdo!--chegra o misero
      Da desventura  meta.


            V.

      Terra infame!--de servos aprisco,
      Mais chamar-me teu filho no sei:
      Desterrado, mendigo serei;
      De outra terra meus ossos sero!

      Mas a escravo, que pugna por ferros,
      Que herdar s maldicta memoria,
      Renegando da terra sem gloria,
      Nunca mais darei nome de irmo!

      Largo o mundo ahi 'st ante o livre;
      Que este mundo  a patria do forte:
      Sobre os plainos gelados do norte,
      Luz do sol tambem mana do cu:

      Tambem l se erguem montes, e o prado
      De boninas, em maio, se veste;
      Tambem l se mena um cypreste
      Sobre o corpo que  terra desceu!

      Que me importa o carvalho da encosta?
      Que me importa da fonte o ruido?
      Que me importa o saudoso gemido
      Da rollinha sedenta de amor?

      Que me importam outeiros cubertos
      Da verdura da vinha, no estio?
      Que me importa o remanso do rio,
      E, na calma, da selva o frescor?

      Que me importa o perfume dos campos,
      Quando passa de tarde a bafagem,
      Que se embebe, na sua passagem,
      Na fragrancia da flor do alecrim?

      Que me importa? Pergunta do inferno!
       meu bero!--A minh'alma est l!
      Que me importa?.... esta boca o dir?!
      Maldico, maldico sobre mim!

      Combatamos!--O ferro se cruze,
      Assobie o pelouro nos ares;
      Estes campos convertam-se em mares,
      Onde o sangue se possa beber!

      Larga a valla!--que, apoz a peleja,
      Ns e elles seremos unidos!
      L, vingados, e do odio esquecidos,
      Paz faremos.... depois do morrer!


            VI.

      Assim, entre amarguras,
      Me delirava a mente!--
      E o sol a fugindo
      No termo do occidente.

      E os fortes l jaziam
      Co'a face ao cu voltada;
      Sorria a noite aos mortos,
      Passando socegada.

      Porm, a noite delles
      No era a que passava!
      Na eternidade a sua
      Corria, e no findava.

      Contrarios ainda ha pouco,
      Irmos em fim l eram!
      O seu thesouro de odio,
      Mordendo o p, cederam.

      No limiar da morte,
      Assim tudo fenece!
      Inimisades callam,
      E at o amor esquece!

      Meus dias rodeados
      Foram de amor outr'ora;
      E nem um vo suspiro
      Terei, morrendo, agora:

      Nem o apertar da dextra
      Ao desprender da vida:
      Nem lagryma fraterna
      Sobre a feral jazida.

      Meu derradeiro alento
      No colhero os meus?
      Por minha alma atterrada
      Quem pedir a Deus?

      Ninguem!--Aos ps o servo
      Meus restos calcar;
      E o riso do despreso
      Vaidoso soltar.

      O sino luctuoso,
      No lembrar meu fim:
      Preces, que o morto affagam,
      No se erguero por mim!

      O filho dos desertos,
      O lobo carniceiro
      Ha-de escutar alegre
      Meu grito derradeiro!

      Oh morte!--o somno teu
      S  somno mais largo:
      Porm, na juventude,
       o dormi-lo amargo.

      Quando na vida nasce
      Essa mimosa flor,
      Como a cecem suave,
      Delicioso amor:

      Quando a mente accendida
      Cr na ventura e gloria:
      Quando o presente  tudo,
       inda nada a memoria;

      Deixar a cara vida,
      Ento,  doloroso;
      E o moribundo  terra
      Lana um olhar saudoso.

      A taa da existencia
      No fundo fezes tem;
      Mas os primeiros tragos
      Doces--bem doces--vem.

      E eu morrerei agora,
      Sem abraar os meus,
      Sem jubiloso um hymno
      Alevantar aos cus?

      Morrer!--E isso que importa?
      Final suspiro, ouvi-lo
      Ha-de a patria. Na terra
      Eu dormirei tranquillo.

      Dormir?--S dorme o frio
      Cadaver, que no sente;
      A alma va, e se abriga
      Aos ps do Omnipotente.

      Tambem eu para o throno
      Accorrerei do Eterno:
      Crimes no so meu dote;
      Erros no pune o inferno.

      E vs entes queridos,
      Entes que tanto amei,
      Dando-vos liberdade
      Contente acabarei.

      Por mim livres chorar
      Vs podereis um dia,
      E s cinzas do soldado
      Erguer memoria pia.

_Porto--Julho de 1832._




*D. Pedro.*




D. Pedro.


      Pela encosta do Libano, rugindo,
              O nto furioso
      Passou um dia, arremessando  terra
              O cedro mais frondoso;
      Assim te sacudiu da morte o sopro
              Do carro da victoria,
      Quando, ebrio de esperanas, tu sorrias,
              Filho caro da gloria.
      Se, depois de procella em mar de escolhos,
              A combatida nave
      V terra e o vento abranda, o porto aferra,
              Com jubilo suave.
      Tambem tu demandaste o cu sereno,
              Depois de uma ardua lida:
      Deus te chamou:--o premio recebeste
              Dos meritos da vida.
      Que  esta? Um ermo de espinhaes cortado,
              D'onde foge o prazer:
      Para o justo ella existe alm da campa:
              Teme o mpio o morrer.

      Plante-se a acacia, o symbolo do livre,
              Juncto s cinzas do forte:
      Elle foi rei--e combateu tyrannos--
              Chorae, chorae-lhe a morte!
      Regada pelas lagrymas de um povo,
              A planta crescer;
      E  sombra della a fronte do guerreiro
              Placida pousar.
      Essa fronte das ballas respeitada,
              Agora a traga o p:
      Do valente, do bom, do nosso Amigo
              Restam memorias s;
      Mas estas, entre ns, com a saudade
              Perennes vivero,
      Em quanto,  voz de patria e liberdade,
              Ancear um corao.
      Nas orgias de Roma, a prostituta,
              Folga, vil oppressor:
      Folga com os hypocritas do Tibre;
              Morreu teu vencedor.
      Involto em maldices, em susto, em crimes
              Fugiste, desgraado:
      Elle, subindo ao cu, ouviu s queixas,
              E um choro no comprado:
      Encostado na borda do sepulchro,
              O olhar atraz volveu,
      As suas obras contemplou passadas,
              E em paz adormeceu:
      Os teus dias tambem sero contados,
              Covarde foragido;
      Mas ser de remorso tardo e inutil
              Teu ultimo gemido:
      Do passamento o calis lhe adoaram
              Uma filha, uma esposa:
      Quem, tigre cru, te cercar o leito,
              N'essa hora pavorosa?
      Deus, tu s bom:--e o virtuoso em breve
              Chamas ao goso eterno,
      E o mpio deixas saciar de crimes,
              Para o sumir no inferno?
      Alma gentil, que assim nos has deixado,
              Entregues  alta dr,
      Anjo das prces nos sers, perante
              O throno do Senhor:
      E quando, c na terra, o poderoso
              As Leis aos ps calcar,
      Juncto do teu sepulchro ir o oppresso
              Seus males deplorar;
      Assim, no Oriente, de Alboquerque s cinzas
              O desvalido indiano
      Mais de uma vez foi demandar vingana
              De um despota inhumano.

      Mas quem ousra  patria tua e nossa
              Curvar nobre cerviz?
      Quem roubar ao lusitano povo
              Um povo ser feliz?

      Ninguem! Por tua gloria os teus soldados
              Juram livres viver.
      Ai do tyranno que primeiro ousasse
              Do voto escarnecer!
      N'esse abrao final, que nos legaste,
              Legaste o genio teu:
      Aqui--no corao--ns o guardmos;
              Teu genio no morreu.
      Jaz em paz: essa terra, que te esconde,
              O monstro abominado
      S pisar ao baquear sobre ella
              Teu ultimo soldado.

      Eu tambem combati:--nas patrias lides
              Tambem colhi um louro:
      O prantear o Companheiro extincto
              No me ser desdouro.
      Para o Sol do Oriente outros se voltem,
              Calor e luz buscando:
      Que eu pelo bello Sol, que jaz no occaso,
              C ficarei chorando.

_Porto--Novembro de 1834._





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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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