The Project Gutenberg EBook of A architectura religiosa na Edade Mdia, by 
Augusto Fuschini

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Title: A architectura religiosa na Edade Mdia

Author: Augusto Fuschini

Release Date: August 8, 2010 [EBook #33377]

Language: Portuguese

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                                             Rita Farinha (Agosto 2010)




A ARCHITECTURA RELIGIOSA

NA

EDADE-MDIA




ENSAIOS DE HISTORIA DA ARTE



A ARCHITECTURA RELIGIOSA

NA

EDADE-MDIA

POR

AUGUSTO FUSCHINI



LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1904




_A Minha Filha Octavia Fuschini de Lima Mayer_




INTRODUCO


As noes fundamentaes do nosso espirito so absolutamente indefiniveis.
Sentem-se; nada mais. Se lhe procurarmos a definio, cahiremos em
simples labyrintos de palavras, consistindo, quasi sempre, em
verdadeiros circulos viciosos. Tomemos, para exemplo, o espao e o
tempo, noes bem fundamentaes.

O que  o espao?  o _meio_, sem limites, onde existem em continuo
movimento todos os corpos; o que equivale a dizer que o _espao_  o
_espao_.

O que  o tempo?  a serie indefinida de momentos, durante os quaes se
realisa a successo dos factos physicos e moraes; o que equivale a dizer
que o _tempo_  o _tempo_.

Assim, parece que as idas ou noes fundamentaes teem o singular
caracter de ser facilmente comprehensiveis pela intelligencia humana,
sem que ella tenha palavras rigorosas ou phrases perfeitas, para as
definir com sufficiente clareza.

Dados o espao e o tempo, a materia e o espirito em perpetuo movimento
produzem a totalidade dos factos e phenomenos physicos e moraes,
constituindo o Universo, que sem as primeiras noes seria absolutamente
impossivel e incomprehensivel.

Pouco nos importa saber, n'este momento, se a materia e o espirito
coexistem, ou se o espirito  apenas um attributo da materia, organisada
segundo leis desconhecidas. Os phenomenos passam-se como se fossem
distinctos; deixemos, pois, a investigao d'este problema, que alis
parece insoluvel, aos metaphysicos e aos theologos.

O que podemos considerar quasi certo  que a materia em movimento nos d
as noes exactas do espao e do tempo; e o espirito em actividade nos
d, tambem, as noes claras do bem, do bello e do justo, que so como
as primeiras completamente indefiniveis na sua natureza absoluta.

Quem aprecia o tempo e o espao? Os sentidos physicos.

Quem aprecia o bem, o bello e o justo? Esse _sentido_ especial e
perfeitissimo, denominado consciencia, a faculdade de _julgar_ que
possue a intelligencia humana.

As similhanas mostram-se ainda mais intimas. As noes do espao e do
tempo so inseparaveis. A nossa intelligencia no pode conceber uma sem
a outra. O bello, o bem e o justo manifestam a mesma qualidade. So
noes correlativas.

 certo que a complexidade dos phenomenos animicos torna esta correlao
menos evidente do que a primeira, mais simples e clara pela sua origem
physica; mas, discutindo bem e com profundidade qualquer facto de ordem
animica, chega-se a descobrir que uma d'estas noes do nosso espirito
envolve, sempre, as outras duas em maior ou menor grau.

Assim, pois, poderemos, sem grande receio de errar, estabelecer tres
definies:

A Arte  a expresso do bello;

A Moral  a expresso do bem;

O Direito  a expresso da justia.

Ora, como as noes do nosso espirito se manifestam subordinadas a leis
geraes, temos tres sciencias, que estudam as manifestaes externas e
visiveis da propria essencia do espirito humano.

Eis-nos entrados no campo positivo e experimental. Um longo periodo
historico prova j que o nosso espirito  successivamente perfectivel e
evolutivo; no o sendo, de certo, nos principios fundamentaes, mas sim
na applicao d'esses principios e na variedade infinita de combinaes,
que se podem fazer com as idas, como se obtem com as notaes musicaes.

Se nos fosse permittido, empregariamos a seguinte expresso: a
perfectibilidade  a lei fundamental do espirito humano, a evoluo o
seu methodo.

Convm, todavia, observar, como um facto historico e psychologico, que a
alma humana--digamos a palavra--no  perfeitamente livre no pensamento
e na aco. Deixemos a theoria do _Livre Arbitio_ para ser definida em
Concilio.

Os astros, esses at, que esto sujeitos a leis immutaveis e
mathematicas, soffrem perturbaes nas respectivas orbitas, por
influencias ainda mysteriosas algumas, outras descobertas em certos
casos. Ora, sobre as leis moraes as influencias so variadissimas; por
isso, o _astro espiritual_, a Ida, caminha sempre em determinado
sentido, s vezes, com enormes desvios.

O raciocinio prev as causas d'essas grandes irregularidades e a
experiencia demonstra a verdade d'essas previses.

Em relao  Arte, estas causas podem grupar-se em tres grandes
categorias:

1.^a A influencia do _meio_ natural, da atmosphera physica e cosmica;

2.^a A influencia do _meio_ historico, isto , do conjuncto de
circumstancias que em dado momento constituem a atmosphera social;

3.^a A influencia do _meio_ particular de cada individuo, formado pelo
proprio caracter e talento, pelas suas condies dentro da sociedade e
da familia, ou pelo menos, dentro do pequeno grupo social, em que se
executa o seu trabalho e se exerce a sua actividade.

Teremos occasio de explicar mais tarde algumas applicaes d'estes
principios; mas seja-nos permittido concretisal-os um pouco mais,
principalmente o primeiro.

Nas leis historicas--e a Arte tem historia e leis--entre as influencias,
actuando obscura e vigorosamente sobre o caracter dos povos e sobre os
destinos das naes, a sciencia no conseguiu ainda definir bem a aco
profunda dos elementos climatericos e geographicos sobre o espirito
humano; todavia, essa influencia presente-se, ou melhor prova-se e
deduz-se da diversidade das raas e dos caracteres moraes dos habitantes
da terra.

A forma humana, como  incontestavel, soffre a influencia d'este _meio_
externo e s modificaes d'essa forma correspondem modos de ser e
intensidades differentes de intelligencia. Ora, se nas linhas geraes do
nosso espirito se observa a aco dos agentes climatericos e
geographicos, como a vida dos povos depende das proprias funces
intellectuaes e, pelo menos, em forte proporo o bem e o mal proveem do
exercicio da intelligencia humana, no  vago presentimento mas verdade
scientifica a existencia de leis, embora ainda no formuladas, que
expliquem a correlao das idas e das instituies dos povos com a
climatologia e a geographia da zona habitada.

Na constituio de certas noes, esta influencia deve ser profunda. A
noo de Deus, o melhor manancial da Arte, e o grupo de idas e de
sentimentos, que em volta d'ella, como centro, constituem por assim
dizer uma categoria do espirito humano, esto, sem duvida, n'estas
condies. O exemplo  excellente.

Seja qual fr a origem da crena no sobrenatural, derive esta crena da
intima essencia da alma, provenha da revelao divina, nasa da
generalisao espiritual ou material das foras naturaes, funde-se na
grandeza dos factos cosmicos, ou no receio dos phenomenos physicos, 
indiscutivel que a essencia e a evoluo da ida de Deus e das formulas
do culto externo offerecem caracteres mais ou menos harmonicos com as
condies geographicas e climatericas, que lhes serviram de ambiente.

O polytheismo guerreiro, honesto e nebuloso, dos povos septentrionaes da
Europa e o polytheismo grego, livre e artistico, foram concebidos em
_meios_ differentes. As regies asperas e rudes do norte, onde os gelos
e as tempestades, durante longo periodo do anno, difficultam a lucta
pela existencia, no podiam ser habitadas pelas divindades do Olympo.

O ceu puro da Grecia, a limpidez da atmosphera jmais escurecida por
tempestades terriveis, a amenidade do clima, os contornos suaves dos
montes, o murmurio poetico dos pequenos rios, as frescas florestas de
platanos em valles abertos, o perfume de flores variadas, o sabor
delicado dos fructos, em summa, as excellentes condies climatericas e
geographicas da Grecia permittiram ao genio popular a creao de uma
familia de divindades, em quem o amor sensual, o gso physico e a
belleza das formas traduziram admiravelmente a doura das foras
naturaes.

As vagas enormes, revoltas e furiosas dos mares arcticos no podiam
gerar a belleza do Eterno Feminino. Das ondas serenas do mar Egeu,
coroadas de espuma branca e transparente como finissima renda, que
vinham quebrar-se com suavidade sobre a areia dourada das costas do
Peloponeso, nasceu o formoso corpo de Venus, a expresso ideal da
belleza da forma.

E, todavia, germanos e gregos eram da mesma raa, d'esses aryas brancos
e louros que dos confins da Bactriana, talvez por caminhos differentes,
haviam emigrado, seguindo a trajectoria do Sol, que lhes indicava
propheticamente a sua grande obra, a futura civilisao da Europa.

Se fizermos tambem estudos sobre raas differentes, chegaremos aos
mesmos resultados.

A _anthropomorphose_ da ida de Deus  lei fundamental do espirito
humano e at hoje o manancial mais rico de productos artisticos de todas
as ordens. A representao physica e a definio moral da divindade
derivam, sem a menor duvida, da idealisao e da generalisao das
qualidades physicas e psychicas do homem. Pode haver duvida se, conforme
o _Genesis_, o homem foi creado  imagem e similhana de Deus; , porm,
indiscutivel que na constituio d'este symbolo lhe demos muito da nossa
forma e ainda mais do nosso espirito.

Eram polytheistas as raas aryanas, segundo parece. A duvida pode nascer
de que na Grecia o polytheismo pertencia s classes populares, emquanto
os sabios criam na Unidade do Espirito. Assim, Anaxagoras, Socrates e a
sua escola, em que floresceram os maiores sabios, philosophos,
estadistas e artistas do grande seculo de Pericles, acreditavam na
unidade de Deus; eram monotheistas.

Seja como fr,  facil de comparar a forma e o espirito de Jupiter, do
Monte Olympo, com os de Jehovah, do Monte Sinai, isto , a concepo da
divindade entre aryas polytheistas, os gregos, e semitas monotheistas,
os hebreus.

A figura sombria e magestosa de Jehovah no s era feita  imagem e
similhana do caracter hebreu; mas reflectia, tambem, a grandeza
melancholica da cordilheira do Libano e das montanhas da Palestina.

Esse Espirito, vivendo fra do cahos e creando a ordem entre os
elementos, eternos como elle, pelo esforo da propria vontade
omnisciente, ora energico e duro, ora manso e amoroso, pedindo a Abraho
o cruel sacrificio do filho e contentando-se com a offerta no templo de
algumas pombas brancas, era o reflexo d'esse clima da Palestina, onde,
umas vezes, furiosas tempestades electricas rasgam as calliginosas
nuvens e os raios fazem explodir os rochedos, ou o _simoun_, soprando
dos areiaes ardentes da Arabia, secca as plantas e prostra os homens;
onde, outras vezes, os ventos frescos do Mediterraneo, fazendo voar no
ceu azul bandos de nuvens brancas, levam a frescura e a vida  flora
tropical riquissima das campinas da antiga Juda.

Se apreciarmos bem a natureza essencial dos factos mythologicos, que
formam a biographia lendaria de Jupiter, encontraremos no o espirito
ardente, sombrio e puro da divindidade hebraica, mas esse caracter
leviano e sensual, que define a raa hellenica, pelo menos no ramo
jonico. Foi ainda a aco do clima, que facetou os caracteres da raa;
foram ainda estes caracteres, que se crystallisaram n'uma forma especial
da ida de Deus.

Emquanto  influencia do _meio_ social, que poderiamos escrever que no
fossem paraphrases das idas e copias das leis positivas, que Taine
expoz, com a maior lucidez de espirito e brilhantismo de estylo, na
_Philosophia da arte_, depois applicada  Grecia,  Italia e aos Paizes
Baixos?

De facto, se o _meio_ climaterico e geographico envolve e faceta o
espirito humano, o _meio_ social ou historico tem ainda mais profunda e
directa influencia sobre o individuo. Assim, pode dizer-se, em rigor,
que o homem existe mergulhado n'uma atmosphera moral e intellectual, da
qual recebe, se nos  consentida a phrase, a alimentao animica.

Ora, a aco d'esta atmosphera exerce-se tanto mais energica e
activamente, quanto as manifestaes intellectuaes mais dependem do
mundo exterior. A sciencia pode at certo ponto dispensar o applauso das
multides; a arte, pelo contrario, exige-a, porque o seu principal fim
consiste em corresponder a essa necessidade do bello, que parece ser
qualidade fundamental da alma humana.

Diz-se que Wronski descobriu leis mathematicas, que s podero ser bem
comprehendidas em seculos futuros. Admittamos a hypothese. Affirmaremos
pela nossa parte que artista algum ter a pretenso de crear primores
para as geraes futuras, sob pena de no ter admiradores actuaes, o que
lhe pede o proprio espirito, e compradores, o que em regra lhe exigiro
as conveniencias particulares.

A regra de boa philosophia que nos aconselha a sermos _homens do nosso
tempo_,  uma lei suprema para os artistas, imposta pela propria
essencia da arte e pelas necessidades animicas e sociaes dos seus
cultores.

Assim, a influencia do _meio_ social, que se exerce sobre todas as
manifestaes do espirito humano, actua com maior intensidade nos de
ordem esthetica.

Convem, egualmente, attender  influencia do caracter individual do
artista, ao seu pequeno _meio_ familiar, ao ambiente das amizades e dos
odios que se forma em volta de ns sempre e mais actua sobre os grandes
artistas, em regra, neurasthenicos e possessos da nevrose do genio e do
talento. Taine tambem se refere a este ponto, um pouco ao de leve
talvez. Sem a ousadia de o completar, citemos um exemplo curioso e
caracteristico, um s para no avolumar esta modesta exposio.

 sabido que no seculo XVII Sevilha foi um riquissimo centro de Arte. Na
_casa de ouro_ reuniam-se, dia a dia, poetas, prosadores, pintores e
esculptores, entre elles Cervantes, Quevedo, Murillo, Valdez Leal,
Montaez, Herrera e muitos outros. N'esse seculo a escola hespanhola de
pintura attingira o maior esplendor. Os chefes da escola sevilhana eram
Murillo e Valdez Leal, que alis  pouco conhecido fra da peninsula a
no ser pelos eruditos.

Murillo era um santo homem, modesto e simples no viver, um mystico
absorto no amor de Deus e da familia, artista colossal, creado e feito
pelo unico esforo do seu genio e pelo amigavel auxilio de Velasquez.
Valdez Leal, pelo contrario, era um genio atrabiliario, cheio de
emulao ardente a roar quasi pela inveja, ambicioso e energico, bom
catholico de certo porque era perigoso no o ser no seculo XVII,
principalmente em Hespanha. Genio tinha-o, no tanto como Murillo; mas o
genio transparece nos seus quadros, a nosso ver principalmente no
formoso quadro do _Bispo morto roido pelos vermes da morte_, uma
maravilha de perspectiva, de desenho, de cr e de effeitos de luz.

O caracter d'estes grandes pintores traduz-se nas suas obras. O estylo
vaporoso de Murillo, o seu estylo definitivo, offerece as qualidades do
seu espirito. Colorido suavissimo, contornos um pouco vagos, expresses
bondosas em assumptos mysticos, do uma impresso ideal aos seus
quadros, dos quaes, se o nome se perdesse, se poderiam deduzir as
qualidades do espirito do auctor.

Valdez Leal tem qualidades extraordinarias, no  duro como Joo de
Castilho, mestre commum d'elle e de Murillo, nem violento como Herrera;
mas sente-se na sua pintura a influencia da vontade e o azedume do
caracter.

Este exemplo parece-nos ser frisante e podia ser completado com outros,
at entre ns e nos tempos modernos...

Expostas estas doutrinas sobre a influencia do ambiente, que envolve a
evoluo da Arte e actua sobre os artistas, convem observar que a aco
do mundo exterior tende a diminuir com o desenrolar do progresso. ,
talvez, esta uma das causas da especie de _anarchia_, que hoje se
observa na produco da Arte e nos estylos dos artistas. O excesso de
individualismo d, sem duvida, liberdade e expanso aos genios; mas o
genio  a excepo e a regra o talento.

Podemos, pois, acceitar como demonstrado, que a Arte  evolutiva e as
suas phases especiaes, os estylos, correspondem a estados do espirito
humano, sob a influencia das condies particulares da natureza, da
sociedade e at do proprio individuo.

Appliquemos esta doutrina  Architectura, porque os seus productos, pela
propria grandeza e quantidade, se conservam melhor e se perdem menos,
manifestando, assim, menores solues de continuidade. Limitaremos, por
obvias razes, esta applicao  Architectura religiosa nos tempos
christos, o assumpto exclusivo d'este livro, fazendo, apenas, um breve
schema.

O Estylo Classico grego, modificando algumas qualidades e ganhando
outras, produziu o Classico Romano.

O espirito do Christianismo, no Imperio do Occidente, obtendo a
liberdade e a aco social, apoderou-se do classico romano, modificou-o,
segundo as necessidades religiosas e do culto, gerando o Estylo Latino.
Ao mesmo tempo quasi parallelamente, o Christianismo no Imperio do
Oriente, fundando-se em outros elementos, creava o Estylo Byzantino. Sob
a aco do elemento barbaro, os dois estylos, caminhando para o centro
da Europa, se nos  permittida a expresso, encontraram-se,
harmonisaram-se, produzindo o Estylo Romanico.

As modificaes profundas, occorridas nas sociedades dos seculos XI, XII
e XIII, transformaram o Estylo Romanico, nascendo o Estylo Ogival, que
atravessou tres seculos, para a seu turno se transformar, sob a aco
poderosa da Renascena.

Os estylos so, pois, los d'essa cadeia de phases architectonicas, que
se estende atravez dos seculos, ligando a inspirao e o trabalho da
Humanidade.

Assim, a Arte  a expresso do bello, e o Estylo a forma particular
d'essa expresso, em determinado periodo historico.




PARTE PRIMEIRA

ORIGENS DA ARCHITECTURA CHRIST




CAPITULO PRIMEIRO

A LUCTA ENTRE O PAGANISMO E O CHRISTIANISMO


O antigo espirito classico, que produzira as magnificas civilisaes da
Grecia e de Roma, esmorecia, como esmagado sob o peso da sua propria e
grandiosa obra, quando dois elementos novos, talvez regulados pela lei
suprema da conservao e do perpetuo rejuvenescimento da Humanidade, se
manifestaram com profundo vigor e intensidade no seio das velhas
sociedades decadentes: o Christianismo e a invaso dos barbaros.

Assim, os factos historicos, as idas e os sentimentos humanos, as
instituies sociaes, a moral, a politica e a arte, se explicam pela
aco reciproca e poderosa dos tres principios, o classico, o christo e
o barbaro, que so as causas efficientes da edade-media e da civilisao
moderna.

J no tempo de Cesar e de Augusto, os primeiros Imperadores, cuja
grandeza de genio  incontestavel, a sociedade romana entrra em plena
decadencia. Os vicios da antiga Republica, que os bons cidados e os
philosophos contemporaneos no haviam podido expungir, cavaram-lhe a
ruina.

O Imperio correspondia, sem duvida, s necessidades de corrigir ardentes
ambies em continuas luctas, que produzem sempre a anarchia politica, e
de imprimir aco energica e centralisadora  enorme expanso das
conquistas; mas o Imperio trazia na propria essencia dois vicios
terriveis e inevitaveis: o despotismo, a extinco completa das ultimas
liberdades publicas, e a constituio militar, como poder especial
independente dos cidados, o _militarismo_ segundo a expresso moderna.

Na agonia da Republica, Cato de Utica previra o desastre. Luctara para
o evitar, chegando at a apontar o homem, Julio Cesar, que devia
destruir o quasi phantasma da antiga liberdade romana. O futuro
Dictador, ainda muito novo, espreitava e preparava, entre os prazeres
dos ricos e dos poderosos da Roma republicana, pelo amor das mulheres,
pela elegancia, pelos costumes faceis e at pela lisonja, a origem da
grandeza, que mais tarde encontrou no proconsulado das Gallias.

Assim tambem, Napoleo, frequentando os sales politicos e litterarios
do Directorio republicano, conseguiu ser nomeado general em chefe dos
exercitos da Italia. Singular coincidencia entre dois homens de caracter
to parecido, dois genios innegavelmente; um procura nas Gallias, a
Frana, outro na Italia, a Republica Romana, as origens de futuros
imperios!

Durante o Imperio, pelo menos nos primeiros tempos, as ambies foram
enfreadas pela existencia do poder perpetuo da dictadura; mas, se
algumas das antigas instituies conservaram os nomes, foram-lhes
tiradas a pouco e pouco as ultimas funces. Os fracos lampejos da
liberdade republicana em breve se extinguiram na escurido profunda do
mais feroz despotismo, at hoje conhecido. O Cesar era dictador e
pontifice-maximo, o soberano absoluto dos povos e o chefe espiritual das
consciencias.

Tambem  certo que a energia da centralisao politica e administrativa
do Imperio facilitou o espirito conquistador e a conservao das
conquistas, mais do que o podia fazer a esphacelada Republica; mas, como
consequencia logica, estas mesmas condies favoraveis prepararam o
militarismo. Os exercitos nacionaes da Republica tornaram-se as legies
cesarianas do Imperio, que lhes pagava e as dirigia, transformando-se a
pouco e pouco em guardas do Imperador. Era natural e logica esta
confuso entre o homem e o principio. A nao, o povo, a liberdade, os
direitos dos cidados, tudo desapparecera encarnado na pessoa de um
Cesar deificado.

Os resultados eram fataes. Tiberio creou as _guardas pretorianas_ para
defeza da pessoa do Imperador. Sentindo a sua fora, os _pretores_
imperiaes completaram depois logicamente a doutrina e as guardas
pretorianas comearam a escolher os Cesares.

O despotismo e a centralisao do Imperio accentuaram, assim, as causas
da decadencia da sociedade romana, dando-lhe, apenas, por algum tempo um
falso aspecto de fora e de grandeza.

Nos ultimos annos da Republica era j, na realidade, profunda a
desmoralisao das classes superiores. O ouro das depredaes, feitas
nas provincias conquistadas, os costumes luxuosos e dissolutos,
importados com o ouro dos povos orientaes, os grandes latifundios, em
que se dividia a Italia, possuidos por familias poderosas, haviam
amollecido a antiga rigidez do caracter romano. So ainda hoje citadas e
celebres as prodigalidades da magnificencia e do luxo de Lucullo,
_questor_ da Asia.

As despezas excessivas de um estado de guerra constante em regies
differentes e afastadas, a defeza de vastissimas fronteiras, j ento
ameaadas em mais de um ponto, as estradas e as respectivas obras,
pontes, castellos, campos entrincheirados, que constituiam a admiravel
rede de communicaes militares romanas dentro e fra da Italia, as
espoliaes dos grandes e pequenos funccionarios, exigiam o ardor do
fisco, motivavam-lhe as violencias, exercendo-se, como sempre, sobre as
classes populares.

Estas pessimas sementes, lanadas no campo da democracia, ainda haviam
sido contrariadas durante a Republica por instituies e franquias
populares. O Imperio, nivelando a sociedade abaixo de um Cesar deificado
de quem tudo e todos dependiam, extinguindo as ultimas liberdades,
creando uma especie de crte de grandioso fausto, que no tempo de
Elagabalo attingiu as loucuras orientaes nos costumes e no luxo,
desenvolvendo por necessidade o espirito e as foras militares,
accentuou estas causas de decadencia. Nos comeos do Imperio, um
philosopho epicurista, Petronio, deixou-nos uma face viva d'esse estado
moral e social, n'uma satyra celebre e cheia de vigorosa ironia, o
_Satyricon_.

A religio polytheista perdera o prestigio e a fora. As classes
superiores professavam um epicurismo devasso, elegante e atheu. O povo,
sem crenas, debatia-se na miseria politica e economica. Os mythos do
polytheismo podiam interessar imaginaes ardentes e poeticas; mas no
consolavam desgraados, que sobre a terra sentiam apenas, sem uma
esperana, a rudeza do trabalho, as crueldades da dr e o receio da
morte.

Os deuses tinham perdido o seu prestigio, porque no faziam milagres;
esses deuses alegres e devassos, que acceitavam os Cesares por collegas
e o deixavam, a elle, pobre povo, soffrer e morrer de fome, mais
miseravel e esquecido do que as bestas das cavallarias imperiaes...

A religio precisa de milagres, como a politica de grandes e
espectaculosos factos, para se engrandecerem aos olhos dos simples. Esta
necessidade do espirito humano mais vulgar comprehendeu-a Jesus Christo,
o honesto e bom, o illuminado pela Justia Divina, elle, que tanto lhe
repugnava fazel-os.

A philosophia oppunha ainda impotentes esforos ao desabar da sociedade
romana; mas bem na essencia era tambem epicurista. Alm d'isso, prgar a
moral pelo valor da propria moral, dizer aos simples de espirito que a
virtude tem em si o proprio premio, exaltar a humildade e a pobreza aos
pequenos, quando os soberbos e os ricos avassalam os bens e os prazeres
do mundo,  doutrina asss abstracta que s comprehendem os philosophos,
embora s vezes no a pratiquem. Seneca, no principio do Imperio,
ensinava esta doutrina ao povo romano, escrevia livros elogiando a
pobreza; mas o philosopho esquecia-se, apenas, de que era feliz e
riquissimo. A philosophia s  uma grande fora, quando o exemplo
acompanha a palavra.

Por esse tempo, principio do Imperio, na provincia romana da Judea,
manifestou-se o Christianismo. As causas efficientes d'este esplendido e
profundo movimento do espirito humano no podem ser desenvolvidas e
estudadas em trabalho d'esta natureza.

A egualdade entre os homens de todas as raas e condies, o amor e a
fraternidade humanas enunciadas como leis supremas, a f profunda na
existencia de um Deus justo, feito  imagem e similhana da bondade e da
doura de Christo, a esperana n'uma vida eterna de felicidade e de
goso, merecido premio das virtudes e boas obras sobre a terra, doce
compensao dos soffrimentos d'este mundo, emfim, a essencia delicada do
Christianismo desceu sobre os desgraados, os pobres, os enfermos, os
escravos, essa enorme legio de miseraveis, affagou-os, levantou-lhes as
almas, como a chuva fresca e crystallina levanta as cearas resequidas
por longo sol ardente.

Falar aos escravos em liberdade, egualal-os aos senhores,
reconhecer-lhes alma e direitos sobre a terra, embalal-os com a viso
mystica de uma vida eterna, nunca o polytheismo tivera esta linguagem
eloquente, nem os philosophos e os moralistas classicos haviam
professado taes doutrinas.

Devemos observar que a escravido no mundo classico era um facto
legitimo, consequencia logica das organisaes sociaes. O cidado livre
dirigia o Estado, o escravo trabalhava e produzia. As democracias gregas
e a romana, como no Oriente, professavam a diviso das castas, embora
mais adoadas. A cabea, os braos e os ps tinham funces hierarchicas
differentes. A grandiosa estatua social repousava sobre o plintho da
escravido: se o destruissem, o colosso ruiria em pedaos.

Alem d'isso, o numero de escravos em Italia, principalmente na grande e
populosa Roma dos Cesares, era enorme; prisioneiros de guerra uns,
outros reduzidos  escravido hereditaria ou por varias causas, mas em
grande parte da mesma raa dos senhores, ou de raas equivalentes. A
escravido moderna defendeu-se, por longo tempo, recrutando as victimas
entre as raas negras ou indias da America, consideradas inferiores. O
escravo do mundo antigo, recordando-se da passada liberdade, ou
sentindo-se do mesmo sangue dos senhores, devia experimentar bem no
fundo da alma o sentimento de revolta, que nenhuma miseria humana
consegue suffocar. As grandes sublevaes servis, principalmente a
ultima de Spartaco, um seculo antes de Christo, confirmam estas
observaes.

A doutrina de Christo, cheia de amor, de esperana e de bondade, era
tambem de molde para suggestionar a alma da mulher, incutindo-lhe a f e
o ardor do proselytismo. O espirito feminino  um instrumento perfeito e
delicado. A natureza creou as mulheres para nossas amantes e mes, as
duas expresses mais finas e elevadas dos sentimentos humanos; por isso,
se no lhes concedeu outros em larga escala, as notas da alma feminina
so n'estes de deliciosa finura, s vezes incomprehensivel para os
homens vulgares.

A mulher classica estava bem longe de ter subido ao logar elevado, que
depois lhe deu o Christianismo no seio da familia. A grega vivia isolada
no _gyneceo_, leve sombra do serralho dos povos orientaes. A romana
subira um pouco; sendo, porem, ainda considerada sujeita ao marido, como
os filhos ao patrio poder.

O divorcio entre os antigos era um facto corrente e facil; ora, a mulher
sente que o seu logar  na familia. O adulterio, crime horrendo para as
mulheres, soffria em geral penas infamantes ou a morte. A mulher
classica era, em summa, uma serva, uma filha, uma forma de propriedade
do marido.

O Christianismo tornava-a companheira e egual ao homem. Christo dissera
que o casamento na terra se mantinha no Ceu. Jesus defendera a adultera
e, um dia, glorificou a loura mulher de Magdala, envolvendo a prostituta
no doce manto do seu amor, glorificando-a perante os homens e salvando-a
perante Deus.

O Christianismo tinha a linguagem, eloquente e expressiva, que entendem
logo os simples e as mulheres.

Assim, nos primeiros tempos, o florilegio christo  riquissimo em
martyres femininos. A mulher morre pela religio de Christo com a f e a
resignao, diremos mais, com a vontade e a energia do homem.  um facto
singular d'este bello e grandioso movimento do espirito humano.

O polytheismo era a religio da forma e da belleza, cheia de mythos
absurdos e incomprehensiveis, religio de culto externo, secca
philosophia encarnada em symbolos obscuros. O Christianismo era a
religio do espirito, replecto de doces verdades e de sentimentos
adoraveis, religio de culto interno, moral clara e divina que Jesus
Christo expozera com phrases singelas no bello sermo da montanha.

Os prophetas hebraicos haviam dito que seria espiritual a religio do
futuro e constituiria o patrimonio da humanidade; que a piedade valia
mais do que o sacrificio e o conhecimento de Deus mais do que os
holocaustos. Ns vemos hoje realisada a grande obra de Christo. Os
prophetas viram o futuro a quarenta seculos de distancia!

Assim, se explica como o Christianismo teve uma expanso enorme, apenas
comeou a ser evangelisado entre os povos classicos, sujeitos ao jugo do
Imperio. O _meio_ estava preparado, a doutrina era excellente.

Os que soffriam os males de espirito, os que padeciam as doenas da
carne, os pobres, os enfermos, as victimas da sociedade classica,
affluiam s catecheses, bebendo com soffrega delicia o filtro espiritual
do Verbo Eterno.

A diffuso da religio christ em Roma, logo nos primeiros annos,
constitue um facto assombroso na historia do proselytismo. J no anno 64
de Christo, o grande incendio, que devorou parte importante de Roma,
pde ser attribuido  malevolencia dos adeptos das novas idas,
considerados conspiradores contra o Imperio e gente de costumes
suspeitos e mysteriosos. Nero iniciou as perseguies, o que demonstra o
espirito que reinava em Roma e o numero avultado de christos, que
impelliam os poderes constituidos a extinguil-os pela fora e pela
violencia.

Os melhores imperadores romanos, assim considerados ainda hoje pelo
genio politico e pelo caracter pessoal, foram os maiores perseguidores
dos christos. Trajano, Marco Aurelio, Deocleciano alargaram as
perseguies pelas vastas provincias do Imperio. O sangue correu em
jorros, sem distinco de edade e sexo. A lucta foi terrivel e desegual
entre as idas classicas, que ento representavam a ordem, e as idas
christs, innovaes perigosas e immoraes, segundo a critica do tempo.
Os primeiros tres seculos do Christianismo constituem o periodo
brilhante dos martyres, cujo sangue cimentou a _pedra_, sobre a qual
Jesus Christo fundra a sua Egreja.

As perseguies no foram simples actos de crueldade, como o suppozeram
os christos, que depois imfamaram os imperadores, fazendo a historia a
seu modo. Eram actos politicos; ora, a politica de fora e de violencia
confunde-se com facilidade com a violencia de odios e de crimes. Eis o
que explica a furia singular e ardente dos bons imperadores romanos
contra o Christianismo.

O poder em exercicio  sempre conservador por natureza e essencia; deve
sel-o at, entre certos limites, por deveres de responsabilidade. O
Christianismo apresentava-se como uma revoluo nos espiritos, a
transformao radical da religio pag em que se fundavam as sociedades
classicas. A consciencia da egualdade e da liberdade humanas atacava a
intima essencia do paganismo, substituia-lhe a moral, modificava-lhe a
politica e feria de morte os principios da sua organisao economica.

O despotismo repousa sobre a passividade dos cidados, precisa d'elles
inertes de vontade, movendo-se como automatos sob rigida disciplina, s
ordens respeitadas e no discutidas do poder supremo.  a lei da
constituio do despotismo, que seguiu mais tarde Santo Ignacio de
Loyolla, quando pretendeu oppor a terrivel machina de guerra, a
Companhia de Jesus, aos progressos da Reforma.

O Christianismo creava homens livres e conscientes; embora o seu
espirito mystico tendesse infelizmente a destruir as qualidades civicas,
o _civismo_ a virtude das sociedades classicas. Alm d'isso, o
Cesar-Imperador era o _pontifice-maximo_, poderiamos dizer o papa da
religio pag. O Christianismo atacava-o nas duas principaes origens do
poder despotico, fazendo sair do marasmo e da podrido o espirito humano
e matando-lhe a influencia religiosa sobre milhes de individuos. 
verdade que Jesus Christo dissera: _dae a Cesar o que  de Cesar e a
Deus o que  de Deus_; mas... dissera-o sorrindo...

Estavam, pois, gravemente ameaadas as grandes foras do Imperio; a
segunda, a organisao religiosa, condemnada sem remedio e talvez fosse
a principal. Constantino protegeu o Christianismo desde os primeiros
tempos do seu reinado; mas s se baptisou alguns dias antes de morrer. O
grande estrategico-politico, usando da fora do Christianismo,
apoiando-se n'elle, no abdicou o cargo e a importancia de
_pontifice-maximo_, isto , a influencia sobre o paganismo, seno nos
ultimos momentos da sua vida.

Eis como se explica a lucta tremenda entre as duas doutrinas, uma
representando o mundo antigo, outra que trazia em si o germen das
futuras sociedades. Admiravel manifestao da fora irresistivel da
verdade e da justia!

O Imperio Romano, o maior poder que at hoje viu a terra, e o paganismo,
que formra tantas civilisaes e creara a philosophia, a sciencia e a
grande arte classicas, esses dois colossos, dispondo de tudo que tem
fora e valor n'este mundo, levantaram-se com impeto terrivel para
esmagar o verbo simples e verdadeiro de um judeu desconhecido da
Gallilea. E a fora e o poder cairam vencidos pela Ida!

Jesus Christo, envolvido em pobre tunica, acompanhado de poucos
discipulos, pronuncira a sentena da destruio do paganismo, quando do
alto da montanha, com voz doce e suave, annunciou  Humanidade o bello
preceito: _Amae a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a vs
mesmo_.

A revoluo estava feita. Christo foi a encarnao da Ida, que ento
correspondia s necessidades intellectuaes e moraes da Humanidade e
preparava os seus futuros destinos.

Admiravel manifestao da fora irresistivel da verdade e da justia!




CAPITULO SEGUNDO

OS TRES PRIMEIROS SECULOS DO CHRISTIANISMO


Pelas razes expostas no precedente capitulo, era muito difficil e
perigosa a situao do Christianismo, nos primeiros seculos. As grandes
perseguies repetiam-se, sempre com maior intensidade e crueza, sob os
successivos imperadores, que, muito naturalmente, procuravam conquistar
a fora e a sympathia da opinio publica pag, exigindo d'elles as
violencias e as atrocidades caracteristicas das luctas religiosas. No
intervallo d'estas exacerbaes de odios, a desconfiana e a vigilancia
insupportaveis e constantes opprimiam o gremio dos christos, que,
alis, nos primeiros tempos devia ser constituido em geral por elementos
pobres e obscuros, sem fora alguma na politica e na administrao do
Imperio.

Este estado de cousas prolongou-se desde as primeiras manifestaes
visiveis do Christianismo em Roma, em data impossivel de fixar, at ao
reinado de Constantino, isto , durante um periodo de mais de tres
seculos. A ultima e mais formidavel perseguio foi ordenada por
Diocleciano no anno 303 da ra christ. A tetrarchia, que ento
governava o Imperio, facilitou esta colossal e longa perseguio,
estendendo-a por todas as provincias romanas, com a crueldade e o vigor
que manifestam sempre as medidas extremas de salvao publica.

Durante estes tres seculos terriveis, a grande maioria dos pobres e dos
ignorantes, que constituia a associao christ, no tinha qualidades,
nem gosto, nem tempo, para cultivar as artes, alis j bem decadentes
n'essa epoca. Perseguidos pelas auctoridades romanas, dominados por
ardente proselytismo, em continuas catecheses, vivendo receiosos entre
perigos e miserias, no lhes sobravam, decerto, vontade e tempo para
cultivar as artes, ainda que para isso possuissem qualidades estheticas.

O Christianismo era doutrina to espiritual, fazia depender tanto a
felicidade da prece e da virtude, elevando a alma a Deus e conduzindo-a
ao Ceu, que as formas visiveis do bello, a plastica das artes, deviam
ser consideradas inuteis, se no peccadoras, aos olhos dos crentes. O
mysticismo da edade-media e a seita dos Iconoclastas estavam latentes no
Christianismo nascente.

Alem d'isso, os christos perseguidos, considerados inimigos da
sociedade pag, no podiam construir templos, nem ter formas publicas de
culto, imagens de Deus e dos martyres, sempre o melhor manancial da
Arte, que nos seculos futuros produziro phases artisticas de grande
valor. Nem eram ricos, ao menos, para cultivar as artes, suppondo que o
ardor da propaganda e o espirito da religio lhes consentissem o culto
pago da forma.

A religio precisa de reunir os seus adeptos, para mutuamente avigorarem
a f e incitarem a esperana. Sem a communidade dos fieis, a religio
toma o aspecto de simples philosophia, mais ou menos completa, fria, sem
vigor de propaganda, porque as multides, ligadas pela mesma ida, teem
em si o condo singular de excitar o enthusiasmo, essa embriaguez d'alma
que a leva at ao sacrificio.

Os christos reuniram-se, sem duvida, desde os primeiros tempos; mas
essas reunies eram clandestinas, como as dos conspiradores dos tempos
modernos. Os logares mais occultos e afastados deviam ser os preferidos.
Era logico. Quando o gremio religioso cresceu, e cresceu rapidamente,
no devia ser facil problema encontrar logares amplos e seguros para a
communicao dos fieis e as necessidades do culto, embora nascente e
simples.

A estas necessidades correspondiam as _catacumbas_, vastos subterraneos
que existiam em volta do centro populoso da Roma dos Cesares. A religio
christ em Roma desenvolveu-se debaixo da terra, como para symbolisar a
aco da Ida Nova, que ia minando e corroendo as bases das antigas
sociedades pags.

O auctor d'este livro visitou em Roma uma das mais famosas _catacumbas_,
a de S. Calixto. Percorrendo os subterraneos, lobregos e humidos
labyrintos de encruzilhadas, guiado pela luz mortia de uma lampada,
sentiu na alma a poesia do passado, revelaram-se-lhe a f e a esperana,
doces e profundas, que os seus _irmos_ em Christo, de ha dois mil annos
quasi, sentiam, quando receiosos mas resolutos vinham por entradas e
caminhos differentes reunir-se no sanctuario, para a admisso de
neophytos e para as praticas religiosas.

N'aquella atmosphera pesada e humida pareceu-lhe ouvir ainda os
primitivos canticos, a historia poetica dos martyres mortos que a
linguagem eloquente do espirito religioso dava aos vivos, como exemplo.
Enthusiasmou-se com a f simples e primitiva, nutriu a esperana firme e
serena na desejada victoria; emfim, durante algumas horas, sentiu-se
possesso, deliciosamente possesso, da energia de vontade, da pureza de
sentimentos e da firmeza de crenas de um iniciado d'esses primeiros
seculos do Christianismo.

Galerias sinuosas e extensas de seco regular, um metro por dois
metros, cruzam-se com angulos muito abertos, formando um complicado
tecido de subterraneos, excavados em tufo escuro, porso e infiltrado de
agua. Nas duas paredes lateraes d'estas galerias, longas filas
horisontaes de sarchophagos, sobrepostos por vezes em tres ordens, foram
excavadas na rocha branda. Eram as sepulturas dos primeiros christos.

Nos tempos primitivos, provavelmente, esses sarcophagos foram fechados
por lapides; mas hoje, abertos e negros  luz vacillante da lampada,
essas filas extensas de buracos teem um aspecto monstruoso, infundem um
sentimento de pavor e de espanto, terriveis quando no fundo de alguns se
vem ainda branquejar os ossos e as caveiras de seres, que soffreram e
morreram ha quasi dois mil annos.

De grandes em grandes espaos, estas galerias alargam-se, ou convergem
umas poucas, formando subterraneos amplos de maior altura de abobada
natural. So os sanctuarios, ou as cryptas. Nas catacumbas de S.
Calixto, existe n'estas condies uma grande sala de forma rectangular,
que, sem duvida, constituia o templo, para onde se descia de fra por
longa escadadaria, construida depois de Constantino, isto , da
liberdade do Christianismo. Do lado esquerdo do templo, passa se para a
grande crypta de Santa Cecilia. Parece attestar que ahi foi depositado o
corpo da nobre e rica dama de Roma, uma esculptura na parede
representando uma mulher luxuosamente adornada. Esta crypta communica
com a dos Papas, assim chamada por conter um grande numero de Pontifices
do terceiro seculo da era christ. Sarcophagos de pedra de esculptura
archaica conservam ainda os restos dos martyres, uns esquecidos, outros
beatificados ou santificados pela Egreja.

Dedalos de corredores, constituindo enormes necropoles, sobrepem-se s
vezes em dois e tres andares e, se  verdadeira a affirmao,
estendem-se nas catacumbas de S. Calixto por mais de quinze kilometros.

O reconhecimento da liberdade religiosa do Christianismo tirou s
catacumbas a importancia primitiva. Transformadas em logares de
veneranda tradio, conservadas, talvez, para cemiterio de alguns
christos mais afamados, as catacumbas soffreram modificaes na
anterior disposio. Assim, nos sitios mais importantes foram rasgados
_luminarios_, que deixam passar luz de fra, tenue e duvidosa, e
_arcocelios_ que enfeitavam e cobriam sarcophagos de pedra. Estas obras
parecem de caracter posterior  emancipao do Christianismo e a logica
leva a crel-o.

Eis, em rapidos traos, os caracteres geraes d'estes sombrios
subterraneos, onde nasceu a luz brilhante do Christianismo e os grupos
cada vez mais numerosos _de homens de boa vontade_ construiam os
alicerces das modernas sociedades.

 evidente que at ao seculo IV os christos, sob a aco da vigilancia
pag, no podiam construir templos. A architectura christ, pelo menos,
nasceu depois d'este seculo. O mesmo se pde dizer sobre a esculptura
dos arcocelios e dos sarcophagos, grandes peas difficeis de trabalhar
dentro das catacumbas e impossiveis de transportar de fra, por longos
corredores estreitos, sob as vistas dos agentes das perseguies, que o
eram todos os adeptos e defensores do antigo polytheismo.

A arte d'este tempo  ingenua. Consiste, como  de crer, em esculpturas
grosseiras. A maior parte das pinturas, se muitas existiram, deve tel-as
desfeito o tempo. Alm d'isso, no nos parece facil distinguir hoje o
que foi feito no tempo das perseguies, ou depois da liberdade do
Christianismo, em que as catacumbas deviam ser consideradas logares
santos e concorridos pela venerao dos fieis.

Estas razes, que nos parecem fundadas, circumscreveram ainda mais a
aco dos artistas christos dos seculos primitivos. A arte n'esse tempo
limitou-se a pinturas e esculpturas simples, baixos relevos ligeiros,
verdadeiros traos profundos desenhando figuras informes, ou ingenuos
symbolos, uns adequados do paganismo ao espirito da nova religio,
outros creados, como linguagem mysteriosa, que s os iniciados podiam
ler e comprehender. Assim, o peixe, symbolo de Jesus Christo,  um
emblema muito espalhado nas catacumbas. Era necessario, com effeito, ser
iniciado para comprehender que Ichtus, em grego o peixe, representava
aos olhos dos fieis as primeiras lettras das palavras mysticas: _Jesus
Christo, Filho de Deus, Salvador_.

Inutil seria e prolixo, n'este ponto, descrever os symbolismos
religiosos, que envolvem um ligeiro caracter de arte: a pomba e s vezes
Psyche alada, que representavam a alma; a ancora a esperana; o ramo de
oliveira a paz; e tantos outros symbolos e allegorias, que ainda hoje se
encontram nos costumes da Egreja e na tradio dos povos christos.

Na realidade, tudo isto no constituia verdadeira arte; muito embora nas
primeiras egrejas do Estylo Latino possamos encontrar elementos trazidos
das catacumbas. As cryptas dos templos lembram as das catacumbas. Os
tumulos de pedra dos martyres e santos, que nas catacumbas serviam de
altares, apparecem mais tarde no Estylo Latino. So usos respeitados; a
tradio santifica-os, conserva-os e transforma-os. Eis ainda um exemplo
da evoluo da Arte.

Taes eram as condies sociaes e moraes do Christianismo, antes do IV
seculo. No anno 306, Constantino, filho de Constancio Chloro tetrarcha
das Gallias e da Bretanha, foi proclamado imperador pelas legies
gaulezas.

O grande periodo da Edade-Media vae comear em breve. O poderoso
Imperador Constantino, o genial espirito do primeiro christo coroado,
parece presidir a este periodo historico, em que se accentua a evoluo
e o poder do Christianismo, creando novas sociedades e novos estylos de
Arte.

Constantino era um grande homem e um profundo politico. Sem falarmos na
unidade e na organisao do Imperio, que elle creou com admiravel
energia e sagacidade nem sempre clementes e doces, dois actos seus
demonstram-lhe o valor: a proteco concedida ao Christianismo e a
escolha da situao de Byzancio, para capital do Imperio. Estes dois
factos, alm de influencia enorme sobre a conservao do Imperio,
tiveram aco profunda e decisiva na evoluo social da religio e das
artes christs.

 evidente que esta evoluo tinha de existir, porque, j antes do
reinado de Constantino, o Christianismo, moralmente vencedor, no podia
ser suffocado; mas o movimento seria diverso, talvez mais lento e de
caracteres secundarios differentes. Os grandes homens no conseguem
crear as opportunidades, nem modificar as causas profundas que
transformam o modo de ser animico e social da humanidade; comtudo, o
genio aproveita-as, imprime-lhes caracter especial, dirige-as em
determinado caminho, de entre os variados de que dispe a natureza e o
espirito para se approximar indefinidamente do fim supremo, os ideaes do
bem, do bello e da justia.

Constantino vira nas Gallias o caminhar rapido do Christianismo. Tinha
assistido, provavelmente, aos actos de perseguio alli praticados por
ordem de Deocleciano. Sentira a f dos crentes, aprecira a energia de
alma dos martyres, a valentia das mulheres que se deixavam suppliciar,
sem protestos, sem choros, olhando o Ceu com esperana e cobrindo apenas
os corpos, animadas d'esse pudr do espirito que desconhecia quasi o
paganismo. Para elles, martyres, a morte no era horrivel; por um lado,
davam o exemplo, por outro, obtinham a liberdade da alma, que em breve
ia ser feliz, vivendo para sempre no seio do doce Christo. Constantino
era um genio e os genios vem sempre no futuro.

Depois, annos de morticinio no extinguiam os christos. Parecia que a
flora do Christianismo rebentava sempre mais forte e variada. A
suggesto do martyrio, fundando-se na esperana, trazia novos adeptos,
que appareciam por toda a parte, como nos campos cobertos de relva
pullulam as boninas brancas na primavera.

Constantino era politico e os politicos usam das foras vivas para os
seus altos designios. A ida e a fora sempre crescente do
Christianismo, que haviam levado, talvez, Diocleciano a abdicar a coroa
imperial no podendo transigir com elle, eram elementos necessarios,
unicos, para o sonho de Constantino, a unificao e a reorganisao do
antigo Imperio Romano.

Alem d'isso, Constantino era um philosopho. A ida polytheista estava
condemnada. Os verdadeiros sabios nunca haviam acreditado n'esses mythos
monstruosos uns, ingenuos outros; n'essa religio, emfim, sob cuja
influencia cabiam aos pedaos a politica das sociedades pags e a moral
dos cidados. A doutrina christ, simples e virtuosa, o seu principio
deista, a unidade do Espirito Supremo ideal dos philosophos, deviam ter
um encanto poetico aos olhos do imperador, constituir uma aspirao da
sua alma.

No , pois, necessaria a revelao divina para explicar a converso de
Constantino. Em nome das perseguies feitas aos christos, o novo
imperador marcha contra seu cunhado Mazencio, o tetrarcha da Italia,
derrota-o nos campos do P, aperta-o na retirada e, ajudado pelos
christos, levando na frente o _labarum_, com a cruz de Christo e o
prophetico lemma _in hoc signo vinces_, vence-o e fal-o morrer junto dos
muros de Roma. No anno seguinte, em 313, o imperador publica em Milo o
Edito de Tolerancia, a aurora da liberdade para a Egreja triumphante.

Dois annos depois, ataca o tetrarcha do Oriente, Licinio, sempre a
titulo das perseguies exercidas contra os christos; derrota-o em
Siballis, aprisiona-o, promette-lhe a vida e manda-o matar passado
tempo!

A unidade politica do Imperio estava feita; faltava, apenas, a
organisao administrativa. Os christos haviam sido auxiliares do
imperador; tornaram-se, pois, seus protegidos. Constantino no combatia
ainda abertamente o paganismo; enfraquecia-o a pouco e pouco, enchendo
os christos de favores, mostrando por elles viva predileco. Ora, os
favores e a predileco dos poderosos so uma ordem e um incentivo para
os pequenos.

O trabalho de propaganda de Constantino foi lento e efficaz. No bastava
que o Christianismo vivesse de tolerancia. Antes de ser religio do
Estado, precisava tornar-se pessoa moral, possuir propriedade, o que
entre os romanos era a melhor manifestao de fora e de soberania. Em
321, outro Edito imperial auctorisa a Egreja a receber donativos e a
possuir bens temporaes. O imperador concede, depois, privilegios aos
templos da nova religio, entre elles o direito de asylo dos templos
classicos; eguala os dois sacerdocios em direitos e regalias; comea at
a perseguir os pagos. Eram costumes do tempo.

Para dar unidade  nova Egreja e expungir a heresia de Ario, que no
terceiro seculo do Christianismo ameaava j a tradio orthodoxa,
Constantino convocou em 325 o primeiro Concilio Ecumenico, a reunio dos
bispos de todas as dioceses do Imperio, em Nicea. Este concilio teve
subida importancia sobre a unidade e a disciplina do Christianismo, como
mais tarde a manifestou, tambem, o Concilio de Trento, iniciando a
theocracia dos pontifices romanos. Deu o exemplo da definio do dogma
nas reunies da Egreja Universal; fixou a doutrina da consubstanciao
do Pae e do Filho; divinisou Jesus Christo, enunciando o _Symbolo dos
Apostolos_, ainda hoje o _Credo_ resado pelos christos; finalmente,
fulminou o anathema e a excommunho sobre Ario e a sua doutrina, que
negavam esta consubstanciao.

O arianismo, porm, no se deu por vencido e, durante seculos,
manifestou profunda influencia sobre o Christianismo, principalmente na
catechese dos povos barbaros.

Assim, pode dizer-se que o arianismo, preparando o espirito dos povos
germanicos,  o verdadeiro germen do movimento da reforma religiosa, que
nos seculos futuros dividiu o Christianismo em dois poderosos ramos, o
catholico e o protestante.

Constantino fizera-se christo de facto, faltava-lhe apenas o baptismo;
comtudo, como esse sacramento lhe sacrificaria as funces e a
influencia de _pontifice-maximo_ do paganismo perseguido, quasi extincto
mas tendo ainda proselytos, o imperador, encarnando-se no politico,
deixa a prova indubitavel e solemne da converso, para os ultimos dias
da vida. O politico ainda transparece na escolha de Byzancio,
reedificada e engrandecida, para capital do Imperio. Com effeito, em
torno das suas vastas fronteiras, j no tempo de Constantino, uma cinta
de ferro de povos barbaros cingia-se cada vez mais. Eram as ondas das
invases, que se comeavam a formar e entraro com movimento
irresistivel no seculo seguinte.

O genio de Constantino presentiu a proxima e inevitavel lucta, o
terrivel choque dos povos do norte nas fronteiras do Imperio. A cidade
de Byzancio, defendida pelo Caucaso, pelo Mar Negro e pelo profundo
fosso do Bosphoro, offerecia-lhe uma posio relativamente mais segura
do que Roma para capital, o cerebro e a alma dos seus vastos estados. O
imperador transferiu a sde do governo para Constantinopla, no anno 330
da nossa era.

Assim, o Christianismo foi reconhecido religio do Estado, official e
professada pelo imperador, segundo o antigo aphorismo: _cujus regio,
ejus religio_.

Um novo periodo historico vae, pois, comear para a Humanidade. A
politica e a moral, expresses geraes da actividade humana, manifestaro
caracteres differentes do passado. O espirito do Christianismo presidir
a esta phase longa e brilhante da evoluo historica, que ha de
inflorar-se com a civilisao e o progresso modernos.

Entre o mundo classico e o christo parece existir hoje um abysmo;
todavia, na evoluo do espirito no occorreu a menor soluo de
continuidade. As sociedades modernas ligam-se s antigas, como a arvore
se prende ao solo pelas raizes, como a planta se enxerta n'outra, de que
recebe a seiva e o alimento.

A arte classica e a christ parecem, tambem, distinctas, quando na
realidade nasceram ambas do movimento evolutivo e ascencional do
espirito humano. As differenas provem da intima natureza das
religies, que imprimiu caracteres especiaes  expresso do bello, a
Arte, nas duas sociedades.

Todas as religies se dirigem, mais ou menos directamente conforme a
perfeio da doutrina e do culto, para o ideal do bem, do bello e do
justo; mas procuram-n'o por differentes caminhos. O polytheismo grego e
romano, pelas condies especiaes da sua formao, via esse ideal
atravez da belleza da forma. O Christianismo, pelo contrario,
contempla-o atravez da belleza do espirito. Os fins so identicos;
apenas os meios de os attingir se manifestam differentes.

A religio classica exaltava a alma, penetrando-a de doce sensualismo. O
amor e o goso eram bens da vida, de que os proprios Deuses davam bons
exemplos. Diogenes no seu tonel professava esta doutrina. Desprezando as
vaidades do mundo, aquecia-se aos raios do sol e contemplava o bello
visivel da natureza.

A religio christ exalta a alma, penetrando-a de elevado
espiritualismo. A vida  a estrada rude e aspera, que a alma vae subindo
dolorosamente at entrar, emfim, pela porta da morte na felicidade
eterna. S. Jeronymo, na sua cella humida e fria, rasgava as carnes com
cilicios e aoutes para calar os sentidos. Desprezando, tambem, os bens
mundanos, absorvia-se na contemplao da belleza ideal do Eterno
Espirito.

A applicao d'esta doutrina  facil e concludente. Na architectura,
comparemos duas produces singulares em merito e belleza: o Parthenon e
a Cathedral de Strasburgo.

O Parthenon foi o templo mais perfeito da arte classica; a Cathedral de
Strasburgo gosa da fama de ser exemplar completo do mais rico estylo da
arte christ. No primeiro, todas as propores e elementos foram
estudados e combinados para attingir a harmonia e a belleza da forma;
mas a expresso  fria. O monumento no diz nada ao nosso espirito. Na
segunda, pelo contrario, a belleza da expresso completa a da forma. A
Cathedral de Strasburgo  um poema de pedra, um cantico da religio
christ.

Na esculptura observa-se o mesmo. O auctor d'este livro percorreu os
museus de Italia, viu nas vastas galerias do Vaticano accumuladas
centenas, milhares de estatuas classicas. Nunca, nunca, at hoje, a
esculptura moderna attingiu tal belleza de formas!

Mas, n'essa multido immensa de primores, no encontrou a expresso. As
physionomias so de uma serenidade olympica, as attitudes magestosas, em
geral, no teem movimento. A expresso no existe, at quando as
condies do acto mais a exigem. A morte no tem contraces no rosto. A
lucta no manifesta a furia do odio. O amor  frio e solemne. Todas as
bellas estatuas teem a impassibilidade de Jupiter ou de Minerva,
conforme os sexos.

As excepes so rarissimas; contam-se sem difficuldade. O grupo de
Laocoon e dos filhos, envolvidos pelas serpentes, as lagrimas de Niobe,
chorando os filhos, so exemplares curiosos da expresso dos antigos
estatuarios. Saindo dos museus classicos, encontramos em Italia por toda
a parte a vida, a expresso, o movimento dos esculptores da Renascena,
de que Bernini nos d singular exemplo no extasis de Santa Thereza de
Jesus, uma das mais extraordinarias estatuas produzidas pelos artistas
modernos.

A arte classica e a christ traduzem, pois, a essencia intima das
respectivas religies. Na primeira, predomina a forma; na segunda
sobresae o espirito. Estas observaes parecem-nos fundamentaes na
Historia da Arte.




CAPITULO TERCEIRO

AS INVASES DOS BARBAROS


O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou a philosophia em Athenas
cinco seculos antes de Christo, ensinava aos seus discipulos este
principio: _o Espirito comeou pacientemente a revoluo, que deve
realisar-se; os seus progressos so rapidos, sel-o-o cada vez mais_.

Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade humana, bem
evidente nos seus resultados, embora enygmatica nas proprias origens.

O periodo historico da Edade-Media resulta da aco reciproca das tres
manifestaes do espirito, representadas pelo paganismo, pelo
christianismo e pelos barbaros.  a longa phase das suas luctas, das
suas concesses mutuas, das suas combinaes, verdadeira _endosmose_ e
_exosmose_ de idas, que termina pela constituio homogenea das
sociedades modernas.

A Edade-Media comeou no seculo V, definida pela primeira invaso dos
barbaros, germanos, hunos e alanos, e dura at  tomada de
Constantinopla, em 1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos,
sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia do tempo,
um sentimento vago de pavor e de melancholia, taes so os flagellos, as
guerras, as miserias, como eguaes no houve n'outra quadra historica,
que n'este espao immenso, principalmente at ao seculo X, assolaram a
humanidade.

A aco reciproca do paganismo e do Christianismo j procurmos
esboal-a nos anteriores capitulos. Vamos referir-nos, agora, aos
_barbaros_, elemento novo e activo, causa de poderosa transformao
social e moral sem duvida, que vem entrar directa e profundamente na
scena da historia. De entre os tres, como  de justia, reconheamos a
hegemonia ao Christianismo.

J no tempo de Constantino hordas numerosas de _barbaros_, mais ou menos
organisadas em naes, se distribuiam pelas vastas fronteiras do
Imperio, desde a cordilheira do Caucaso at  embocadura do Rheno. Os
hunos e os germanos constituiam a primeira zona d'estes povos, apertados
entre os limites do Imperio e outras zonas de barbaros, escalonadas para
o norte da Europa. Os hunos de raa mongolica occupavam as vertentes
septentrionaes do Caucaso e estendiam-se para o nordeste. Os godos
guarneciam a costa norte do Mar Negro e mais alm, para o occidente, a
margem esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os francos e
frises, depois, at  embocadura do Rheno, fechavam o circuito, cheio
de perigos previstos e tremendos.

De quando em quando, esta massa de innumeraveis guerreiros trasbordava
em alguns pontos e passava as fronteiras romanas; comtudo, at ao seculo
V o Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes at
vastas provincias, confiando-lhes a guarda d'essas fronteiras, ameaadas
por outras hordas. A aco da diplomacia imperial completava a dos
exercitos, semeando intrigas e dissenses entre as naes barbaras e os
mais poderosos chefes, assoldadando generaes e guerreiros; empregando,
emfim, todos os meios de intriga e de veniaga que dividem as foras do
inimigo.

Assim, correram os factos at ao fim do seculo IV, quando um movimento
geral dos hunos, promovido por causas particulares internas, arremessou
estas grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos e os
visigodos. Os primeiros submetteram-se ao jugo dos hunos. Os visigodos
vencidos entraram no Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de
Ulphilas, bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram o Imperador
Valente e mataram-n'o em Andrinopla. A habilidade do Imperador Theodosio
dominou-os e deteve-lhes a expanso conquistadora; mas esta primeira
investida deve ser considerada o facto primordial da invaso dos
barbaros.

Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis annos do seu
reinado, gosou tranquillidade relativa; todavia, o movimento dos hunos e
dos alanos para o occidente communicou-se a todas as naes barbaras,
repercutindo-se at ao Rheno.

Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico assolaram a Italia
e pozeram crco a Roma. Quasi a seguir, os suevos de Radagus
precipitaram-se como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos por
Stilicon, da raa vandala, ao servio do Imperador Honorio. Os
visigodos, seis annos depois, apparecem novamente e assediam Roma. O
grande chefe Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.

Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava sobre a Frana.
Romanos, francos e godos vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a
Italia, devasta as regies do P, desce sobre a cidade de Roma, que foi
salva pelo Papa Leo o Grande. A morte de Attila dissolveu a invaso dos
hunos, cuja crueldade e selvageria ficaram historicas.

Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os vandalos de Genserico
tomam e saqueiam a cidade de Roma. A esta onda segue-se outra, os
herulos de Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastaes precedem a
coroao do chefe herulo, como Rei da Italia. A queda do Imperio do
Oriente, pela desmembrao das respectivas provincias, tornou-se emfim
um facto consummado.

Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico fecharam o
primeiro periodo das invases barbaras. Odoacro  vencido e morto. A
restaurao do Imperio do Occidente j no era possivel; mas Theodorico
consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes, um vasto dominio,
comprehendendo a Italia, limitado ao oriente pelo Drina, para alm o
Imperio Byzantino, ao norte pelo Danubio, para alm os lombardos e os
gepides, e a oeste definido pelas naes dos francos, dos borguinhes e
dos visigodos.

Tal  em succinto o quadro, a pintura do estado de guerras e de
miserias, que atravessaram os paizes e os povos do antigo Imperio
Romano, reduzido no fim do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo
oriente da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos
apenas, porque os outros, na Bretanha, na Gallia e na Hespanha, tiveram
n'esse periodo pequena importancia sobre a arte christ, que na
realidade nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.

Todos estes barbaros, que em ondas successivas se precipitaram sobre o
Imperio do Occidente, exceptuando os hunos e os alanos, constituiam
ramos da mesma raa aryana, de que os gregos e os romanos provinham
tambem, descendentes mais ou menos puros e directos de emigraes
remotissimas. Se as linguas d'estas naes barbaras eram, pois, entre si
incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres individuaes e
ethnicos apresentavam intimas analogias.

Mais ou menos nomadas, as naes barbaras possuiam energico espirito
bellicoso. Rudes e destemidas, embora no selvagens ou crueis, essas
vastas confederaes nacionaes procuravam em luctas aventurosas
satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente
manifestaram duas instituies suas: o feudalismo e a cavallaria.

O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter, antes de se
converterem  heresia do arianismo. A religio manifestava entre os
barbaros um espirito poetico e nebuloso, que lhe davam os _bardos_, como
entre os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados os deuses e os
grandes actos dos heroes nacionaes. Foram estes bardos, que na
Edade-Media deram origem aos famosos menestreis.

Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes como companheiros,
fieis aos seus chefes, estes _barbaros_, como lhes chamavam os romanos,
nutriam enraizados no espirito o amor da liberdade e o respeito da
propria dignidade, professando, como se diria hoje, um energico
individualismo. A este amor da liberdade individual se devem attribuir
em grande parte alguns factos importantes da historia, como, por
exemplo, a constituio das communas e principalmente o movimento da
_reforma_ religiosa, a bella e grande lucta da theocracia e da
democracia christs, em que esta ficou vencedora, a final, no seculo
XVI.

Assim, o caracter disciplinado, a dedicao pelos chefes, em geral
escolhidos pelo valor e por altos feitos, no excluiam uma organisao
social democratica, que se manifestava em reunies periodicas de
guerreiros, onde se discutiam e resolviam as questes de interesse
commum da tribu. Estas qualidades singulares dos barbaros, bem oppostas
s dos romanos da decadencia, caracterisam ainda hoje as naes do norte
da Europa, suas legitimas descendentes.

O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades barbaras, constituidas
pela federao de pequenos estados ou tribus, onde era possivel a vida
local. Communicava-lhes um certo espirito nomada, inimigo dos grandes
centros; exigia-lhes uma vida separada e independente de pequenos
senhores, avessos ao trabalho, ignorantes por indolencia no por
desprezo das artes e das sciencias, s ardentes e activos na guerra, na
caa e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes traos os futuros
bares feudaes. Entregando o trabalho penoso aos escravos e s mulheres,
pelas quaes alis professavam certo respeito, considerando-as investidas
de dons propheticos, estes _barbaros_ traziam em si o germen, que, ao
calor do Christianismo, devia produzir a considerao, singular e
antinomica com outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela
mulher no tempo da cavallaria.

Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os _barbaros_ eram
irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos; ainda n'isto se manifestavam
os futuros bares feudaes. Tal era o caracter dos povos, que assolaram o
Imperio do Occidente no seculo V, no falando nos hunos e nos alanos,
povos de outra raa que foram um episodio na historia da Europa. Ora,
estas qualidades, no exercicio da intelligencia e nas diversas
manifestaes sociaes, tiveram grande influencia no organismo da
Edade-Media, e logicamente sobre a arte; influencia mais accentuada nos
periodos romanico e ogival.

Quando os barbaros tocavam a antiga civilisao romana, eram fascinados
por ella.  um facto incontestavel na historia. A primeira demonstrao
deu-se na constituio do reino godo de Italia por Theodorico, um
precursor de Carlos Magno e como elle um _barbaro_ de genio. Educado na
crte imperial de Constantinopla, aprecira o immenso valor da
organisao social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados
pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito de Theodorico avalia-se
bem por um s facto, extraordinario e caracteristico. Legislando a
justia no seu vasto imperio, decretou que as questes suscitadas entre
dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre um romano e um godo por
um romano, entre romanos por outro romano; assim, conclue o _barbaro:
cada um ter o seu direito garantido e, apesar da differena dos juizes,
uma s justia reinar para todo o mundo_. E, todavia, os godos eram os
conquistadores e os romanos os vencidos!

Este espirito de justia nascia do amor pela liberdade e do respeito
pela dignidade humana, que  a sua consequencia logica. Era a
manifestao esplendida do caracter fundamental da sua raa, que os
_barbaros_ traziam para a caduca civilisao romana, recebendo em troca
tradies de gloria, sabias instituies e um direito escripto, que
ainda hoje causa a admirao do mundo moderno. Na religio, Theodorico,
um sectario das doutrinas de Ario, ida perseguida nos seus adeptos e
fulminada nos concilios, mostra se tolerante. A Italia era orthodoxa e
continua a professar as suas doutrinas. Os christos elevam templos por
toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto. O _barbaro_ s
vacilla um momento no fim da sua vida, como represalia ao Imperador do
Oriente, que perseguia o arianismo com violencia e crueldade.

O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem, desenvolve a
riqueza, fomenta o commercio interno e externo. As antigas instituies
romanas so respeitadas, consultadas at. Os cargos civis so para os
romanos, os militares para os godos, que assim se conservam separados
como casta guerreira. O direito romano serve de base ao novo direito
gothico. Emfim, a combinao das tres manifestaes do Espirito, segundo
a expresso de Anaxagoras, comea a dar homogeneidade a uma nova
civilisao.

O reinado de Theodorico , pois, uma tentativa da fuso de principios,
um relampago de luz serena e clara que irrompe do seio tenebroso dos
primeiros tempos da Edade-Media. Dentro de dois seculos constituir-se-ha
o Santo Imperio de Carlos Magno.




PARTE SEGUNDA

OS ESTYLOS CHRISTOS PRIMITIVOS

V SECULO AO X SECULO




CAPITULO PRIMEIRO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO LATINO


O Christianismo sara das catacumbas nos meiados do seculo IV. Quasi
todo o seculo seguinte passara-se em invases successivas. Hordas de
barbaros precipitaram-se sobre a Italia, talando, destruindo e roubando
o que umas s outras deixavam. As perseguies religiosas haviam
cessado; mas a heresia de Ario perturbava os espiritos, e as invases
accumulavam morticinios e flagellos. O trabalho no tinha socego, a
agricultura abandonada decara, a propriedade estava ameaada e a
industria e o commercio esmoreciam, asphixiados por pesada atmosphera de
fogo, de sangue e de incerteza. No  n'estas condies da sociedade e
do espirito humano que as artes se desenvolvem e florescem. O Estylo
Latino, que principira a formar-se nos meiados do seculo IV,
constitui-se lentamente no seculo seguinte.

A derrota do paganismo inutilisra os templos e mutilra as estatuas dos
antigos deuses. Ora, parece-nos haver comprehendido na historia das
religies, que a vencedora esmaga a doutrina vencida, persegue-lhe
ferozmente os adeptos e, como os antigos exercitos definiam a victoria
dormindo sobre o campo da batalha, as religies triumphantes occupam e
apropriam ao seu culto os antigos templos profanados e desertos.

Este principio deriva de rases logicas e de qualidades ou defeitos da
propria alma humana. O vencedor expolia o vencido; v-se isto ainda nos
tempos modernos. O espirito da nova religio sente a necessidade
orgulhosa de fazer adorar o seu Deus nos mesmos recintos e altares, onde
os _idolatras_ adoravam os deuses vencidos. Alm d'isso, os templos
inuteis offerecem, em regra, condies de construco adequadas s
praticas religiosas; ora, em todas as religies mais perfeitas existem
usos e praticas similhantes. O vencedor no tem tempo para construir
logo a principio, encontra sanctuarios em sitios escolhidos e
convenientes, aproveita-os.  uma raso. Assim, ns vemos os arabes de
Hespanha aproveitarem as egrejas godas, transformando-as em mesquitas,
onde o Alcoro occupa o logar da Biblia; mesquitas que, depois, se
tornam templos christos. Assim, os turcos de Mahomet II, tomando
Constantinopla, fizeram de Santa Sophia e dos templos byzantinos do
Oriente conquistado as suas primeiras mesquitas.

O Christianismo no procedeu por esta frma, salvo raras excepes. Em
primeiro logar, porque o espirito e os ritos da nova religio eram asss
differentes dos do paganismo. A expresso da arte classica no dizia bem
com a essencia do culto christo. Alm d'isso, os templos classicos eram
pouco espaosos. O _naos_, a cella ou sanctuario dos deuses, era
pequeno; o que dava amplido ao tempo classico, o _pro-naos_, o portico
que mais ou menos envolvia o _naos_, correspondia ao culto e aos ritos
pagos; no se amoldava, porm, aos do Christianismo, cujas multides,
sempre crescentes, precisavam reunir-se amiudadas vezes para os
exercicios divinos.

As circumstancias desgraadas da sociedade romana, esboadas
anteriormente, proporcionaram aos christos os grandes edificios das
_basilicas_, logares de reunies publicas, tribunaes, mercados e bolsas
de commercio e bancarias, se em referencia a esses tempos se podem
empregar as ultimas expresses to modernas.

O amortecimento da actividade social e a extinco da vida politica dos
cidados, que os chamavam aos _foros_ junto dos quaes existiam as
_basilicas_, o abatimento do commercio e das industrias, emfim, as
condies adversas dos seculos IV e V tornaram quasi inuteis estes
enormes edificios, outr'ora correspondendo a necessidades publicas e
regorgitando de cidados, na plena actividade de trabalho em variadas
operaes commerciaes. Os christos preponderantes em Roma, logo no
principio do imperio de Constantino, comearam a apropriar-se d'estes
edificios do Estado, adequando-os ao culto e aos ritos da nova religio.

As basilicas romanas produziram, pois, a frma e o estylo das primeiras
egrejas christs. Sobre as respectivas disposies existiam duvidas, que
a critica e a induco procuraram resolver; assim, a reconstituio
d'estes edificios parece ser hoje questo resolvida. A importancia que
tiveram sobre a arte christ, a grandeza e a magnificencia dos que
existem hoje, principalmente em Roma, obrigam-nos a mais desenvolvida
descripo.

Vitruvio deu-nos as regras principaes da construco d'estes monumentos
e esclareceu-nos sobre os seus empregos. O architecto aconselha que as
basilicas sejam levantadas em sitios quentes e amenos, para facilitar a
reunio dos commerciantes. Os seus fins esto, pois, definidos, pelo
menos no ultimo seculo antes de Christo em que viveu o celebre
architecto romano. As regras so incompletas, sem deixarem de ser tambem
interessantes, porque traduzem o espirito methodico e as propores
prefixadas e tradicionaes da arte classica.

A largura das basilicas, diz Vitruvio, deve ser pelo menos, o tero do
seu comprimento. Adequadas ao terreno, que, se for longo, obrigar a
construir _chalcidicos_ nos extremos da basilica. As columnas do
pavimento terreo tero altura egual  largura dos porticos, como o
architecto chama s naves lateraes, que a seu turno devem offerecer
approximadamente um tero da largura do corpo ou nave central. As
columnas superiores, as das galerias sobrepostas aos porticos, sero um
quarto mais baixas do que as do pavimento terreo. O parapeito, lanado
entre as columnas d'estas galerias, offerecer altura sufficiente para
que as pessoas de cima no sejam vistas pelas de baixo. Por muito
incompletos que paream, estes pormenores seriam sufficientes para dar
approximada ida dos fins e das disposies d'estes edificios classicos.

[Figura: Schema de uma basilica romana]

O nome de basilicas parece indicar-lhes origem na Grecia, onde
provavelmente existiram construces com fins equivalentes; comtudo,
pode tambem definir-lhes a grandeza e a magnificencia, visto que a
palavra grega expressa o poder real.

A basilica apparece nos ultimos tempos da republica. Construida nas
proximidades dos _foros_, grandes praas onde existia a tribuna dos
oradores e se discutiam e resolviam os negocios publicos, a basilica
parece ter sido um annexo indispensavel d'estes _foros_, recinto
abrigado e coberto para occasies de intemperie. A mais antiga em Roma,
a Basilica Porcia, suppe-se ter sido construida crca de duzentos annos
antes de Christo. Depois, como mais importantes, contavam-se a Basilica
Emilia, construida por Fulvio, a Basilica Simpronia, elevada por Tito
Sempronio, _censor_ no ultimo seculo antes de Christo. Estas
construces faziam parte das dadivas, com que os politicos e os
ambiciosos do tempo procuravam conquistar as boas graas do povo.

Os imperadores, depois, elevaram muitas. Cesar, Trajano, e por ultimo
Constantino construiram-nas em Roma. Cidades de importancia secundaria
possuiam basilicas. Assim, pudmos ver ainda os restos da que existiu em
Pompeia, junto do pequeno _forum_. Ora, esta cidade era, como outras,
semeadas nas margens do golpho de Napoles, uma verdadeira estao de
vero, provavelmente do caracter que hoje tem Nice e as povoaes da
Cte-d'Azur, sobre o Mediterraneo.

A basilica de Pompeia constitue um excellente exemplar, porque demonstra
que nas primitivas no existia bside. No fim da nave principal, uma
tribuna quadrada, avanando sobre o transepto e de altura superior  de
um homem de regular estatura, constituia, decerto, o espao reservado
para o tribunal. Nas ultimas basilicas posteriormente construidas, por
exemplo a de Constantino, j apparece a bside saliente, abobadada em
meia cupula, para installao dos juizes.

A descripo d'esta ultima basilica dar-nos- ida clara da disposio
interior e grandeza d'esta natureza de construces. Media crca de 90
metros de comprido, por 75 metros de largo. Em geral, as basilicas
offereciam consideravel superficie. Segundo o maior comprimento, eram
divididas em tres naves, cortadas perpendicularmente por tres
transeptos. Na extremidade dos eixos da nave e do transepto centraes
existia uma bside; no outro extremo, em face das bsides, abriam-se as
entradas, das quaes a principal dava sobre a Via-Sacra.

Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactido as
disposies internas das basilicas. Em geral, eram vastos edificios,
constituidos por uma nave central terminada em bside e ladeada de
porticos sobrepostos em dois pavimentos, que attingiam a altura do corpo
central. Este conjunto, exceptuando a bside abobadada em meia cupula,
tinha cobertura de madeira com as traves a descoberto.

Nos tempos primitivos, pelo menos, o edificio cercado de porticos era
accessivel por todos os pontos. Depois, as columnas periphericas foram
substituidas por paredes, onde havia portas symetricas nos extremos das
naves em face das bsides.

No pavimento terreo reunia-se o tribunal, occupando a bside e o
transepto annexo; os negocios commerciaes e bancarios d'aquelle tempo
tratavam-se na grande nave central; nos porticos inferiores lateraes
estavam os logares dos vendedores,  similhana dos _bazares_ orientaes.
Os porticos superiores constituiam logar de reunio para ociosos e para
os que procuravam as diverses da sociedade e da conversao.

Para bem fixar os caracteres das basilicas, apresentamos um claro
schema, onde todos os respectivos elementos esto expressamente
desenhados. N'este schema faremos notar as disposies relativas do
tribunal, constituido pela bside, onde estacionava o juiz e o pessoal
annexo, pelas cadeiras ou tribunas dos advogados, ladeando esta bside,
e finalmente pelo recinto fechado, que sem duvida devia existir para
separar os negocios do tribunal dos restantes, que se tratavam tambem
nas basilicas. Estes elementos so a origem de disposies especiaes nas
egrejas do Estylo Latino, como adeante diremos.

Emfim, diz-se que as basilicas eram de architectura simples e de modesta
ornamentao.  um erro; taes edificios, dados os seus fins e a mira dos
doadores e constructores, principalmente quando foram os Cesares, no
podiam deixar de manifestar grandeza architectonica, embora a severa e
solemne grandeza classica. A ornamentao era rica e profusa em estatuas
e objectos de arte, como o foi sempre a grega e a romana. Este ultimo
facto, pelo menos,  attestado pelas descripes dos historiadores. 
claro que n'este ponto nos referimos s antigas basilicas romanas e no
s que, seguindo o estylo, edificaram depois os christos.

As basilicas romanas deram, pois, origem s primeiras egrejas do
Christianismo no occidente. Parece-nos, todavia, conveniente, n'esta
formao do estylo latino, distinguir dois periodos, sem lhes poder
fixar datas, como alis  sempre difficilimo nas transies artisticas:
o primitivo, desde Constantino at Theodorico, em que o estylo devia
ser, em regra, relativamente simples e pobre, e o segundo, sob a
influencia da riquissima arte byzantina, que ia successivamente
attingindo a perfeio manifestada no seculo VI, pela construco de
Santa Sophia de Constantinopla. As relaes entre o occidente e oriente
eram muito frequentes e activas n'aquella epoca, para que se no desse
esta influencia de uma arte grandiosa e de ornamentao riquissima,
sobre o Estylo Latino nascente.

Nos primeiros tempos houve, sem duvida, vacillaes. A consolidao da
egreja deve ter influido muito na constituio do estylo. As basilicas
christs dos melhores tempos tinham frmas definidas; obedeciam, por
assim dizer, s regras de alguns typos apurados e preferidos; por isso,
 at certo ponto possivel descrever-lhes os caracteres geraes.

A disposio interior das egrejas do Estylo Latino apresentava figuras
differentes; a circular e a rectangular foram as mais empregadas,
principalmente a ultima. Exemplos ha, tambem, do emprego combinado do
circulo e do rectangulo, como se v na egreja basilica de S. Martinho de
Tours. A architectura era simples e sobria, seguindo o espirito e a
frma do estylo classico romano. A diversidade manifesta-se mais
accentuada nas disposies internas, accommodadas s necessidades do
novo culto, e na ornamentao mais ou menos rica, onde exerceu decidida
influencia o Estylo Byzantino, em plena florescencia no seculo VI.

Figuremos, agora, uma visita a estas basilicas do Estylo Latino, fazendo
um ligeiro schema dos seus caracteres principaes; observaremos, comtudo,
que esta descripo _theorica_ soffre as modificaes impostas pelas
circumstancias, pelas disposies dos edificios apropriados e, emfim,
pela imaginao e concepo artisticas, que, embora dentro das regras
dos estylos, teem sempre maior ou menor liberdade de aco.

Um espaoso _atrio_, fechado por muros, s vezes revestidos de porticos
internos, dava ingresso  egreja. No fundo d'este _atrio_ quadrado, que
foi origem dos adros das nossas egrejas, em frente da respectiva
entrada, elevava-se o edificio do templo. A fachada era formada por tres
portas e tres janellas, correspondendo aos eixos das tres naves
internas. A porta central servia para os grandes ceremoniaes.
Sobrepujando as portas e as janelas, um fronto pouco alto encobria o
madeiramento dos telhados. N'esta disposio v-se a ordenana classica.

Em frente da egreja e encostado  fachada, um portico de columnas
formava alpendre sobre as portas, logar protegido onde se abrigavam os
fieis. Algumas vezes, no havia saliencia para fra da superficie
vertical da fachada, que ento repousava sobre o intercolumnio externo
do portico. As portas da egreja ficavam, n'este caso, precedidas de uma
especie de vestibulo. Nos lados d'este portico duas fontes serviam para
as ablues.

N'estas fontes teem origem os baptisterios, edificios sumptuosos que
mais tarde foram elevados junto das egrejas, nos atrios ou fra d'elles,
onde se praticava em grandes bacias de marmore o baptismo por immerso,
usado n'aquelles tempos. Depois, a transformao dos ritos, dando
caracter symbolico ao baptismo, introduziu os baptisterios no corpo das
egrejas proximo da entrada.

As fachadas lateraes da egreja, em regra, no tinham janelas. A parede
lisa era coroada por uma cornija, repousando sobre modilhes. As janelas
da fachada eram fechadas por grandes laminas de marmore, rendilhadas de
pequenas aberturas circulares ou em lozangos, dando a impresso das
rotulas orientaes.

No interior, a egreja offerecia as caracteristicas disposies da
basilica romana: tres naves, a do centro mais larga e alta, as lateraes
com dois pavimentos sobrepostos, abrindo na principal, compunham a
superficie coberta do edificio. Segundo o preceito primitivo da diviso
dos sexos nas ceremonias religiosas, os homens occupavam a nave lateral
da esquerda, as mulheres casadas a da direita e as virgens e as viuvas
os pavimentos superiores d'estas naves.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. PAULO--Fachada principal]

Nos extremos das naves, em frente das portas, rasgavam-se tres bsides;
a da nave central, a mais importante, constitua o _presbyterio_ ou a
_tribuna_. Nas lateraes guardavam-se os livros santos e os objectos do
culto. Estas ultimas foram a origem dos _thesouros_ e das _sacristias_
das nossas egrejas.

Na bside central, a _tribuna_, em degraus de marmore dispostos em
amphitheatro, sentavam-se os presbyteros; ao fundo, n'uma cadeira tambem
de marmore o bispo, ou o officiante, presidia s cerimonias religiosas.
Nas basilicas romanas, como vimos, era este o logar dos juizes.

Em face da tribuna, isolado, levantava-se o altar, coberto pelo
_ciborio_, o _baldachino_ das basilicas modernas de Roma, vasto e alto
docel sustentado por columnas, formando uma especie de pallio de
marmore. O altar, em geral, era o sarcophago de um santo, o da invocao
da egreja. Sobre a mesa do altar viam-se baixos relevos, o _alpha_ e o
_mega_, o _labaro_, a _palma_ do martyrio e outros symbolismos
religiosos.

No solo, por baixo do altar, existia um pequeno subterraneo, o
_martyrio_ ou a _confisso_, contendo reliquias de santos; quando este
subterraneo era vasto tomava o nome de _crypta_. Todos estes elementos
nasceram das tradies do Christianismo das catacumbas.

Este conjunto do altar, o _santuario_, ficava entre a tribuna e o cro,
constituido por um vasto espao quadrado, limitado por muros baixos, no
extremo da nave central. Nos tres lados do cro, excepto o mais proximo
do altar, bancadas de marmore em amphitheatro davam logar aos chantres e
cantores. Dois _ambons_ symetricos, nos extremos do cro, ladeavam quasi
o altar. Correspondiam proximamente s tribunas dos advogados romanos e
so a origem dos pulpitos. Estas disposies caracteristicas pdem
observar-se ainda hoje nas antigas cathedraes hespanholas, cujos coros
cortam as naves principaes.

A conveniencia de extremar o publico da tribuna e do altar, fez mais
tarde construir um muro, ou balaustrada perpendicular aos eixos das
naves, entre o cro e o altar. Assim, ficou definido o transepto e
desenhada a cruz latina das egrejas dos futuros estylos occidentaes.

Os tectos eram de madeira, em geral de vigas descobertas, s vezes de
grandes caixes. A abobada no foi, nem podia ser empregada em edificios
d'esta construco.

A riqueza e o luxo das egrejas do Estylo Latino manifestavam-se
principalmente no interior. Os tectos eram de essencias raras,
esculpidos e recamados de metaes, entre os quaes figurava o ouro. As
columnas das naves, ligadas por architraves, ou por arcos de volta
inteira, as paredes das naves, divididas em compartimentos por
pilastras, eram construidas e revestidas de finos marmores e de
porphyros. O altar e o cro principalmente offereciam ornamentao
riquissima, revestidos de esculpturas onde e quando era possivel; assim
como a tribuna, cuja semi-cupula representava grandes quadros biblicos
em mosaico de fundo de ouro, que s vezes se estendia a outros pontos da
egreja.  evidente que esta pujante ornamentao se desenvolveu nos
melhores tempos do estylo, sob a influencia do Estylo Byzantino.
Sabe-se, com effeito, que os romanos empregavam com raridade o mosaico
nas paredes.

[Figura: ROMA, BASILICA DE S. PAULO--Fachada lateral (norte)]

O pavimento das egrejas nos tempos primitivos fra de grandes lages;
depois, vieram os mosaicos de desenho fino e variado, formados de
pequenos cubos de marmore branco, de esmalte e de porphyro verde e
amarello, chamado _opus alexandrinus_, nome que lhe caracterisa a origem
oriental.

Se accrescentarmos, por simples curiosidade, por exceder a esphera da
Historia da Arte, que os primitivos templos eram construidos pelo
systema romano na qualidade e disposio dos materiaes, teremos dado uma
succinta ida da formao e dos caracteres do Estylo Latino, isto , do
primitivo estylo christo no occidente.

No temos, infelizmente, em Portugal um s exemplo do Estylo Latino. O
nome de _basilica_, applicado a algumas das nossas egrejas, taes como a
da Estrella e a de Mafra, corresponde simplesmente  expresso de
grandeza e sumptuosidade, mais ou menos merecida, sem se referir a
qualidades architectonicas, porque estas egrejas so de caracteristico
Estylo da Renascena. Os maiores e mais bellos exemplares existentes do
Estylo Latino  necessario procural-os entre as trezentas e oitenta e
nove egrejas e capellas, que ornam a artistica e historica cidade de
Roma!

Entre as basilicas do Estylo Latino avultam as de S. Joo de Latro,
Santa Maria Maior, S. Paulo e S. Loureno, as duas ultimas construidas
fra dos muros da antiga cidade. Ora, so exactamente estas ultimas que
nos parecem mais caracteristicas, quer nos elementos externos, quer nas
disposies internas.

A Egreja de S. Paulo, fra dos muros, constitue de facto um formoso e
rico exemplar do Estylo Latino. As suas disposies geraes traduzem, com
a possivel exactido, os caracteres das basilicas romanas, anteriormente
descriptas. Esta grandiosa construco conserva ainda uma pequena parte
antiga, se no primitiva, mas o restante  de epoca moderna.

Diz a tradio que no local de um cemiterio, onde repousavam os restos
de S. Paulo, o grande Apostolo das Gentes, o imperador Constantino
mandou edificar uma primeira basilica, que depois foi restaurada e
engrandecida por successivos imperadores, sendo terminada por Honorio no
anno 423 da nossa era. Um grande incendio destruiu em 1827 grande parte
d'esta primitiva basilica.

Ento, o Papa Leo XII, pedindo donativos  f dos christos de todo o
mundo, comeou a reedificao da antiga basilica; fazendo, porm,
engrandecer e enriquecer os novos planos. Em 1854, o Papa Pio IX sagrou
o novo e magnifico templo, do qual apresentamos os principaes elementos,
como excellente definio das feies especiaes do Estylo Latino.

[Figura: ROMA--Interior de S Paulo]

A fachada principal  formada por um vasto portico da Ordem Corynthia,
para o qual se abrem as sete portas da egreja; por detrs d'este portico
eleva-se o corpo da nave central do templo. Devemos observar que nas
egrejas do Estylo Latino, em regra, desappareceram as galerias
superiores das basilicas romanas. Abolido o uso da separao dos sexos
nas ceremonias religiosas, a conveniencia de bem illuminar as egrejas
aconselhou a suppresso d'estas galerias. Assim, o corpo da nave central
eleva-se sobre os corpos lateraes, recebendo luz directa e profusa de
grandes janelas. A fachada principal de S. Paulo  ricamente decorada
por mosaicos modernos. As portas, que abrem no bello portico, so
antigas, de bronze e de excellente Estylo Byzantino.

O interior da egreja offerece cinco grandes naves, formadas por quatro
ordens parallelas de columnas, vinte em cada ordem. So, pois, oitenta
columnas, tendo as bases e os pedestaes de marmore branco e os fustes de
granito rosa polido. Sobre a cornija da nave central corre uma serie de
medalhes circulares em mosaico, que representam retratos de antigos
Papas. Esta grande nave  directamente illuminada por dez janelas
lateraes, sendo os respectivos intervallos preenchidos por frescos, que
representam scenas da vida de S. Paulo. O tecto riquissimo  feito de
caixes de madeira esculpidos e dourados. O arco da capella-mr
constitue, talvez, um dos elementos da primitiva basilica de
Constantino. Este arco, ladeado por duas estatuas colossaes de S. Pedro
e de S. Paulo,  guarnecido na parte superior por antigo mosaico, que se
suppe ser do anno 440 da nossa era.

A bside, para onde se sobe por tres degraus, tem na semi-cupula um
mosaico, que se presume ser do seculo XIII. O altar, do mesmo seculo, 
coberto por um ciborio, formado por quatro columnas de porphiro, que
sustentam um docel de Estylo Ogival.

No lado norte do transepto abrem-se, tambem, tres portas precedidas de
um portico corynthio de menor importancia. A torre dos sinos, coroada de
um mirante, est collocada por detrs da bside.

A Egreja de S. Loureno, segundo a tradio tambem construida por
Constantino no anno 330 da nossa era, foi modernamente restaurada por
Pio IX, cujos restos mortaes n'ella repousam, e constitue egualmente um
exemplar muito bom do Estylo Latino, mais modesto e severo.

Na fachada, o portico  da Ordem Jonica, coberto por telhados muito
inclinados e evidentes. O corpo da nave central, ornada de pinturas a
fresco, no tem fronto.

No interior, de cada lado, onze fortes columnas jonicas de granito rosa
e de cipolino dividem o templo em tres naves, dando-lhe um aspecto de
severidade e grandeza que mais reala ainda a cobertura da nave central,
feita de grandes vigas descobertas, douradas e esculpidas. Esta egreja
no tem na realidade um verdadeiro transepto, o que mais a approxima das
frmas tradicionaes das basilicas romanas, das quaes se afasta, por
outro lado, porque a bside termina em parede plana, guarnecida de
janelas.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. LOURENO]

No sendo possivel nem opportuno desenvolver descripes mais completas
d'estas grandiosas e riquissimas basilicas, julgamos haver escripto e
apresentado graphicamente os sufficientes elementos para bem fixar os
caracteres do Estylo Latino, mais puro e rico.

[Figura: ROMA--Interior da Basilica de S. Loureno]




CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO BYZANTINO


Roma deixra de ser a capital do Imperio. Conservra de direito as suas
antigas tradies, o seu cognome de _cidade-eterna_; de facto, a capital
do Imperio j no seculo III, sob Maximiano, havia sido deslocada, para o
norte. Era em Milo. Assim, foi n'esta cidade que Constantino promulgou
o edito de tolerancia, de que data a liberdade do Christianismo. As
extensas fronteiras e as enormes agglomeraes de estados e de povos,
que formavam o Imperio, exigiram, talvez, uma capital mais no centro,
com sacrificio de Roma, muito afastada, quasi no meio da peninsula
italica.

Alm d'isso, os imperadores, em geral, preferiam habitar as cidades do
oriente, onde por exemplo Diocleciano residiu quasi sempre. As
tendencias luxuosas e os costumes mais do que faceis dos imperadores
deviam tender a approximal-os do fco de luxo e de vida devassa, de que
os satrapas mdo-persas deram exemplo imitado e haviam deixado profundas
tradies respeitadas. So ainda hoje proverbiaes o luxo e os costumes
do oriente.

Constantino, pelas razes que expozemos, edificra em Bysancio a nova
capital do Imperio. A permanencia da crte do autocrata romano no
oriente foi, sem duvida, um golpe profundo na vida social e na riqueza
da Italia, reduzida a um exarchado. Com o chefe supremo e a alta
administrao do Imperio, a pouco e pouco devem ter emigrado para
Constantinopla as melhores foras vivas e os mais valiosos elementos
sociaes, que tendem sempre a agrupar-se em torno do poder central.

O Christianismo existia j n'aquellas provincias do Imperio; mas a aco
da nova capital e do proprio imperador imprimiu-lhe necessariamente
grande expanso. As mesmas causas e influencias, que no occidente haviam
produzido o Estylo Latino, foram encontrar-se com outras especiaes,
nascidas e desenvolvidas no oriente. Um outro estylo christo,
differente do occidental, foi tambem o producto da aco reciproca
d'estes elementos. A sua formao  coeva e parallela. Pde dizer-se que
o espirito classico e o do Christianismo produziram simultaneamente dois
estylos architectonicos: no occidente, o Latino; no oriente o Byzantino,
de que nos vamos occupar.

O genio romano era o reflexo, um pouco pallido na verdade, do genio
hellenico. Imitou-o na religio, na sciencia e na arte, seguiu-lhe os
passos nem sempre com grande felicidade. Nas manifestaes da actividade
social os romanos foram superiores aos gregos; mas em creaes do
espirito, na sciencia, na philosophia e na arte, a Grecia teve apenas em
Roma um soffrivel discipulo. Os romanos,  certo, eram amadores, grandes
amadores da arte, como os inglezes modernos exactamente, que a adoram,
cultivando-a pouco, ou pelo menos no produzindo creaes novas,
comparaveis com os d'outros povos.

Apenas a Grecia se tornou provincia romana, o enorme thesouro da arte
hellenica foi posto a saque; Roma enriqueceu-se com tudo quanto podia
ser transportado: estatuas, quadros, vasos, vieram adornar os templos,
os _foros_ e os edificios publicos, povoar os palacios e as galerias dos
vencedores, que assim se enriqueceram com productos artisticos, durante
seculos creados e accumulados pelo trabalho e pelo genio gregos.

Roma adorava a Grecia. Nero, deante do povo hellenico, quiz ser athleta
e artista. O prestigio imperial provocou as acclamaes; a fora
garantiu-lhe e facilitou-lhe a grande espoliao dos objectos
artisticos.  provavel que, sujeita a _este espirito_ dos amadores
romanos, a Grecia ficasse quasi desprovida de estatuas, algumas das
quaes poderemos ver ainda hoje nos grandes museus da Italia.

Apesar de tudo, o genio artistico grego era to vivo e energico que se
manteve sempre, durante os flagellos da conquista e das depredaes
romanas. Foi este genio de grandes qualidades estheticas, formado n'uma
escola de excepcional grandeza, que a modesta arte latina do occidente,
formada pelo classico romano e pelo Christianismo, encontrou ainda
pujante e activa no imperio byzantino. Ora, esta substituio da
esthetica romana pela grega constituia j uma grande vantagem para a
nova evoluo da Arte.

Alm d'isso, Constantinopla estava perto da Asia Menor e d'essas grandes
provincias romanas, que comprehendiam a Mesopotamia e parte do grande
imperio dos Sassanides. Esta vasta regio, onde floresceram tantas
civilisaes antigas, confinava com a mysteriosa _Fars_, a Persia, que
em guerras successivas fra vencida pelos heroes da Grecia. Todas estas
naes, a Phrygia, a Lycia, a Caria, a Lydia e sobretudo a Assyria e a
Persia haviam tido uma arte mais ou menos adiantada. Esta parte da
historia da arte antiga  asss obscura nas origens e nas relaes
reciprocas; mas estudos modernos vo demonstrando a importancia das
manifestaes estheticas entre estes povos orientaes.

A influencia de ornamentaes riquissimas e de estylos cheios de
originalidade, adequados aos costumes, s necessidades e ao clima do
oriente, estendia-se principalmente para os lados do Bosphoro, o caminho
que tinham seguido as invases mdo-persas. Foi a aco reciproca
d'estes elementos, o classico hellenico e os estylos orientaes, que,
substituindo o romano e sob o influxo do Christianismo, produziu o
Estylo Byzantino.

A basilica, levada do occidente por Constantino e pelos christos do seu
tempo, chegra a elevar-se na capital e nas provincias orientaes do
Imperio; mas as suas frmas especiaes, pobres e severas, no poderam por
longo tempo resistir  atmosphera ardente da arte oriental. O seculo V
foi, pois, o periodo da evoluo rapida d'esse novo estylo christo, que
o imperador Justiniano teve a gloria e o orgulho de caracterisar n'um s
edificio, dos mais bellos do mundo.

Os planos e a construco de Santa Sophia de Constantinopla foram
dirigidos por Anithemius, nascido em Tralles, e por Isidoro, de Mileto.
Estes architectos, cuja fama ficou immorredoura como a de Ictino e
Callisthenes, os constructores do Parthenon o mais bello templo do
classico hellenico, eram ambos naturaes da Asia Menor, onde haviam
florescido adeantadas colonias jonicas. Mileto, uma das mais famosas,
pertencia  Caria, Tralles  Lycia, provincias limitrophes, das quaes a
ultima tocava a Assyria e a Mesopotamia, approximando-se do Imperio dos
Sassanides, a Persia. Estes dois homens de incontestavel genio foram,
pois, oriundos de raas e naes, onde o espirito hellenico e o oriental
tinham descoberto combinaes singulares e bellas na arte da
construco, nos estylos e na ornamentao dos edificios.

A construco do templo de Justiniano, iniciada em 532, correu com tal
rapidez, que em 27 de novembro de 537, dia da sua sagrao, o Imperador
pde soltar esta soberba e historica expresso: _Gloria a Deus que me
julgou digno de construir uma tal obra. Venci-te Salomo!_

De facto, nunca a riqueza da ornamentao e do culto excedeu a
magnificencia de Santa Sophia, nos tempos do Imperio Byzantino. Ainda
hoje, decahido e estragado pelos turcos, que lhe cobriram os marmores e
os mosaicos com estuques rendilhados, onde se lem versiculos do
Alcoro, o edificio de Santa Sophia constitue o primeiro e mais
admiravel monumento do Estylo Byzantino, o seu melhor exemplar, o mais
perfeito e mais rico.

O Estylo Byzantino, que se estendeu com enorme rapidez pelo norte da
Italia e pelo sul da Frana, chegando at  Allemanha, no penetrou em
Hespanha e muito menos em Portugal, pelo menos em edificios importantes
que tenham deixado tradies ou vestigios materiaes.

Para definirmos, pois, os caracteres d'este estylo, esbocemos curta
descripo de Santa Sophia de Constantinopla, o seu principal monumento,
que nos esclarecer e servir de guia, como fizemos no Estylo Latino.

O exterior de Santa Sophia  simples e severo. Uma multido de cupulas
de differentes dimenses, dominadas pela grande cupula do corpo central
da antiga egreja, do-lhe um aspecto caracteristico, perfeitamente
oriental, como o das cidades em climas onde a neve  desconhecida, a
chuva rara e reina quasi sempre calor ardente. A impresso de solidez do
edificio deprehende-se d'essas cupulas achatadas, repousando sobre
paredes espessas, separadas por botareos entre os quaes se abrem
pequenas janelas de volta inteira. Estamos j longe das coberturas de
madeira sobre paredes delgadas do Estylo Latino e bem perto das pesadas
abobadas sobre muros espessos, reforados por botareos, do Estylo
Romanico. Na gravura, que apresentamos, Santa Sophia  representada no
estado actual, isto , ladeada de quatro _minaretes_ e cercada de
construces, que as necessidades do culto do Islamismo e a selvageria
artistica dos turcos teem feito encostar ao antigo monumento.

[Figura: CONSTANTINOPLA--Exterior de S^{ta} Sophia]

A construco, exceptuando a pequena saliencia da bside principal, est
circumscripta n'um vasto quadrado de 77 metros de lado, como se v da
seguinte planta, limpa das excrescencias de origem turca.

[Figura]

A disposio interna offerece tres naves, a do centro muito larga e alta
em relao s lateraes. A cobertura d'esta nave central constitue um dos
caracteres principaes da architectura byzantina. No meio d'ella
desenha-se um grande quadrado de 31 metros de lado, exactamente a
largura da nave, definido pelos angulos internos de quatro enormes
pilares muito elevados, sobre os quaes veem apoiar-se quatro grandes
arcos de volta inteira. Repousando sobre os fechos d'estes arcos,
ergue-se uma cupula colossal, cujo diametro , portanto, egual ao lado
do quadrado. O espao vasio, que ficaria comprehendido entre os quartos
de circumferencia da cupula e os dos arcos sobre que ella assenta, foi
cheio, formando uma superficie concava e triangular, gerada pela
curvatura da cupula descendo ao longo dos arcos. Esta construco,
facilitando a passagem da figura circular da cupula para a quadrada dos
pilares, constitue quatro enormes _pendentes_, que ligam a mesma cupula
aos arcos, sobre que ella repousa.

[Figura]

Esta disposio, muito caracteristica, comprehende-se com facilidade,
estudando o anterior crte, feito pelo centro da cupula e perpendicular
ao eixo maior da nave central.

Para o oriente e para o occidente--porque o eixo principal da egreja tem
esta direco--duas semi-cupulas firmam-se nas paredes externas e
encostam-se aos arcos internos, tocando-lhes quasi o intradorso; assim
fica fechada a cobertura da nave central. O templo era, pois, orientado;
a luz da madrugada espalhava-se na grande nave, durante as ceremonias
religiosas, em geral matutinas. Esta orientao apparece mais tarde no
Estylo Romanico. Vamos, assim, fazendo desde j simples approximaes.

Os grandes arcos lateraes da nave principal foram cheios por paredes,
onde se abrem arcadas de volta inteira sobre as columnas do primeiro e
segundo pavimento das naves secundarias; por cima d'estas galerias a
egreja recebe luz directa de janelas, abertas para o exterior e deitando
sobre os terraos das mesmas naves, cobertas por abobadas de volta
inteira.

Assim, o corpo central do edificio apparece definido, mais elevado do
que os collateraes, recebendo luz de fra. Se o Estylo Latino deixou
aqui reminiscencias das galerias sobrepostas para separao dos sexos, a
disposio tambem faz lembrar as naves centraes mais elevadas dos
templos romanicos e ogivaes. Na parede oriental, sob a semi-cupula
respectiva, rasgam-se tres bsides, das quaes a do centro, um pouco
saliente do edificio, era o _sanctuario_. Na parede occidental em frente
das bsides, existem as tres portas de entrada, precedidas de um duplo
_narthex_, reminiscencia do porticos dos templos classicos, adoptados
tambem pelo Estylo Latino.

Se a isto accrescentarmos que o edificio  profusamente illuminado por
numerosas janelas de volta inteira, relativamente pequenas, existindo na
base da grande cupula central uma verdadeira cora de quarenta d'estas
janelas, que lhe do um aspecto singular de elegancia e de levesa,
teremos esboado singela descripo architectonica, que, sem confuses e
incertezas segundo pensamos, dar ida do edificio e das feies
caracteristicas do Estylo Byzantino, que Santa Sophia traduz
magistralmente.

Sem falarmos por emquanto na ornamentao, devemos concluir que o
primeiro caracter evidente d'este estylo  a cupula. Como quasi todos os
elementos fundamentaes architectonicos, foi ella conhecida no mundo
antigo. Constitue uma especie de cobertura, que os grandes constructores
e architectos da antiguidade deviam ter descoberto quasi ao mesmo tempo,
principalmente nos climas muito quentes, de longas estiagens e por isso
de poucas florestas, que economicamente fornecessem madeira para
construces. Pde servir isto de exemplo para as influencias do clima
sobre a construco e d'esta sobre a arte. Assim, tambem a ogiva, por
outras rases especiaes, deve ter sido conhecida pelos bons architectos
e constructores, porque os houve excellentes na mais remota antiguidade.

A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem;  natural e logico. Mas no
pde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi
conhecida. Ainda hoje na cidade eterna a podemos ver no Pantheon de
Agrippa, transformado em egreja christ, onde por signal jazem os restos
mortaes de Victor Manuel I, o unificador da Italia. O auctor d'este
livro admirou esta soberba cupula, que produz espanto pela perfeio da
construco arrojada, to excellente que resistiu  aco de dezenove
seculos, porque foi edificada no imperio de Augusto. Se a cupula de
Santa Sophia admira tendo o diametro de 31 metros, a do Pantheon causa
assombro porque a excede em grandeza.  toda de pedra talhada e tem 43
metros de diametro; no alto, tambem a 43 metros, offerece uma grande
abertura por onde o templo recebe a luz.

[Figura: CONSTANTINOPLA--Interior de S.^ta Sophia]

Bastaria este exemplo existente para demonstrar, aos que no ignoram o
principio da evoluo da arte e da sciencia de construir, que uma
maravilha d'estas no pde constituir um producto esporadico n'uma
civilisao. Roma conhecia este systema de construco, porque o
empregou, logo conhecia-o tambem a Grecia.  regra logica e segura.
Verdade seja que o Pantheon  um templo circular, precedido de um
simples portico de fronto classico; n'este caso, a cupula repousa toda
sobre paredes, emquanto que em Santa Sophia firma-se sobre quatro
pilares, com auxilio dos _pendentes_. Eis a caracteristica differena.

D'esta frma especial de construco, que provavelmente foi empregada
nos tempos mais remotos em Babylonia, na Assyria e na Persia, n'um ou
n'outro ponto preferida por condies locaes,  que no se encontraram,
at hoje, vestigios no classico romano e no hellenico. A _cupula de
pendentes_ , pois, um dos caracteres fundamentaes do Estylo Byzantino,
herdado de estylos antiquissimos.

Entre ns existe um exemplo d'esta cobertura, na Egreja do Sagrado
Corao de Jesus, vulgarmente denominada da Estrella. A cobertura
interior do cruzeiro, quadrado de crca de 12 metros de lado,  uma
cupula d'este genero, sustentada por quatro arcos. A unica differena,
alis secundaria, consiste em que a cupula repousa sobre um corpo
cylindrico, entreposto entre ella e os arcos, em cuja superficie se
abrem as janellas. Em geral, as cupulas byzantinas repousavam
directamente sobre os arcos sem interposio do tambor cylindrico;
dizemos em geral, porque nos pareceu que esta interposio, embora pouco
accentuada, se d na egreja de S. Marcos de Veneza, sem, todavia, o
podermos affirmar com plena convico.

A ornamentao de Santa Sophia era tambem caracteristica. A vontade
omnipotente do Imperador, secundada pelo espirito respeitoso--iamos a
escrever servil--dos funccionarios das suas vastas provincias, fez
saquear os templos pagos do oriente, como tambem se praticra no
occidente, para enriquecer o novo templo, o emulo do antigo templo de
Salomo. A historia relata a este respeito espantosos factos de
espoliao e destruio dos antigos templos classicos de Palmyra,
Pergamo, Heliopolis, Epheso e outras cidades. Ora, as depredaes n'este
caso exerceram-se nos thesouros immensos da arte hellenica e oriental;
emquanto, no occidente, o Christianismo encontrou a mais modesta arte do
classico romano. Comprehende-se, pois, a enorme differena da
ornamentao das egrejas nos primeiros estylos christos.

Os mais ricos materiaes foram empregados com profuso. Marmores
rarissimos e finos, o porphyro, o granito e a malachite constituiam as
columnas e forravam as paredes. Por toda a parte reinava esse _luxo_
asiatico, em que a prata, o ouro e at as pedras preciosas se revesavam
com os grandes mosaicos orientaes de fundo dourado ou de azul escuro,
revestindo as cupulas e os pendentes de immensos quadros, contendo
passagens do Novo e do Antigo Testamento, scenas reaes e symbolismos
diversos, onde as figuras appareciam com desenho incorrecto, sem vida e
movimento, em grupos symetricos, expresses hieraticas de uma arte
crystallisada, que perdera as tradies do grande estylo e no estudava
a natureza.

A magnificencia dos objectos do culto attingiu propores phantasticas
em Santa Sophia.

Como se o ouro no fosse bastante precioso, o altar era feito de uma
singular liga de ouro, prata e perolas e pedras preciosas reduzidas a
p. As suas quatro faces, cobertas de baixos relevos byzantinos,
brilhavam rica e profusamente incrustadas de perolas e gemmas de todas
as especies.

Este altar era coberto pelo _ciborio_ em frma de torre, cujo docel de
ouro massio repousava sobre quatro columnas tambem de ouro e prata,
entre as quaes se viam suspensas grandes espheras de ouro com a cruz
grega. No interior do ciborio, pendente do docel e como pairando sobre o
altar, uma pomba de ouro representava o Espirito Santo. Era a custodia,
onde se guardavam as sagradas particulas. Todo este conjunto refulgia de
perolas e gemmas preciosas.

O _sanctuario_ fra separado do corpo da egreja por uma alta divisoria
de prata, sustentada por doze columnas de ouro. Nas grandes superficies
de prata d'esta divisoria viam-se esculpidas em alto relevo figuras de
santos e lavores de caracter byzantino.

Quasi no centro da nave central, em frente do altar, um enorme _ambon_
de frma circular, em recinto vedado, servia de cro para as dignidades
ecclesiasticas e de tribuna para a crte imperial. Era coberto por um
docel de metaes preciosos, encimado de uma grande cruz de ouro, recamada
de granadas e perolas; este docel firmava-se sobre oito columnas de
marmore. De marmore e recamadas de ouro eram tambem as escadas de
accesso do ambon.

Nas hombreiras e nas portas do edificio havia-se prodigalisado a prata,
o marmore, o marfim e o cedro. Emfim, todos os restantes objectos do
culto, por mais secundarios que fossem, manifestavam riqueza
deslumbrante, accusando a tendencia oriental de carregar as linhas e as
frmas estheticas com pesados ornamentos, encrustados de gemmas e metaes
preciosos.

Imagine-se, pois, o effeito deslumbrante de tudo isto: columnas e
paredes de finissimos marmores polidos, mosaicos de fundo de ouro
revestindo as abobadas das cupulas e das absides, espalhando-se pelos
pendentes e pelo corpo da egreja em grandes quadros, os altares, o ambon
e os objectos do culto divino recamados de pedrarias, as grades e
divisorias de prata, imagine-se toda esta riqueza salomonica e oriental,
rutilando  luz de 6:000 grandes lampadas de metaes preciosos ricamente
cinzelados!

Esta impresso extraordinaria, embora no comparavel, sentiu-a um dia o
auctor d'este livro ao entrar n'uma festa religiosa, em S. Marcos de
Veneza; occorrendo-lhe, n'esse momento, a bella e rigorosa phrase de
Theophilo Gautier, porque a egreja, bem mais modesta em tudo do que o
foi a de Santa Sophia, tinha reflexos fulvos e brilhantes, como se fosse
uma _grande caverna de ouro!_

Em rapidos traos, tal foi nos primitivos tempos a Egreja de Santa
Sophia de Constantinopla, ainda hoje rica e soberba apesar de saqueada
pelos turcos de Mahomet II, se no pelo proprio Mahomet; egreja,
transformada em mesquita, que os dignos descendentes dos conquistadores
cobriram de estuques com arabescos orientaes e versiculos do Alcoro!

D'esta simples e modesta noticia deprehendem-se os caracteres, ou melhor
as feies do Estylo Byzantino; devemos, porm, entrar ainda n'este
ponto em alguns pormenores.

A frma das egrejas byzantinas offerecia differentes disposies. Dmos
a de Santa Sophia, falaremos ainda de outras. Em S. Vital de Ravenna,
edificio coevo de Santa Sophia, a planta offerece a figura de um
octogono regular; a grande cupula central repousa sobre oito pilares
internos, dispostos nos angulos do polygono, deixando entre si e as
paredes da egreja uma nave octogonal. A cruz grega desenha-se nos eixos
principaes dos dois corpos da egreja, o que termina na abside e o que ao
meio lhe fica perpendicular.  claro que n'este caso os pendentes so
pequenos e sel-o-iam successivamente, quanto mais numerosos fossem os
lados do polygono.

Na antiga egreja dos Santos Apostolos em Constantinopla, a nave
principal, tendo em comprimento o triplo da largura,  cortada ao meio
por um transepto perpendicular das mesmas dimenses. Nove cupulas de
pendentes eguaes cobrem esta superficie, representando uma verdadeira
cruz grega. S. Marcos de Veneza  uma imitao d'esta egreja. Sem
multiplicarmos os exemplos, poderemos estabelecer como tendencia geral a
maior ou menor approximao da cruz de braos eguaes, a do estylo grego.

No conjunto os edificios, em geral, manifestam-se pesados, austeros e
simples, pelo menos nos tempos primitivos. A cupula principal eleva-se e
predomina sobre as menores e mais baixas, se estas existem, sobresando
na tendencia horisontal das outras coberturas. A construco respira
estabilidade e solidez. As janelas so pequenas, segundo o uso oriental,
muito numerosas, de volta inteira como as portas, offerecendo s vezes a
frma de ferradura to usada no Estylo Arabe, que afinal teve tambem
muitas das origens do byzantino no mundo oriental.

O interior respira a riqueza, que manifestou em grande escala a egreja
de Santa Sophia. A ornamentao  caracteristica; mas, na realidade, so
as _cupulas de pendentes_, os _mosaicos_ orientaes, as _arcadas sobre
columnas_, os _capiteis_, e os _arcos geminados_, que melhor definem o
Estylo Byzantino, alem de outros que j descrevemos e vamos enumerar.
Observaremos que um grande numero d'estes elementos, no todos, sero
empregados depois nos Estylos Romanico e Ogival.

Os mosaicos, de fundo de ouro ou de azul muito vivo, representam em
grandes quadros, principalmente nas cupulas, nos pendentes e nas
abobadas das absides, motivos sagrados ou profanos em que entram
poderosos senhores, como nos de Ravenna. A arte , porm, hierarchica,
secca e fria. Em geral, o desenho manifesta singulares intenes de
symetria. As personagens no tem vida e movimento; parecem, se nos
consentem a expresso, multides de manequins, dispostos em maus quadros
scenicos. Este espirito byzantino da arte influiu, de certo, nos
pintores e nos esculptores occidentaes, nos periodos romanico e ogival.

A ornamentao profusa inspira-se nas artes do Oriente, offerecendo
frmas curiosas e originaes. Os capiteis, por exemplo, so de extrema
diversidade. Massios e pesados, quasi todos, variam de contornos:
cubicos, arredondados na base, em pyramides truncadas de arestas
salientes, s vezes dois sobrepostos, como succede na egreja de Ravenna.
A sua ornamentao manifesta, tambem, caracteres diversos, em que
predominam perolas, gales entretecidos, rendilhados de folhas
phantasticas, graciosos lavores abertos que parecem ornados de
pedrarias. s vezes, aves e animaes de singulares aspectos, vasos e
cestos, completam esta profusa ornamentao, em que foram abandonados e
esquecidos o gosto e as propores classicas.

No Estylo Byzantino, a esculptura, bem como a pintura, apresentam-se
decadentes, padecem quasi de eguaes defeitos. A pedra  trabalhada sem
os crtes largos e profundos, que procuram o relevo pelas sombras e
saliencias dos planos e dos ornamentos. Os artistas byzantinos lavravam
frouxamente a pedra. Parecia empregarem mais o buril do que o escopro;
foram mais gravadores de metaes do que esculptores de pedra.

 evidente que todos estes caracteres byzantinos tiveram profunda
influencia sobre os dos Estylo Romanico e Ogival, onde muitos apparecem,
mas j tratados com outro vigor e largueza.

Assim, pensamos ter dado successiva ida do Estylo Byzantino, que o
calor do Christianismo fez brotar vigoroso e esplendido do fertil solo
da arte hellenica e oriental.




CAPITULO TERCEIRO

ACO RECIPROCA DOS DOIS ESTYLOS CHRISTOS PRIMITIVOS


Assim, o espirito do Christianismo, reanimando as energias quasi
moribundas da arte grega e oriental, e da romana, crera dois formosos
estylos; correspondendo, na realidade, a expresses definidas do bello
nas duas maiores civilisaes, em que ento se dividia a Humanidade.

O Estylo Latino nascera primeiro, comeando a constituir-se logo aps a
sada do Christianismo das Catacumbas. Abandonando a Italia, Constantino
levou-o comsigo e implantou-o na sua nova capital, Constantinopla, que
teve, pois, como o occidente, as suas basilicas, entre as mais
importantes a dos Santos Apostolos, a de Santa Irene e a primitiva de
Santa Sophia, que Justiniano dois seculos depois transformou no grande
templo byzantino, descripto no capitulo anterior.

No periodo de formao do Imperio do Oriente, isto , desde Constantino
at Theodosio, o Estylo Latino desenvolveu-se com maior ou menor
intensidade, salvo n'essa breve tentativa reaccionaria do polytheismo
vencido, que se encarnou no imperador Juliano.

O Estylo Latino no tinha, porm, as qualidades exigidas pelo _meio_
grego e oriental, nem as basilicas classicas, de que elle derivava, eram
muito vulgares no oriente, se algumas importantes existiam. O proprio
clima no aconselhava coberturas de madeira, que o doce e temperado
clima da Italia e a tradio conservaram no primitivo estylo. Como as
plantas exoticas teem, em regra, vida artificial e difficil, o Estylo
Latino, nascido no occidente, no encontrando no oriente condies
favoraveis, estiolou-se a pouco e pouco e por fim desappareceu sob a
influencia de elementos architectonicos mais poderosos, porque eram
harmonicos com o _meio_ natural e social, para onde o Estylo Latino fra
transplantado.

Todavia, o novo Estylo Byzantino, que ia formar-se em harmonia com esse
_meio_ natural e social, no podia repudiar os elementos architectonicos
fundamentaes do Estylo-Latino vencido, que no eram antinomicos com os
seus e correspondiam, alem d'isso, a qualidades e exigencias do espirito
christo, que, sendo origem commum de ambos, imprimira  Arte novas
feies em situaes differentes.

De facto, no  difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua
originalidade, se apropriou de alguns caracteres fundamentaes do Latino;
muito embora, como em breve diremos, a fuso d'estes estylos se devesse
realisar mais tarde sob a aco do elemento barbaro, que no podia
deixar de manifestar profunda influencia sobre a architectura christ,
visto que a teve decisiva e innegavel na constituio das sociedades
medievaes.

Uma observao interessante na formao do Estylo Byzantino consiste em
que a sua maior obra, nunca depois excedida nem at egualada, Santa
Sophia de Constantinopla, parece ter apparecido como um facto esporadico
e uma creao inspirada dos architectos gregos; a verdade , porm, que
o Estylo Byzantino no fugiu  lei de todas as produces humanas, tendo
uma formao lenta e evolutiva. Existem e existiram edificios, que
constituem verdadeiros marcos milliarios d'esta evoluo. O genio dos
constructores de Santa Sophia, apenas a precipitou, dando-lhe a
apparencia de uma verdadeira revoluo nos estylos architectonicos.

 logico suppr que o periodo de verdadeira constituio do Estylo
Byzantino deve ter comeado quando Constantinopla foi declarada capital
do Imperio. O desenvolvimento de uma nova phase da arte exige sempre
elementos de actividade social e de riqueza, que s poderam reunir-se
quando a administrao geral do Imperio concentrou no oriente todas as
foras creadoras, com grave sacrificio do mundo occidental.

Nos principios do seculo VI, o estylo achava-se constituido, offerecendo
a sua mais perfeita expresso no templo de Justiniano.

O apparecimento, relativamente rapido, d'esta obra de arte to perfeita
e rica do Estylo Byzantino tinha de exercer forosamente profunda
influencia sobre a arte occidental. No s as egrejas e as construces
byzantinas comearam logo a elevar-se nos antigos dominios do Estylo
Latino e a invadir a Italia, na parte que ento constituia um Exarchado
do Imperio do Oriente, mas foi rapida a disperso d'este novo estylo,
principalmente no sul da Europa.

Muitas causas especiaes do tempo facilitaram esta disperso, que reinou
na Italia, no sul da Frana e chegou at  Allemanha, as duas naes que
mais tarde deviam cobrir-se de monumentos romanicos e ogivaes. As
relaes de todas as ordens, entre o occidente e o oriente, eram activas
n'esses seculos. Commerciaes havia-as constantes, porque as grandes
caravanas, que iam ao Extremo Oriente permutar mercadorias, atravessavam
a extensa zona, onde florescia o Estylo Byzantino, tendo um dos seus
grandes _caravansars_ em Constantinopla.

Alm d'isso, o espirito religioso activava o movimento dos peregrinos
occidentaes para os logares santos na Palestina, onde florescia o Estylo
Byzantino, at no proprio templo do Santo Sepulchro de Jerusalem, que
serviu depois de exemplar a tantos outros. As descripes, sempre um
pouco imaginosas dos viajantes, adornavam o novo estylo de
magnificencias e maravilhas, que segundo vimos eram bem merecidas.

Estas causas, s por si explicam a influencia da ornamentao oriental
sobre a arte do occidente; a aco, porm, tinha de ser mais completa.
Assim, ainda durante a existencia do Imperio ostrogodo de Theodorico, no
curto reinado de sua filha Amalasonte, o Estylo Byzantino comeou a
invadir a Italia. A Egreja de S. Vital de Ravenna, capital do reino
godo, foi erecta em 534, epocha em que duravam os trabalhos de Santa
Sophia. A Cathedral de Parenzo, cidade maritima da costa oriental do
Adriatico, seguiu-se-lhe em 540. Como era natural, a invaso fez-se
primeiro pelas grandes cidades litoraes d'este mar, em constantes
relaes com o mundo oriental.

O facto historico culminante, que facilitou a disperso do Estylo
Byzantino, foi todavia a constituio do Exarchado em Italia. Por morte
de Theodorico, sua filha Amalasonte assumiu a regencia em nome do filho
Athalarico. Esta princeza herdra algumas das grandes qualidades de seu
pae e entre ellas accentuadas tendencias para a civilisao classica,
ento representada pelo Imperio Byzantino. A morte do herdeiro da cora
entregou-lhe a herana paterna, que a nova imperatriz partilhou com
Theodato, seu primo, transigindo assim com a surda irritao dos
guerreiros ostrogodos. O assassinio da princeza foi o resultado da
transigencia. Ento, a desordem e a dissoluo apoderaram-se dos estados
de Theodorico.

Justiniano aproveitou o ensejo, pensando em restaurar o antigo Imperio
de Constantino. Belisario conquistou o sul da Italia e avanou at
Ravenna, que por momentos pertenceu  cora do oriente. As constantes
intrigas da crte byzantina sacrificaram em parte a obra do heroico
general de Justiniano, que ento incumbiu o persa Narss de recomear a
conquista. O famoso eunucho, valido do imperador, em victoriosas
companhas contra os godos conseguiu vencel-os, constituindo o ducado de
Italia, reduzida a provincia do Imperio Byzantino.

A morte de Justiniano levou ao throno Justino II, espirito fraco,
dominado pela imperatriz Sophia, que odiava o heroico eunucho Narss. Na
crte de Constantinopla ferveram, pois, as intrigas ambiciosas contra o
duque de Italia, a quem a propria imperatriz no poupava desgostos e
motejos, no se atrevendo a atacar de face o poderoso exarcha e habil
administrador. Uma phrase sangrenta fez trasbordar a vingana de Narss.
Dissera a imperatriz, referindo-se ironicamente s desgraadas
qualidades physicas do duque de Italia, que _elle era um homem digno de
fazer parte de um grupo de fiandeiras_. A resposta do eunucho no se fez
esperar. Sentindo a morte proxima, Narss, incitou entre os lombardos,
poderosa e guerreira nao germanica que habitava a Pannonia, a ida da
conquista da Italia. Assim, elles, em 568 atravessando os Alpes,
precipitaram-se sobre a peninsula, conquistando em poucos annos parte
importante da regio septentrional, que ainda hoje conserva o nome de
Lombardia.

O Imperio Byzantino, privado de grandes generaes e profundamente
corroido por vicios e intrigas, conseguiu apenas detel-os na marcha para
o sul; ficando a Italia dividida entre duas poderosas influencias: ao
norte, o reino lombardo; ao sul, as provincias do Exarchado de Ravenna,
que durou at meiados do seculo VIII, em que foi, emfim, destruido e
englobado no novo reino germanico. Assim, durante dois seculos, a
civilisao e a arte byzantinas estiveram em contacto directo e intimo
com uma das mais intelligentes naes barbaras, das que invadiram o solo
da peninsula italica.

As relaes entre os Chefes dos Estados tambem eram frequentes. O
Imperio do Oriente tinha para os reis semi-barbaros singular prestigio,
pelas tradies como legitimo representante do grande poderio romano,
que alis os seus antecessores haviam destruido, pela civilisao
relativa e, emfim, pelas immensas riquezas e pelo luxo asiatico da crte
byzantina. As tradies gloriosas e as riquezas foram e ho de ser em
todos os tempos motivos de admirao, de respeito e at de culto para os
espiritos inferiores. Assim, muitos chefes barbaros solicitavam a
nomeao de _patricios romanos_, ou acceitavam-n'a como grande honra;
com effeito, foram _patricios_ Theodorico, rei da Italia, e Clovis, rei
de Frana. Estas relaes diplomaticas do tempo no deviam contribuir
pouco para a propagao da influencia da arte byzantina, nas naes
occidentaes da Europa.

O movimento logico do ardente mysticismo christo facilitou, ainda, esta
propagao em grande escala. Desde os primeiros tempos do Christianismo
os seus mais ferventes e menos ignorantes proselytos deviam considerar a
representao material das idas sagradas, de Deus principalmente, quasi
uma verdadeira profanao. Era a consequencia logica de doutrinas muito
espiritualistas na essencia.

Assim acontecera, tambem, que os chefes do povo hebreu, Moyss entre
outros, haviam mais de uma vez destruido os idolos, deante dos quaes se
prostrava o povo. O Mosaismo e o Islamismo, duas religies de forte
essencia espiritual, no admittiram nunca a representao material da
divindade. No rigor da logica o Christianismo devia chegar, e chegou de
facto, a identicas concluses.

D'aqui proveiu a famosa seita dos _Iconoclastas_, no fim do seculo V j
to poderosa que teve por chefe ou adepto, pelo menos, o Imperador
Zenon. Estes _destruidores de imagens_, que as perseguiam com o terrivel
furor religioso, atravessaram quasi quatro seculos no Oriente, chegando
a invadir a propria Italia. No seculo VIII estes verdadeiros barbaros
eram poderosos. Condemnados por Concilios regulares, embora protegidos
por alguns imperadores, vieram s a extinguir-se no seculo IX. N'este
periodo extenso as artes byzantinas, pelo menos a esculptura e a
pintura, soffreram rudes perseguies nas suas obras, o que promoveu um
exodo dos respectivos artistas para o occidente, onde a seita foi sempre
menos poderosa e nociva.

Emfim, as Cruzadas no fim do seculo XI levaram para o Oriente centenas
de milhares de homens de relativa instruco, que conhecendo apenas a
modesta arte occidental, se extasiavam deante dos primores e da
magnificencia, que iam encontrando no seu caminho, desde Constantinopla
at  Palestina.

Foram todas estas causas, que em varias epochas facilitaram a disperso
da arte byzantina no occidente. Assim, o Estylo Byzantino logo no seculo
VI comeou a espalhar-se na parte septentrional da Italia, alargando-se
depois successivamente pela Lombardia.

A influencia da ornamentao byzantina em mosaicos, pinturas e
esculpturas, que j anteriormente se manifestra sobre o Estylo Latino e
que os artistas, emigrados do oriente pelas perseguies dos
iconoclastas, haviam accentuado, achou-se agora fortalecida pelos
proprios edificios, cujos fundamentaes elementos architectonicos eram
bem superiores em majestade, grandeza e durao aos correspondentes no
primitivo estylo christo, nascido no occidente.

Apesar das qualidades do seu emulo, o Estylo Latino occidental offereceu
resistencia, e no foi to facilmente vencido como no oriente. Na Italia
fra creado e se espalhra com profuso, correspondia ao _meio_ natural
e social; era, emfim, o producto do genio classico romano e o
representante de antigas tradies.

Foi sempre singular a resistencia tenaz d'esse antigo espirito classico
romano, que por longos seculos viveu sobre o solo da Italia, sem duvida
conservado pela hereditariedade do sangue e pelas tradies vivas dos
antigos monumentos. Assim, o Estylo Romanico no penetrou facilmente no
sul de Italia e o Ogival, cuja expanso foi enorme por toda a parte, se
a invadiu, teve de transigir e amoldar-se s circumstancias. Entrou na
Lombardia, elevando um dos melhores edificios em Milo; mas, a partir de
Florena, onde na opinio dos proprios italianos comea a verdadeira
Italia, o ogival tomou caracteres muito especiaes e transigiu com o
espirito classico.

O auctor d'este livro teve ensejo de apreciar bem este facto, quando
percorreu aquelle paiz. Alem d'isso, o movimento artistico da Renascena
terminado no seculo XVI, que representa um verdadeiro retrocesso s
origens, isto , s idas e aos estylos classicos, foi preparado e
realisado em Italia, exclusivamente por elementos italianos, quer fossem
escriptores, quer amadores ou artistas.

Assim, a grande vitalidade do espirito classico no solo da Italia foi
origem de muitos factos importantes na Historia da Arte, sendo, segundo
julgamos, tambem a causa da tenaz resistencia do Estylo Latino em face
do poderoso invasor oriental.

Emquanto o Estylo Byzantino realisava a invaso da Italia, durante o
seculo VI, elevando as suas construces ao lado das latinas, as leis
historicas preparavam as bases das futuras constituies sociaes. O
seculo V fra o periodo das invases na Italia, nas Gallias e na Iberia.
Na Italia, que mais nos interessa porque foi no occidente o fco da
arte, viu-se passarem os visigodos de Alarico, os suvos de Rodagus, os
hunos de Atila e os herulos de Odoacro, como rudes e barbaros
conquistadores; mas as conquistas succediam-se, deixando ruinas e
miserias, sem crearem organisaes sociaes estaveis. Como verdadeiras
ondas rebentavam no solo da peninsula, espraiando-se em grandes crsos,
que to rapidamente quasi se retiravam, como se haviam formado. Apenas,
os herulos de Odoacro, revoltados contra Augustulo, o ultimo imperador
do occidente, por curtos annos formaram uma vacillante monarchia,
destruida no fim do seculo V pelos ostrogodos de Theodorico.

O proprio Imperio ostrogodo tivera ephemera durao. O genio
indiscutivel do grande chefe imprimira-lhe, segundo vimos, certa unidade
e brilhante grandeza; mas a fuso das raas no se dra. O conquistador
era intelligente e humano, um espirito liberal e justo, civilisado na
crte de Byzancio; mas bem na essencia Theodorico ficra sempre um
conquistador, confiando mais na fora das armas do que na aco lenta e
segura da catechese politica. Por isso, conservra os seus guerreiros
isolados quanto possivel da civilisao classica, constituindo uma
verdadeira casta. A morte de Theodorico foi o signal da dissoluo dos
seus Estados, sendo pouco depois d'ella conquistada a Italia por
Belisario e Narss, os habeis generaes de Justiniano.

No seculo VI comeou na realidade a constituio de nacionalidades mais
fortes e duradouras. Assim, ao expirar do seculo V, organisou-se no
occidente da Europa, sob o energico governo de Clovis, convertido ao
Christianismo, a monarchia dos frankos, origem do Imperio de Carlos
Magno e da actual Frana; e nos meiados do seculo VI, como j vimos, a
Italia achava-se dividida em duas grandes nacionalidades, ao norte a
monarchia lombarda, ao sul as provincias byzantinas do Exarchado.

Os lombardos de Alboino eram, todavia, mais rudes do que os godos de
Theodorico; ou, pelo menos, o chefe lombardo no possuia a
malleabilidade do genio, a illustrao e a grandeza de caracter do
conquistador godo. Os povos vencidos foram no principio tratados com
maior egoismo e crueldade. As exaces assumiram propores violentas,
porque o espirito selvagem e guerreiro das hordas lombardas no era
temperado pelo caracter superior e prestigioso de Alboino.

A estabilidade relativa da conquista lombarda, que durou desde 568 at
774, anno em que foi destruida por Carlos Magno, e sem duvida as
qualidades intellectuaes dos novos invasores permittiram a lenta fuso
da raa vencida e da vencedora. Os riquissimos terrenos da Lombardia
foram de novo arroteados pelos fortes e energicos homens do norte. A
abjurao do arianismo pelos vencedores, que abraaram o Christianismo
orthodoxo dos vencidos, facilitou as relaes sociaes. A combinao dos
sangues creou a pouco e pouco novas geraes, em que se casaram as
qualidades animicas e ethnicas dos vencedores e dos vencidos, recebendo
de uns o espirito da liberdade e o valor guerreiro, que haviam perdido
os romanos da decadencia, de outros a cultura intellectual e moral, que
no podiam possuir os barbaros do norte, por melhores que fossem as suas
tendencias e disposies. A fuso das raas produziu, assim, uma
sociedade mais ou menos homogenea, fundada na unidade da religio e na
constituio de uma lingua commum, primeiro esboo das futuras
sociedades, que deviam resultar da alliana dos tres espiritos
creadores, o christo, o classico e o barbaro. A ordem e a sciencia, o
commercio e a industria comearam, pois, a reflorir na Lombardia, apesar
das continuas guerras que os seus habitantes sustentavam, principalmente
com o Exarchado, por elles emfim destruido em meiados do seculo VIII.

N'este cadinho, se nos consentem a expresso, a arte oriental e a
occidental em contacto no podiam deixar de produzir uma liga especial,
sob o calor de novas idas e sentimentos, nascidos do rejuvenescimento
de uma importante fraco da Humanidade.

A origem do Estylo Romanico deve ser attribuida a estes factos
historicos, embora n'outros pontos e n'outros seculos se dessem
circumstancias similhantes, que facilitaram tambem a evoluo e a
disperso d'este estylo. Assim,  certo que a constituio da monarchia
franka se deve considerar no occidente o resultado equivalente da aco
das leis historicas, e sabe-se que durante a dynastia merovingiana,
depois da converso de Clovis, se elevaram muitas construces; mas os
lombardos encontraram-se na posio singular e favoravel de contacto com
a arte byzantina, cujos edificios e produces se elevavam nos seus
proprios Estados. Esta situao especial envolve logicamente mais
directa e proficua influencia na formao de novas physionomias da arte.

Alem d'isso, os lombardos manifestaram-se sempre bons architectos e
excellentes constructores, quer o fossem por disposies proprias de
raa ou herana do sangue romano, quer o exemplo das construces
existentes lhes desenvolvessem e aperfeioassem estas qualidades. Assim,
quando a monarchia lombarda foi destruida por Carlos Magno e reduzida a
provincia do Imperio, os artistas lombardos espalharam-se pelos
restantes Estados imperiaes, sendo considerados bons architectos e
habeis constructores. Ainda hoje a expresso Estylo Lombardo, applicada
a uma feio do romanico, attesta a grande influencia d'estes artistas
n'este periodo da evoluo da arte.

Difficil ser, sem duvida, tentar a fixao de datas, embora seculares,
para os factos da genese do Estylo Romanico primario. N'estes remotos
seculos por completo fallecem os documentos e os melhores, os proprios
monumentos covos, em grande parte desappareceram pela aco de longa
antiguidade e de muitas e profundas catastrophes, offerecendo os que
existem duvidosa classificao.  indiscutivel, todavia, que esse
periodo de transio existiu, porque entre o Estylo Latino primitivo e o
Romanico secundario, constituido no seculo XI, as differenas
manifestam-se to radicaes que s as pde explicar uma longa evoluo.

O Estylo Byzantino, em verdade, approxima-se mais do Romanico secundario
em certos caracteres fundamentaes; mas ainda entre elles as respectivas
physionomias manifestam-se to distinctas, que envolvem um longo periodo
intermedio de elaborao. Como as transformaes biologicas e ethnicas
das raas animaes exigem geraes successivas e numerosas de verdadeiros
typos intermediarios, assim, entre os estylos christos primitivos e o
Estylo Romanico secundario  logica e necessaria a existencia de um
periodo de transio.

Alem d'isso, a comparao dos caracteres architectonicos demonstra que o
Estylo Romanico secundario comprehende os de ambos os seus antecessores,
constituindo no uma simples mistura de elementos diversos, mas em
verdade uma sabia e harmonica combinao, que fixou uma feio especial
da arte.[1]

Assim, o Estylo Romanico recebeu do Latino as disposies geraes das
fachadas e os narthexs, a frma interior das egrejas nas naves, nos
transeptos e nas absides, os triforios, as cryptas, os altares, os
ciborios, as tribunas e outras disposies particulares archictetonicas
e ornamentaes; e do Byzantino as abobadas e as cupulas, os pilares
massios e as grossas columnas, os pesados e variados capiteis, as
arcadas de volta inteira, os arcos geminados e sobretudo a variedade e
riqueza da ornamentao.

Quando comeou a manifestar-se essa transformao, que constitue o
periodo do Estylo Latino de transio, ou o Estylo Romanico primario?

Em geral, as maiores creaes do espirito humano, coincidem com os
grandes movimentos historicos. O marasmo politico suffoca a actividade
intellectual e entibia a energia da alma; escravisa e annulla o
pensamento, estancando-lhe as foras creadoras; substitue os grandes
ideaes pelos pequenos interesses, as nobres ambies pelo sordido
egoismo; emfim, reduz o animal humano a um automato, que apenas _sente_
a necessidade e o prazer de uma vida de sensaes faceis e vulgares.
Assim, vivem os chinezes ha milhares de annos, adormecidos dentro de uma
formula social crystallisada na sciencia, na moral e na arte.

A constituio do extenso e poderoso Imperio franko de Carlos Magno, em
meiados do seculo VIII, principalmente depois da conquista do Reino
Lombardo, pde considerar-se o inicio provavel do Estylo Romanico
primario. Este grande facto politico, um dos maiores da Historia, deu,
como  sabido, profundo impulso  civilisao, e sob o aspecto da arte
disseminou-a pelas vastas provincias de um vasto Imperio, habil e
energicamente governado por um dos maiores espiritos, com que at hoje
se inflorou a Humanidade.

Foi ento que os architectos e constructores lombardos, espalhando-se no
occidente e no centro da Europa, encontraram, sem duvida, excellente
atmosphera para desenvolver as singulares aptides do seu talento e a
profunda sciencia de longa pratica, creando novos elementos e novas
combinaes architectonicas, que prepararam o Estylo Romanico
secundario, a phase pura e perfeita d'este estylo.

Esta revoluo na esthetica nasceu indiscutivelmente da aco de um novo
espirito creador, sem a influencia do qual a arte no occidente teria
crystallisado, permanecendo quasi invariavel por longos seculos, como
succedeu no oriente ao Estylo Byzantino, que apenas gerou o Estylo
Russo, cuja physionomia actual conserva ainda accentuados e
caracteristicos os traos, embora orientalisados, do seu antecessor.
Esse espirito innovador, que modificou a politica e a moral das antigas
sociedades, esse forte e benefico movimento, que agitou e saneou o
pantano do mundo classico, esse espirito revolucionario, que das
montanhas da philosophia, da sciencia e da arte classicas fez brotar
poderosos mananciaes de novas idas e de novas frmas, foi o elemento
barbaro.

A sua grande qualidade, o amor pela liberdade do pensamento, foi o
sangue forte e generoso, que veiu dar calor e vida  canada e anemica
compleio classica. Na arte o seu trabalho de regenerao, atravessando
as phases do periodo romanico, devia produzir a definitiva e magnifica
concepo do mais perfeito estylo religioso conhecido, o Estylo Ogival.




PARTE TERCEIRA

OS ESTYLOS CHRISTOS DEFINITIVOS

XI SECULO AO XV SECULO




CAPITULO PRIMEIRO

SYNTHESE SOCIAL DOS SECULOS XI E XII


Quando no anno de 814 da era de Christo morreu Carlos Magno, o seu vasto
Imperio, abrangendo a Frana, a Allemanha, parte da Austro-Hungria, a
Hespanha at ao Ebro e a Italia quasi toda at ao Volturno, entrou em
dissoluo, tendo o destino fatal de todas as tentativas de restaurao
do antigo poder romano.

A unidade apparente, que reinava entre raas e naes differentes,
proviera do prestigio pessoal de Carlos Magno, do seu talento
administrativo, da bondade do seu caracter, em summa da elevao
intellectual e moral de um homem, que imprimiu ao movimento do espirito
humano, to abatido n'aquelles tempos, um vigoroso impulso, afrouxado
nos seculos seguintes, mas, ainda assim, no perdido para a Humanidade.

As antigas e inuteis discusses byzantinas tomaram, com effeito, novo
caracter especial, constituindo a philosophia da Edade-Media, a
Escholastica, que na realidade nasceu nas academias e nas escolas,
creadas por Carlos Magno. Este movimento intellectual 
interessantissimo, principalmente nas duas primitivas phases: a primeira
sob a influencia do idealismo de Plato, subordinando a philosophia,
isto , a sciencia,  theologia; a segunda, sob a aco do realismo de
Aristoteles, durante a qual a sciencia e a theologia caminham a par.

O seculo XIII, como veremos, foi o da lucta mais activa entre
_realistas_ e _nominalistas_, entre as influencias de Aristoteles e de
Plato, lucta formidavel, nem sempre incruenta porque teve perseguidoras
e martyres, sendo uma das origens da reforma religiosa do seculo XVI e
do movimento philosophico e positivo das sciencias nos seculos
seguintes.

O Imperio de Carlos Magno constituiu, pois, um periodo curto e brilhante
depois d'esse espao obscuro e terrivel das invases, em que tantos
povos de origem differente se precipitaram sobre o esqueleto do antigo
mundo romano.

Sob a aco poderosa de Carlos Magno, a unidade administrativa do
Imperio podia considerar-se completa. Os delegados do poder central,
duques, condes, vigarios e outros funccionarios, governavam os diversos
Estados, quasi reduzidos a provincias, em nome do imperador, em quem
residia o poder supremo indiscutivel e respeitado. J no tempo de Carlos
Magno, comtudo, o espirito de rebellio lavrava entre estes
funccionarios, cujo caracter germanico, guerreiro e independente, altivo
e ambicioso do poder, os levava a pensar na hereditariedade dos cargos e
na permanencia das funces. O prestigio pessoal do imperador
contrarira-lhes os designios, que tomaram vulto e animo depois da sua
morte. Estas tendencias definem a origem e so a causa da organisao do
_feudalismo_, constituido no seculo XIII, em que tambem se manifesta o
primeiro periodo do Estylo Ogival.

Os filhos e netos de Carlos Magno no lhe haviam herdado nem o prestigio
nem as qualidades pessoal. Tibios e ambiciosos, em continuas guerras,
enfraqueciam-se mutuamente, deixando engrossar a ida de independencia,
que sempre germinra entre os delegados imperiaes. Assim, o fraco
Carlos-o-Calvo, rei de Frana, reconheceu aos senhores, que o eram j de
facto, o direito da hereditariedade e certa independencia, na
_Capitularia_ de 877, anno da sua morte, que define historicamente o
comeo do feudalismo.

Ao mesmo tempo, nas classes sociaes inferiores, constituidas
principalmente pelos vencidos e pelos pobres e trabalhadores, lavrava
tambem o espirito da liberdade, animado pelo Christianismo e pelas
tradies das antigas instituies romanas. A Republica excitra sempre
a vida local. O Imperio, depois, restringira-a successivamente;
conservando-lhe, apenas, as funces indispensaveis para facilitar o
exercicio do poder central. Esta aco, a decadencia dos costumes dos
cidados dos ultimos tempos e as responsabilidades fiscaes dos
municipios romanos, fizeram decar as _curias_ da sua primitiva
grandeza.

 sabido que nos ultimos tempos do Imperio as funces municipaes,
consideradas de perigo e onerosas, no eram disputadas, como outr'ora;
para obter os _curiales_, os imperadores viram-se forados a obrigar os
cidados a desempenharem estes cargos, com penas e multas
correspondentes. O espirito communal, todavia, no se extinguira de todo
nem com a depravao dos costumes romanos, nem com a conquista dos
barbaros. No sul da Frana, por exemplo, mais livre das invases, os
antigos municipios romanos haviam-se conservado com maior ou menor
pureza.

Alm d'isso, a tradio d'estas instituies locaes mantinha-se, e os
seus principios existiam vivos, com o brilho das legislaes theoricas,
no antigo direito romano.  muito provavel, tambem, que o espirito de
fraternidade e de solidariedade de certas classes romanas, como as dos
artifices e dos operarios, tivesse atravessado o longo collapso do V ao
X seculo. Pelo menos parece serem d'isto exemplo as associaes
_franco-maonicas constructoras_, que tanta influencia tiveram na arte
ogival e, a nosso ver, se no se filiam nas similares romanas, pelo
menos derivam d'ellas, como exporemos a seu tempo, n'outro ponto d'este
livro.

Seja como for, julgamos que os dois principios, o _feudalismo_, nascido
do espirito barbaro, e o movimento das _communas_, insufflado pelo
espirito christo, sem duvida os agentes principaes da civilisao dos
seculos XI ao XV, manifestaram as primeiras tentativas de evoluo entre
o Imperio de Carlos Magno e os comeos do seculo XI, no qual na
realidade comea a _Renascena,_ que se operou durante um longo periodo,
com relampagos admiraveis nos seculos XIII e XVI, sobretudo sob o
aspecto da arte.

De facto, a Edade-Media parece dividida em dois periodos distinctos: o
primeiro do seculo V ao seculo X, o das terriveis luctas entre os tres
principios, o classico, o christo e o barbaro; o segundo periodo do
seculo XI ao seculo XV, o da lenta combinao e fuso d'estes
principios. No seculo V, a luz j quasi crepuscular do grandioso mundo
classico perde-se na noute, longa e tempestuosa noute d'alguns seculos.
A pallida aurora do mundo moderno comea a despontar a partir do seculo
XI.

Estes dois periodos so definidos por um facto historico interessante e
de alguma importancia. O espirito mystico do Christianismo e as
profundas miserias, soffridas pelo mundo romano logo aps a victoria
d'esta religio, geraram a lenda do _millenio_ periodo de mil annos
durante o qual a humanidade dos vivos e os martyres e adeptos do
Christianismo resuscitados gosariam, sob o proprio reinado de Jesus
Christo, todas as felicidades e os maiores bens sobre a terra. O
principio d'estes seculos de Justia implicava logicamente o fim de um
mundo cheio de dores e flagellos, que assim foi prefixado para o ultimo
dia do seculo X.

A superstio teve sempre grande presa sobre os espiritos ignorantes e
fracos; julgue-se, pois, da influencia na Edade-Media d'esta prophecia,
fundada em textos sagrados, tendo uma longa tradio e admittida por
homens superiores, at por alguns papas. Nos fins do seculo X, a
approximao d'este dia tremendo amortecera todas as expanses da
actividade humana. Para que servia, com effeito, trabalhar, produzir,
construir, fazer esforos, quando estava prestes o fim d'este mundo e o
principio d'aquelle em que todos seriam eguaes e felizes, reinando sobre
a terra a justia e a felicidade sob o sceptro do proprio Christo?!

Por isso, a historia descreve o collapso profundo e crescente, que se
apoderou do mundo christo, quando se avisinhava esse dia de Juizo, to
admiravelmente traduzido pelo desconhecido poeta medieval de um dos mais
bellos canticos da egreja:


Dies irae, dies ille
Solvent seculum in faville.


N'esse dia um panico profundo envolveu todos os espiritos. As egrejas
encheram-se de fieis, que esperavam a catastrophe entre prantos e rezas;
ora, por uma doce ironia da natureza, a aurora do primeiro dia do seculo
XI raiou esplendida.

Para apreciar bem a importancia d'este facto, que hoje parece pueril, 
preciso transportarmo-nos aos primitivos tempos da Edade-Media,
avaliarmos a ignorancia extrema de todas as classes sociaes, com
rarissimas excepes e essas escondidas principalmente nos conventos;
apreciarmos, emfim, o espirito publico n'um tempo em que primava a ida
religiosa, no tendo outros competidores.

A passagem do perigo imminente alliviou a alma humana, dando-lhe
expanso s faculdades creadoras e activando-lhe o exercicio do
trabalho. Assim, o segundo periodo da Edade-Media  bem differente do
primeiro.

No seculo XI, a sociedade christ entrou n'uma evoluo accentuada. O
feudalismo achava-se quasi constituido. Esta nova organisao social
espalhou-se pela superficie do antigo imperio de Carlos Magno. A terra,
toda dividida em _feudos_, pertencia aos suzeranos; mas os _senhores_
tinham n'esses feudos quasi absolutos direitos de soberania, absorvidos
a pouco e pouco aos reis, agora confinados em pequenos Estados
propriamente seus.

Em compensao, estes suzeranos recebiam dos feudatarios o respeito
pessoal e a defeza da sua honra, auxilios prefixados em homens equipados
a cargo dos mesmos feudatarios em caso de guerra e, emfim, rendas
pecuniarias, ou certos impostos cobrados por conta do suzerano, que s
vezes tambem conservava o direito de justia, funco em geral
independente dos senhores feudatarios. Esta organisao politica era, na
realidade, uma federao de pequenos Estados, tendo um soberano ou
imperador mais ou menos nominal.

O direito reconhecido aos senhores feudaes de crearem dentro dos seus
Estados novos feudos, disseminava as baronias e originava uma hierarchia
de suzeranos secundarios, seculares e ecclesiasticos. Os grandes
dignitarios da egreja, os bispos, eram senhores feudaes na sua diocese e
suzeranos nos seus Estados. As grandes doaes, feitas  egreja, haviam
multiplicado o numero dos senhores feudaes ecclesiasticos, que chegaram
a possuir em Frana e Inglaterra o quinto das terras, e o tero na
Allemanha.

N'esta organisao autonoma e guerreira sente-se claramente o espirito
dos barbaros, que seculos antes haviam destruido o Imperio Romano. As
violencias e as luctas intestinas entre estes senhores eram constantes e
traduziam-lhes o caracter audacioso e cupido; o amor pelas aventuras e o
desejo ardente do poder arremessavam-n'os uns sobre os outros,
impondo-se reciprocamente pelo direito da fora n'uma sociedade, onde
eram mal reconhecidos pelos fortes e poderosos os principios do direito
e os dictames da justia. Assim, a egreja, em nome da religio, unica
influencia energica sobre aquellas almas de bronze em corpos vestidos de
ferro, procurou intervir, definindo com modestos resultados a _trgua de
Deus_, a prohibio da lucta em certos dias da semana.

Estas poderosas unidades guerreiras repousavam, como era logico, sobre a
servido das classes civis, principalmente das mais numerosas e pobres.
Em verdade, o Christianismo tinha adoado o caracter duro e barbaro da
escravido classica. No regimen feudal, a classe dos miseraveis, os
_servos de gleba_, que em torno dos castellos agricultavam a terra e
eram herdados como fazendo parte d'ella e sendo verdadeiros instrumentos
de trabalho, tinha subido um pouco na escala da escravatura, cujos
pontos culminantes se desenham no mundo classico e depois no moderno,
quando se desenvolveu o infame trafico das raas de cr, consideradas
inferiores s brancas. O feudalismo, repassado pela religio christ,
olhava-os como homens, sem direitos politicos e civis  certo; mas
estava longe, muito longe ainda, de os considerar, como o _antigo
regimen_, o das monarchias absolutas fundadas no Catholicismo, o fez
depois, uma multido de miseraveis, sem garantias, sem direitos e quasi
sem familia, que os cynicos dos seculos XVII e XVIII consideraram massa
_taillable, et corvable  merci_.

Assim, no segundo periodo da Edade-Media, pelo menos a grande maioria do
povo--digamos a palavra--gozava de certas vantagens, que provinham dos
dois espiritos em aco parallela: o germanico e o christo. A familia
offerecia uma expresso mais elevada e perfeita. Na antiguidade o
casamento era um contracto, na Edade-Media um sacramento, que ligava por
toda a vida. O Christianismo consolidra a pedra angular das sociedades
com a indissolubilidade do matrimonio. Depois, Jesus Christo
encarnra-se no seio de uma mulher, a Virgem. O espirito germanico,
acceitando estas doutrinas, trouxe a essa unidade da familia, onde o
homem se completa, os seus caracteres de hombridade e de liberdade; o
seu _ponto de honra_, emfim, que foi uma feroz creao moral do
feudalismo, adoada pelo Christianismo.

Ainda foi o espirito germanico que implantou no mundo romano o
julgamento pelos eguaes--pelos pares--origem do moderno jury. Na
Edade-Media o imposto era admittido pelos contribuintes, o que envolvia
_prvia_ consulta, nem sempre talvez respeitada, mas em summa
reconhecida. A egreja, n'esse tempo ainda, conservava o principio
electivo romano para as altas dignidades ecclesiasticas. Estes e outros
principios temperavam um pouco a tyrannia feudal, e quasi todos elles
desappareceram no regimen despotico das monarchias absolutas e da
theocracia pontificia.

As classes civis na Edade-Media agrupavam-se nos grandes centros, onde
se mantinham as transaces e as industrias rudimentares do tempo, e nos
pequenos burgos, povoaes dispersas creadas naturalmente, ou
facilitadas pelos senhores dos feudos, que davam guarida e proteco aos
fugitivos dos feudos limitrophes; alm d'isso, eram formadas por essa
multido de _servos de gleba_, que dispersos ou concentrados perto dos
castellos, constituiam os verdadeiros agricultores, como os _sudras_ da
India antiga.

O movimento communal nascera naturalmente nos grandes centros, promovido
pelas causas geraes, precedentemente apontadas. Demos n'este ponto ida
da essencia e constituio d'este movimento, em que tiveram aco
importante os trabalhadores d'esse tempo, como teem nos tempos modernos
os operarios industriaes na formao das futuras sociedades socialistas.

A aco das associaes, ou confraternidades operarias, na constituio
das communas e a influencia que exerceu uma das mais poderosas,
principalmente no periodo ogival, a dos _franco-maons constructores_,
obrigam-nos a abrir um parenthese para nos occuparmos das suas origens e
dos seus fins. As origens provaveis esto nas associaes romanas
similares, ou por filiao directa e successiva, o que alis no
demonstra a historia no grande collapso do V ao X seculo, ou organisada
sob a aco das tradies e das leis romanas na phase activa das
construces do primeiro e segundo periodo romanico, nos seculos XI e
XII.

Pelo primeiro ou pelo segundo processo, ou talvez por ambos, ninguem
pde deixar de reconhecer a profunda similhana entre as duas
associaes: as romanas e as da Edade-Media. J no tempo da Republica,
havia em Roma um collegio de pedreiros, cuja existencia se prolongou
durante o Imperio. Constituia uma verdadeira associao de classe no
sentido moderno da expresso, composta de architectos, pedreiros e
canteiros ligados pelos principios da confraternidade moral, mutuo
auxilio e proteco ao trabalho. O Estado reconhecera-lhe a existencia.
Possuia estatutos, propriedades, salas de reunio; era, emfim, uma
instituio legal.

No regimen interno, os associados, classificados mestres, companheiros e
aprendizes, tinham assemblas deliberantes, secretarios, fundos proprios
administrados por um thesoureiro, archivos, escolas, em summa, tudo que
caracterisa uma poderosa associao. As praticas internas, mais ou menos
secretas, empregavam symbolismos, entre os quaes figuravam as
ferramentas dos respectivos officios.

Esta vasta associao espalhava-se por todo o Imperio--ella, as suas
lojas filiaes, ou outras associaes congeneres--era privilegiada pelas
leis; por exemplo, no pagava impostos. N'estas condies, abrangia uma
area to extensa que existem d'ella noticias historicas na Gallia e na
Bretanha, onde provavelmente deu origem, com outras associaes romanas,
aos primitivos _guilds_, os antecessores dos poderosos Trade-Unions da
Inglaterra moderna.

Esta simples descripo, fornecida pelos escriptores romanos, manifesta
similhanas to singulares com os caracteres fundamentaes das grandes
associaes constructoras da _franco-maonaria_, que pela filiao
directa, o que nos parece mais plausivel, ou pela influencia da
tradio, as mesmas idas e os mesmos interesses approximaram estas
classes de operarios, salvo as differenas provenientes da aco do
Christianismo na Edade-Media.

Dos seculos V ao X, espao de tempo a que chamamos o primeiro periodo
medieval, as miserias, as crises sociaes e a aco mystica do
Christianismo haviam desenvolvido o espirito cenobitico e monastico,
como necessidade da segurana e do descano do corpo, e da paz e da
liberdade do espirito. As sciencias e as artes refugiaram-se nos
primeiros conventos. Em 529, por exemplo, S. Benedicto fundou a celebre
ordem dos benedictinos, a cujas praticas religiosas foram impostas
tambem, como obrigaes scientificas, a conservao da sciencia classica
e a copia dos manuscriptos. Esta ordem poderosissima, cujos trabalhos
valiosos so conhecidos, espalhou-se por todo o orbe christo,
constituindo grandes e historicas abbadias.

Em volta d'estes conventos, que logicamente comprehendiam os architectos
e os constructores dos mosteiros e dos templos, agruparam-se os
operarios, organisando as primeiras associaes christs. Ora, a
tradio e a essencia das grandes associaes romanas deviam manter-se
no espirito e nos archivos dos mosteiros d'esse tempo. Por esta frma se
explica a ligao, directa ou indirecta mas indiscutivel, das
associaes romanas e das medievaes.

Assim, os primeiros traos historicos da _franco-maonaria_ datam do
seculo XI, isto , do seculo em que se define o segundo periodo do
Estylo Romanico. No seculo XIII, estas associaes apparecem j
independentes, com organisao completa e construindo as maiores
cathedraes do Estylo Ogival. Teremos occasio de desenvolver o assumpto
n'outra parte d'este livro.

 indiscutivel que as corporaes de artes e mesteres, embora bem
rudimentares n'essa epocha, feitas  imagem e similhana das romanas,
deviam constituir grandes foras revolucionarias nos primeiros
movimentos communaes. A communa nasce, pois, do amor da liberdade,
manifestao do espirito germanico, do principio das organisaes
methodicas e regulares, tradio do espirito romano, e dos sentimentos
de caridade e mutuo auxilio, essencia intima do Christianismo. Em nenhum
facto historico da Edade-Media se distingue mais clara e profundamente a
aco parallela e harmonica das tres manifestaes d'esse espirito, de
que falavam as escolas de Anaxagoras e de Socrates. A communa, todavia,
representava tambem a ligao dos fracos quasi inermes, contra o
feudalismo guerreiro e potente. A natureza intima d'esta instituio
democratica provm de todos estes principios.

Os primeiros movimentos communaes accentuados datam do seculo XI,
embora, como dissemos, as organisaes municipaes romanas tivessem
subsistido nos pontos do Imperio mais livres das invases barbaras, por
exemplo no sul da Frana. Nos seculos XII e XIII a organisao communal
era j poderosa. Estas communhes, confederaes, ou conjuraes,
segundo os nomes caracteristicos do tempo, haviam-se formado nos antigos
centros, ou em centros novos. O seu principal fim, n'esses tempos de
guerras e desastres, foi a defeza reciproca; a primeira obrigao dos
cidados consistia em se reunirem armados, quando tocava a rebate o sino
do campanario, em volta do qual se agrupava a communa, e d'onde esculcas
vigilantes, noite e dia, espreitavam os perigos de subitas investidas. A
organisao interna das communas nasceu logicamente d'estas agremiaes
primitivas, realisadas  sombra da egreja, que, s vezes, constituia o
ultimo baluarte das luctas entre os burguezes e a cavallaria feudal.

Pela habilidade, pela pertinacia, aproveitando com astucia as occasies
favoraveis das luctas entre os senhores feudaes e a sua necessidade de
dinheiro, as communas foram obtendo a pouco e pouco a organisao
autonoma, umas livres constituindo quasi _feudos burguezes_, se nos
consentem a expresso, outras sujeitas ao delegado do senhor ou do
suzerano, o _preboste_; mas todas reunindo uma fora respeitavel, depois
aproveitada pelos senhores mais habeis para instrumento dos planos de
restaurao da unidade do poder real, que antecedem e preparam a
formao das monarchias do direito divino.

No seculo XIII as communas livres e do _prebostado_ eram numerosas e os
seus direitos mais ou menos reconhecidos por contratos, entre os
senhores feudaes e as agremiaes burguezas. Libertadas dos antigos
servios pessoaes, tendo uma organisao administrativa independente e
electiva, que envolvia, s vezes, o direito de justia, em qualquer caso
repousando sobre o julgamento dos _pares_, livres de tributos
arbitrarios substituidos por contribuies fixas, as communas manifestam
n'este seculo certa unidade de organisao e os caracteres de liberdade
e de vida locaes.

Taes foram, descriptas na essencia e em rapidos traos, as duas foras,
o feudalismo e as communas, que fizeram a historia do segundo periodo da
Edade-Media. N'este meio social, se a ignorancia era profunda, as
sciencias e as artes davam os primeiros passos. A Escholastica, nascida
com o Imperador Carlos Magno, depois da morte de Alcuino e de Engenhard,
perdera o brilho que attingira nas escolas e academias imperiaes. Revive
no seculo XI, em que Abelard, celebre pelos seus amores com Heloisa, lhe
imprime um vigoroso impulso, do qual resultar o grande movimento
Escholastico do seculo XIII, com as figuras primaciaes de S. Thoms de
Aquino, o auctor da Summula Theologica, e de Roger Bacon, o sabio
universal e prophetico. Estes dois grandes homens representam duas
escolas, a primeira que por evoluo successiva devia produzir a
theologia e a metaphysica, a segunda que originaria o methodo
experimental e  a essencia positiva das sciencias modernas.

No seculo XI comeam tambem as guerras religiosas, o embate das grandas
foras do islamismo, accumuladas ao sul da Europa, e do Christianismo,
occupando o centro e o norte. A primeira lucta corpo a corpo, travada
nos campos da Palestina, constituiu a Cruzada do anno de 1096. O
feudalismo move-se em peso e 600:000 guerreiros reunem-se em
Constantinopla, ponto de partida. As populaes servis da Europa christ
respiram, alliviadas d'esta fora tremenda, que vae a Jerusalem libertar
o Santo Sepulcro. As fileiras rareadas do feudalismo facilitam a
constituio communal. Alem d'isso, o movimento das Cruzadas, que dura
dois seculos, activa as relaes de todas as ordens com o Oriente, pe
as naes occidentaes em mais directa communicao com a arte byzantina,
que tanta influencia tivera j sobre o Estylo Latino, e contribue
poderosamente para a riqueza e disperso dos Estylos Romanico e Ogival.

N'este pequeno quadro dos seculos XI e XII pretendemos definir o _meio
social_, em que se desenvolveram os mais completos estylos da arte
christ. A pintura  incompleta, mas um trabalho d'esta natureza no se
presta a maiores desenvolvimentos historicos. Os necessarios fal-os-emos
tratando dos Estylos Romanico e Ogival. N'este ponto, basta notar que o
espirito humano teve rapida e ascensional evoluo nos dois seculos XI e
XII, o periodo do Estylo Romanico, e que o seculo XIII representa na
historia uma phrase brilhante, um relampago da Renascena, em que
principia o periodo ogival.




CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO ROMANICO


Os _meios_ sociaes em que se formaram os Estylos Latino e Byzantino
descrevemol-os, com rapidos traos, em anteriores capitulos. Seguindo o
methodo adoptado, aprecimos as circumstancias historicas em que se
operou a fuso d'esses estylos e fizemos depois o quadro do estado
social dos seculos XI e XII, periodos medios durante os quaes se
definiram as duas feies do Estylo Romanico, o da constituio perfeita
e o da transio para o Estylo Ogival.

D'estes quadros, se embora curtos ficaram perfeitos, devemos tirar
concluses geraes. A fuso dos tres espiritos, o classico, o germanico e
o christo, est quasi realisada. A homogeneidade do pensamento prepara
a das sociedades.  a aurora do mundo moderno, que desponta ha oito
seculos. So enormes os dias da historia da Humanidade; duram por longo
tempo, como por myriades de seculos se contam os da historia da
Natureza.

O espirito da liberdade comea o seu caminho, nem sempre directo e facil
mas constante e orientado, para as instituies modernas. Essa fora
poderosa, a liberdade do pensamento, vae engrandecer as antigas
sciencias, crear outras novas e, como a arte  uma sciencia,
engrandecel-a tambem em todos os ramos, refundindo a antiga esthetica,
como transformou a philosophia classica.

A tendencia para a ordem social produz a riqueza, a relativa instruco
desenvolve o gosto, elementos que constituem a melhor atmosphera do
trabalho intellectual e da sua applicao pratica. As sciencias e as
artes saem dos conventos, onde a barbarismo dos primeiros seculos as
obrigra a procurar refugio. Os senhores fazem os seus votos e
cumprem-n'os, elevando templos, e constrem castellos e palacios nos
seus Estados. As communas nascentes edificam os seus campanarios e
tambem os seus muros e fortalezas. A emulao estabelece-se. Os pequenos
tyrannos at procuram salvar as almas, mercadejando com Deus e cobrindo
o sangue dos assassinios e as torpezas dos actos com templos admiraveis.
Sirva de exemplo a grande Cathedral de Milo, construida em 1386 por
Joo Galeas Visconti, duque de Milo, um dos maiores malvados do seu
tempo, alis bem fertil em individualidades d'esta especie, dispersas
por toda a Europa feudal.

O Christianismo domina sem rival; para elle comera tambem a unidade
que teve depois n'outros seculos. Chame-se Catholicismo, religio
reformada ou orthodoxa grega,  sempre o mesmo espirito tendo aco
identica sobre os destinos do orbe christo, que ns e os hespanhoes
havemos de alargar mais tarde, descobrindo os mais longinquos confins do
mundo.

Este bello movimento do espirito humano, iniciado nos seculos XI e XII,
avigora-se no seculo XIII, cuja atmosphera facilitou a formao do
Estylo Ogival, aquelle que at hoje produziu, em menos tempo, a maior
quantidade de monumentos de todas as ordens, admiraveis manifestaes de
grandeza e de qualidades de arte. Agora, porm, circumscrevamos os
nossos raciocinios ao Estylo Romanico secundario e ao terciario, chamado
de transio, porque n'elle, durante o seculo XII, se opera a passagem
para o Estylo Ogival.

As grandes provincias occidentaes do Imperio Romano, a Gallia, a Iberia,
a Bretanha, haviam sido devastadas pelas invases germanicas; a propria
Italia, como vimos, soffrera os maiores flagellos, perdera primeiro a
hegemonia e depois fra arrancada  cora imperial do oriente. A miseria
era extrema em toda a parte. Na Italia, por exemplo, no principio do
seculo VI, S. Benedicto retirava-se para Subiaco, a cem kilometros de
Roma, para n'este _vasto deserto_ levar vida contemplativa e ascetica,
creando depois com os adherentes, que dia a dia se agrupavam em volta
d'elle, a celebre ordem dos Benedictinos. Este estado social, perigoso e
incerto, e o proprio mysticismo da religio christ crearam as primeiras
associaes religiosas, que satisfaziam s necessidades do espirito e 
segurana e ao socego dos homens, que no andavam envolvidos nas
tremendas luctas do tempo. Taes so na essencia as origens das ordens
religiosas, que, a pouco e pouco, principalmente depois das Cruzadas, se
organisaram regularmente.

N'estas associaes se refugiaram a sciencia, a philosophia e a arte,
que precisam para boa cultura o socego do corpo e a tranquillidade do
espirito. Algumas ordens religiosas, como as dos Benedictinos, tinham
nos seus estatutos escriptos, alm de regras e praticas religiosas,
obrigaes de caracter scientifico; ora, esta ordem teve, como  sabido,
uma expanso enorme e rapida, depois da fundao, no seculo VI, do
primeiro mosteiro em Monte Cassino. De facto, esta poderosa e sabia
associao espalhou-se pelo occidente, dando origem a abbadias que ainda
hoje teem nome na historia: em Frana as de Cluny e Citeaux, construidas
nos seculos X e XI, na Allemanha as de Ratisbonne e Salsburg, em
Inglaterra as de York e de Westminster, para no citar ainda mais
outras. Tambem, nos ultimos seculos do primeiro periodo da Edade-Media
at ao principio do seculo XI, se formou em Italia a associao civil
dos _irmos pontifices_, que depois se constituiu em ordem religiosa; os
seus fins consistiam em construir e reparar pontes, facilitando assim o
caminho das peregrinaes, que se dirigiam aos logares santos e a outros
pontos de venerao christ.

A existencia d'estas associaes religiosas exigia a construco de
grandes edificios, para a vida em communidade, e a da egreja para os
exercicios divinos. Os primeiros associados em Christo foram assim,
logicamente, os architectos e constructores dos proprios templos; quasi
os unicos quando as miserias da sociedade se accentuaram ainda mais nos
seguintes seculos. Em volta dos conventos e das egrejas em construco,
agrupavam-se os operarios, os restos das antigas associaes romanas,
talvez, ou pelo menos gremios nascentes que mais tarde deviam dar origem
 _franco-maonaria_. Assim, ao lado da sociedade religiosa
constituia-se outra associao civil, que os proprios superiores ou
abbades cultivavam pela sciencia e pela religio, organisando-as e no
desdenhando a honra de fazer parte d'estas corporaes de artes e
officios.

O movimento iconoclasta favorecia estas organisaes, trazendo artistas
experimentados do oriente, que no occidente procuravam o trabalho e a
proteco dos conventos. Entre os grandes servios que o Christianismo
prestou  Humanidade, durante a Edade-Media, no foi este o menos
importante: conservar a sciencia e a philosophia classica e desenvolver
novas feies estheticas.

Assim correram as cousas at ao seculo IX, quando sobreveiu a grande
invaso dos normandos, que, descendo do norte, infestaram o occidente da
Europa, a Frana e principalmente a Bretanha. Estes grandes _piratas_ do
mar, que _as tempestades levavam aonde elles queriam ir_, assolavam,
saqueavam e queimavam tudo na sua passagem, mais sequiosos de presa e
mais brutos de sentimentos do que os proprios hunos de Atilla. A pouco e
pouco,  certo, uma civilisao superior infiltrou-se-lhes no sangue e
adoou-lhes os costumes selvagens; mas os grandes males estavam feitos e
era indispensavel reconstruir os edificios, as egrejas e os conventos,
cujas ruinas, ainda negras do fumo dos incendios, attestavam a
brutalidade dos novos invasores.

Os primeiros constructores christos tinham encontrado edificios feitos,
as basilicas; apropriaram-se d'ellas, imitaram-n'as por toda a parte,
saqueando as riquezas dos antigos templos classicos para as adornar.
Agora, os architectos occidentaes, os frades principalmente,
encontravam-se em circumstancias differentes. As necessidades do culto
tinham modificado as egrejas, embora conservando-lhes a antiga feio; a
estabilidade das associaes religiosas manifestava outras exigencias na
durao dos edificios. O tempo e os flagellos da guerra haviam esgotado
os thesouros, d'onde os antigos architectos tinham tirado a ornamentao
dos templos primitivos; emfim, ao novo Estylo Byzantino, espalhado e
conhecido no occidente, offerecia-se campo largo e aberto, onde a sua
influencia se podia exercer com grande actividade. Todas estas condies
especiaes tendiam a imprimir novos caracteres s construces
architectonicas.

A solidez do edificio e a sua maior durao envolviam o problema da
natureza da cobertura. Os novos constructores resolveram-n'o empregando
a _abobada_, que fra excluida das construces primitivas do Estylo
Latino e tinha sido raras vezes usada no Estylo Romanico primario. A
abobada de volta inteira ou abatida era muito usada em Roma; mas os
edificios escolhidos para egrejas ou para modelos dos templos do Estylo
Latino, as basilicas, no a tinham, nem a comportavam, dadas as
condies de estabilidade e de espessura dos muros, ou das columnas,
sobre as quaes repousava a cobertura. A tradio, principalmente em
materia religiosa, tem sempre grande fora; por isso, as tradies da
basilica foram, n'este ponto, quasi absolutamente conservadas.

Alm d'isso, o Estylo Byzantino empregra a cupula de construco
difficil e a abobada em arco de circumferencia, facil de construir;
estamos, pois, plenamente convencidos de que o caracter fundamental do
Estylo Romanico secundario, a _abobada_, foi o resultado da influencia
do novo estylo oriental. Mas o systema de cobertura abobadada exige, sem
discusso, maior espessura de paredes, que lhe possam sustentar o peso e
resistir s presses lateraes; por isso, os edificios romanicos
apresentam estes caracteres, pela diminuio dos vos abertos e pelo
emprego de contrafortes e botareos. Aqui, so as proprias necessidades
da construco, que levam os architectos a adoptar os processos e as
frmas do Estylo Byzantino. Emfim, logicamente, se o arco de
circumferencia predomina na parte principal do edificio, a harmonia do
estylo indica-o para os outros elementos, portas, janelas e arcos, assim
tambem traados no Estylo Byzantino.

Os architectos latinos, acceitando a ordenao classica, preoccuparam-se
pouco com os ornamentos externos; pelo contrario, a interior das
basilicas deparra-se-lhes rica e era-lhes facilitada pelos excellentes
materiaes e productos artisticos, com que topavam por toda a parte,
restos conservados dos precedentes estylos. Os architectos romanicos
trabalhavam em mais perfeita liberdade de aco; mas tinham poucos
thesouros artisticos para ornamentao das egrejas. Alm d'isso, a
solidez dos edificios e a sua longa durao provavel convidavam-n'os a
estudar e a realisar combinaes estheticas, que os embellezassem no
exterior.

A extenso do uso dos sinos e a inveno dos relogios exigiram a
construco de elevadas torres, que muitas vezes tambem, como j vimos,
satisfaziam a necessidade de defeza, ultimo baluarte da communa, ou
castello do convento. Era, pois, natural que essas torres symetricas,
por exigencias estheticas e do clima ornadas de agulhas ou de elevados
corucheus, se tornassem elementos principaes das fachadas mais ricas e
grandiosas.

Por esta frma, muito logicamente, se deduzem os caracteres fundamentaes
do Estylo Romanico, devidos uns a influencias dos anteriores estylos,
outros a necessidades de construco, a novos usos e ritos e at  aco
do clima, que em certas circumstancias influe sobre a escolha e emprego
dos materiaes e por elles na formao dos estylos.

Expostas estas idas geraes, que a nosso ver ligam as condies do
_meio_ social dos seculos XI e XII, durante os quaes o espirito humano
manifestou determinada phase, com os caracteres do estylo que  a sua
feio especial nesse periodo da evoluo da arte, desamos a
explanaes indispensaveis para melhor distinguir e apreciar o Estylo
Romanico secundario, que reinou no seculo XII.

 bom notar que a classificao dos estylos por seculos  um pouco
arbitraria; querendo, apenas, significar que dentro d'este espao foi
construida a maioria dos principaes monumentos de determinado estylo; o
que no quer dizer que alguns o no fossem antes ou depois d'esse
limite. Alm d'isso, entre as differentes naes, que usaram do mesmo
estylo, no se manifesta elle rigorosamente nos mesmos periodos, nem at
offerece perfeita unidade e similhana de caracteres, que, pelo menos
nos secundarios, apresentam differenas sensiveis provenientes de varias
causas, entre as quaes o clima, os materiaes de construco e as
tradies locaes se devem considerar importantes.

As disposies anteriores das egrejas romanicas offerecem muitas
variantes. Algumas, talvez as mais numerosas, seguem o typo tradicional
das basilicas; tres naves, cortadas pelo transepto, a do centro mais
ampla e prolongada pelo cro, que n'este estylo se alongou mais,
constituido por um corpo recto terminado pela abside. Como vimos, no
primitivo Estylo Latino a abside formava o _presbyterio_, depois
seguiam-se o altar e o cro, dispostos j na nave central; nas egrejas
romanicas estes tres elementos foram introduzidos na abside alongada por
paredes rectilineas, espao a que o uso deu o nome geral de cro.
Proveiu este engrandecimento de necessidades do culto, da melhor
separao do sanctuario em relao ao templo e do uso generalisado dos
orgos.

N'esta frma, algumas vezes as naves lateraes avanam, ladeando o cro
at  curva da abside, outras vezes circumdam-n'a por completo,
constituindo a _charola, ou deambulatorio_, para o qual nos ultimos
tempos se abriram capellas. Infelizmente, Portugal no possue exemplar
algum completo e rico d'este estylo. Os que existem so pequenos, pobres
e estragados por successivas restauraes antigas que lhes deturpam as
frmas e a ornamentao: mas a S de Lisboa, a que nos referiremos em
capitulo especial, fornece exemplo das disposies particulares do
Estylo Romanico.

N'este plano, o mais habitual, desenha-se com nitidez a cruz latina,
formada pela nave central e pelo cro, cortados pelo transepto. Em
algumas egrejas nota-se o facto singular do eixo do cro, em vez de
prolongar o da nave central, inclinar-se para a direita do observador.
Esta anomalia foi attribuida a defeitos de construco descuidada,
vulgar nos edificios romanicos menos importantes, ou ao symbolismo da
inclinao da cabea de Jesus Christo, quando expirou sobre a cruz. A
segunda hypothese parece-nos mais provavel.

Outras egrejas offerecem a disposio octogonal, imitando n'este caso as
byzantinas de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem, que
serviu de modelo, como era natural, a muitos templos, at com identica
invocao. Existe n'este genero uma egreja, que nos parece constituir
excepo muito singular, e onde em cada lado do octogono interior ha uma
abside: a de S. Miguel de Entraigues, em Frana. Emfim, a planta
circular, se no abunda, tem exemplos n'este estylo.

Em geral, a porta ou as tres portas de entrada defrontam com o cro; mas
egrejas existem de duas absides ou cros fronteiros, isto , tendo dois
transeptos nos extremos da nave central; n'este caso as entradas so
lateraes.

A cobertura empregada foi a abobada, principalmente a partir dos fins do
seculo XI. Em data anterior nas egrejas subsistiram em geral as
coberturas de madeira; este facto  muito provavel ter-se dado nas mais
pobres e em regies ricas de florestas. Assim, pareceu-nos que parte das
egrejas das nossas povoaes do norte foram do Estylo Romanico
secundario ou do periodo de transio, restauradas no tempo ogival e no
da renascena manuelina, de que teem em geral muitissimos elementos;
ora, estas egrejas tiveram sempre, dada a espessura das paredes e das
arcadas das naves, cobertura de madeira. Talvez possam dar d'isto
exemplo duas pequenas egrejas excellentes, a de Caminha e a de Villa do
Conde. Fazemos esta affirmao com reservas, porque entre ns as
restauraes, em regra, foram to ms e radicaes, que mascararam a
feio anterior dos edificios; mas que tenham sido do Estylo Romanico
secundario ou do terciario, a sua cobertura foi sempre de madeira.

A frma das abobadas pde reduzir-se a dois typos: o de volta inteira,
ou o que resulta da penetrao reciproca de cylindros ou cones de base
circular, constituindo as abobadas de arestas, ou as de arco de
claustro. Estas frmas so fundamentaes nas construces do segundo
periodo romanico, porque a ogiva, quando apparece nos comeos do seculo
XII, caracterisa o terceiro periodo, o de transio, como veremos em
breve.

Tambem o Estylo Romanico tem as cryptas do latino, maiores ou menores e
em geral debaixo do cro, nas egrejas mais importantes.

Ainda as torres caracterisam este estylo. So relativamente pouco
elevadas, massias, ornadas de _arcaturas_, ou de arcos de volta
inteira, e cobertas por agulhas de pequena altura. Umas vezes ficam
separadas do corpo do edificio, como  de uso nos de Italia, outras
vezes, fazendo parte d'este corpo, ou ornamentando-lhe a fachada.
Algumas egrejas teem mais de uma torre, dispostas duas symetricas na
fachada e uma outra sobre o cruzeiro, interiormente aberta, formando uma
especie de zimborio, ou fechada pela propria abobada d'este cruzeiro. A
S de Lisboa offereceu a primeira disposio. A terceira torre, cada
pelo terramoto de 1755 e de que existem evidentes vestigios,
denominava-se _torre sineira_, o que explica os seus fins especiaes, a
que foram depois applicadas as grandes torres da fachada.

Um elemento, que nos parece constituir um dos caracteres importantes do
estylo romanico,  a existencia de galerias, mais ou menos largas, sobre
as arcadas que dividem a nave central das lateraes. Estas galerias,
denominadas _triforios_, de pequenos arcos simples ou trilobados, so
verdadeiras reminiscencias dos porticos superiores das basilicas, onde
as viuvas e as virgens assistiam isoladas s ceremonias religiosas. O
exemplo encontra-se na S de Lisboa, guarnecida por um triforio nas
paredes da nave central e nas do transepto. A construco moderna tem
columnellos com galba e capiteis de dimenses classicas; mas nas
sondagens feitas foram encontradas as verdadeiras dimenses do triforio
primitivo e o seu typo accentuadamente romanico. Tambem a S de Coimbra
tem triforio; n'esta egreja, porm, a galeria  muito larga e de frma
especial.

As portas e as janelas so de volta inteira, onde, s vezes, os _arcos
geminados_ byzantinos demonstram o parentesco proximo dos dois estylos.
Os supportes, os pilares, as columnas e os capiteis, fugindo a todas as
propores classicas, manifestam-se rudes e fortes. Os grandes pilares
das naves, at quando j tendem a tornar-se polystylos, so grossos e
curtos. A expresso de fora sobrepuja n'elles a de elegancia,
dando-lhes, alis, um aspecto grandioso; umas vezes, apresentam-se
quadrados e lisos, ou com columnelos nichados nos angulos; outras vezes,
cylindricos ou polygonaes, revestidos de meias columnas. Esta disposio
prepara os pilares polystilos, isto , ornados de finos e elevados
columnelos, do Estylo Ogival.

Os capiteis apresentam variadissima ornamentao, em geral differente em
todos elles, ainda que pertenam ao mesmo vo. Este facto caracteristico
ser explicado, quando tratarmos do Estylo Ogival. Offerecem a frma de
pyramides quadradas ou conicas, truncadas e invertidas, coroados por um
simples abaco. As columnas desobedecem a todos os modulos classicos, no
teem galba, apresentam-se cylindricas, em geral, ou ligeiramente
conicas.

As arcadas de volta inteira so formadas de varias molduras, as mais
ricas ornadas de desenhos, dos quaes j encontrmos alguns no Estylo
Byzantino. No interior e no exterior dos edificios romanicos, as
_arcaturas_, simples ou entrelaadas, constituem ornamentos muito
vulgares e elegantes das paredes, sobre as quaes teem maior ou menor
saliencia.

O conjunto exterior dos edificios romanicos produz no espirito uma
impresso caracteristica de fora e severidade, embora tambem, s vezes,
de elegancia e riqueza. Os coroamentos elevados, em alguns edificios
revestidos de ameias, sobre cornijas repousando em _macheculis_, as
torres massias e quadradas, os muros muito espessos revestidos de
botareos pouco salientes, por entre os quaes se abrem as janelas, do a
estes grandes edificios um aspecto de fortificao, de que, em verdade,
serviram muitas vezes nos tempos medievaes.

Ao vel-os, melancholicos e sombrios, parece que a sua grande alma de
pedra sente ainda as impresses dolorosas das desgraas profundas e dos
horriveis flagellos, atravessados pela Humanidade durante essa triste
quadra da historia. O seu caracter religioso  para muitos mais completo
e elevado do que o dos edificios ogivaes; por isso, hoje o Estylo
Romanico comea a ser considerado mais verdadeira expresso da arte
christ do que o ogival. Citamos a opinio por curiosidade, embora com
ella no estejamos muito de accordo.

As fachadas romanicas variam muito, conforme a inspirao dos
architectos, para que possam ser descriptas em schema desenvolvido; mas
n'estas fachadas os portaes de entrada, em geral um ou tres, offerecem
grande importancia. So formados de archivoltas de muitas molduras mais
ou menos ornamentadas, repousando sobre capiteis e columnas da natureza
anteriormente descripta. No fundo d'estes portaes de arcadas embocetadas
e decrescentes, abre-se o vo da porta, offerecendo em geral um tympano
de pedra, ora com baixos relevos symbolicos, ora liso ou formado de
pequenos parallelipipedos. D'esta ultima disposio existe entre ns
exemplo na antiga porta lateral da S de Lisboa, hoje restaurada.
Algumas vezes o tympano era de pintura polychromica sobre fundo de ouro,
systema que constitue, sem duvida, uma imitao pobre dos ricos tympanos
byzantinos de mosaico, como se vem em S. Marcos de Veneza. Por cima dos
portaes, janelas da mesma disposio architectonica do luz s naves; a
central  a origem da futura rosacea do Estylo Ogival.

O _narthex_, ou galil, dos primitivos estylos conserva-se nas condies
expostas n'outro ponto d'esta memoria.

A ornamentao geral  variada e caracteristica n'este estylo. Folhagens
caprichosas entre phantasticos corvos e cabeas de expresses grotescas,
combinaes geometricas de gales recamados de perolas, zig-zags e
arabescos impossiveis de definir constituem reminiscencias do Estylo
Byzantino e so precursores do Estylo Ogival. Na porta lateral da S de
Lisboa foram descobertos e restaurados dois capiteis do lado esquerdo,
que nos parece envolverem uma excepo rarissima no Estylo Romanico. Na
base dos capiteis, em cada um, duas pombas bem trabalhadas parece do
bicadas em cachos pendentes da folhagem. So dos mais bellos capiteis
que temos visto. A pintura polychromica apresenta-se, s vezes, nos
capiteis dourados, de que existem traos evidentes na S de Lisboa, ou
pintados, assim como os fustes das columnas, as molduras das archivoltas
e certos pontos das paredes.

 evidente que a abundancia e perfeio dos ornamentos dependem da edade
do estylo, mais rudes e simples no primitivo, mais perfeitos e variados
quando se approxima o Estylo Ogival. Assim, quasi todos os elementos
principaes d'este futuro estylo se encontram, mais ou menos esboados no
romanico.

Seria quasi impossivel comprehender bem os dois estylos sem os comparar,
estudando-os separadamente. No Estylo Romanico, o caracter de todos os
elementos  a fora e a severidade: no Ogival a elegancia e a suavidade,
que mascaram a fora sem a diminuir, a no ser na decadencia d'este
ultimo.

Eis em rapidos traos os caracteres mais salientes e geraes do Estylo
Romanico secundario. Em verdade, no so muito accentuados, exceptuando
a abobada, por isso, o estylo talvez seja definido, ou pelo menos
completada a definio, pelos caracteres ornamentaes, alis, tambem
sujeitos s condies particulares e aos materiaes empregados nos
differentes paizes. Assim, no sul da Frana, como na Italia, onde reinou
mais accentuadamente o Estylo Byzantino, os edificios romanicos teem
qualidades um pouco differentes, embora sempre subordinadas s regras
geraes e s feies do estylo. Os do sul so mais leves e cuidados do
que os do norte; na Allemanha e na Inglaterra manifestam-se mais pesados
e de ornamentao mais barbara e primitiva. Em qualquer caso, a grande
influencia do Estylo Byzantino, na constituio da architectura dos
seculos XI e XII, manifesta-se incontestavel.

O Estylo Romanico terciario--o de transio--apresenta os mesmos
caracteres do secundario; comtudo um elemento no empregado no periodo
anterior, o _arco em ogiva_, produz logicamente importantes modificaes
na disposio geral dos edificios. Este arco deve ter sido conhecido em
todas as naes da antiguidade, que tiveram grandes constructores e
edificios importantes. Se o no empregaram em grande escala, foi decerto
porque a natureza dos respectivos estylos, com tendencias horisontaes
nas linhas mais apparentes, no se adequava estheticamente s
disposies inversas do arco ogival. As investigaes scientificas vo
demonstrando este facto e o futuro nos dir o que se pde ainda
descobrir.

O arco em ogiva tem propriedades mechanicas to evidentes em si, to
faceis de provar pelo simples raciocinio e pela mais modesta
experiencia, que seria quasi uma offensa  capacidade, alis
extraordinaria, de alguns architectos classicos suppr que no lhes
foram conhecidas e portanto que no applicaram o arco ogival, quando as
condies o exigiram. Todos sabem, com effeito, os extremos cuidados de
construco, na perspectiva e na disposio dos materiaes, que os
architectos classicos empregaram no Parthenon: sciencia to profunda,
demonstrada pelo moderno estudo do monumento, como depois no houve
exemplo, e em que foram at attendidos os erros visuaes nas grandes
linhas horisontaes e perpendiculares. Negar a estes e a outros famosos
architectos perfeito conhecimento das vantagens da applicao da ogiva
seria um indiscutivel absurdo.

No arco em ogiva as componentes horisontaes das presses, exercidas
sobre os pilares, so menores do que no arco de volta inteira e
decrescem successivamente com a maior altura da ogiva. Este theorema 
to facil que a mechanica de todos os tempos o devia ter demonstrado. As
rases pelas quaes comeou a ser usado no segundo periodo romanico e
depois teve geral emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que
nos cumpre investigar como induco interessante.

 muito provavel que a solidez e a economia das construces fossem a
raso suprema da sua adopo, sem, todavia, deixarmos de considerar as
condies estheticas de edificios, como os romanicos, que iam tomando
frmas elevadas e ponteagudas, repellindo por sua natureza as grandes
linhas horisontaes e as curvas continuas. As qualidades estaticas do
arco em ogiva prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto ,
davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os mais economicos,
elegantes e ideaes, se nos permittem a palavra; correspondendo, assim,
ao espirito essencialmente mystico e religioso que o Christianismo havia
desenvolvido na Edade-Media. A ogiva apparece, pois, como elemento
logico de um estylo e expresso esthetica do estado especial do espirito
humano no periodo historico, que procurmos definir n'outros capitulos
d'este livro.

Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, s por si, no caracterisa o
terceiro periodo romanico. Os edificios tomam, sem duvida, um aspecto
mais leve; mas a ornamentao tambem offerece transformaes
importantes. O trabalho  mais perfeito. Novo systema de molduras
substitue em parte as primitivas, os ornamentos mais pesados apparecem
rejuvescidos, outros novos so creados; emfim, a guarnio vegetal,
precursora do ogival, desenvolve-se n'este periodo.

Na esculptura e na pintura persiste a frma ascetica, delgada e alta, de
roupagens de pregas parallelas e apertadas, da arte byzantina. As
physionomias so graves e serenas, traduzindo o extasi mystico, de quem
abandona o corpo esqueletico e macerado n'este mundo e deixa voar a alma
livre para a celeste beatitude do espirito; verdadeiras frmas
hieraticas e tradicionaes, e porque o so, seccas e sem movimento.

Uma decorao magnifica comea a manifestar grande desenvolvimento no
ultimo periodo do Estylo Romanico: os _vitraes_, as vidraas coloridas
das janelas. O uso dos vidros nas egrejas parece haver comeado no
seculo X.  muito provavel que os vitraes ordinarios substituissem longo
tempo antes as laminas de pedra rendilhada, que encontrmos no Estylo
Latino. Que esses vitraes fossem depois superficialmente pintados,
tambem  de crer; mas o verdadeiro vidro polychromico, com a cr fundida
e incrustada na massa, no apparece seno no seculo XII, por modo
incontestavel e com desenvolvida applicao, de que existem ainda alguns
exemplares.

Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes 
relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e
encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que
n'esse tempo cada cr differente correspondia a uma s malha, sendo
divididas em muitas as cres de grande superficie, por necessidade de
construco da vidraa. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico
azul. Na parte superior do vitral desenha-se, conforme o periodo, a
ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do
Antigo e Novo Testamento ou de lendas christs, onde as figuras, bem
como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte
byzantina nas disposies, no desenho e nas roupagens. Em geral, a cr
dos objectos representados no corresponde  natural, sendo as cres
escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expresso da
realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta admiravel
ornamentao, cujo effeito  surprehendente, attinge a maior perfeio
no Estylo Ogival; para elle, pois, reservamos mais algumas
consideraes.

Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar o Estylo Romanico
nos dois periodos, o secundario e terciario. Accrescentaremos, apenas,
que a classificao dos edificios, principalmente nas epocas de
transio de estylos limitrophes,  assumpto delicado, que exige
sobretudo muita experiencia e observao de exemplares bem definidos. As
idas geraes no bastam, nem  sufficiente o estudo dos livros. 
preciso pela experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir um
senso esthetico educado; uma cousa correspondente a essa qualidade
singular que teem os grandes medicos de diagnosticar a doena, quasi
adivinhando-a pela simples observao do enfermo.

Alm disso,  indispensavel conhecer a historia do monumento, se elle a
tem escripta, alis refazel-a com successivas investigaes, estudando
pedra a pedra, elemento a elemento, porque nos periodos de transio,
principalmente, tudo se sobrepe e combina por tal frma que o enygma
parece sorrir dos nossos esforos em cada canto dos monumentos.

Entre ns, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos sobre se a egreja
de Alcobaa deve ser considerada romanica do terceiro periodo, ou j
ogival. Nas arcadas do cro, mascarada por bellos intercolunmios jonicos
manifesta-se o romanico, talvez do segundo periodo, depois, no corpo da
egreja, as ogivas dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda de
caracter romanico.

Restauraes successivas, feitas em largos periodos, desnorteiam o
observador. Exceptuando, pois, a fachada, do feio e pesado Estylo da
Renascena dos principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser esta
egreja um soffrivel exemplar do romanico de transio. Discutiremos este
assumpto, interessante sob o aspecto da classificao architectonica dos
nossos monumentos, em um dos seguintes capitulos d'este livro.




CAPITULO TERCEIRO

A S PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA RESTAURAO


No pretendemos fazer uma monographia da S de Lisboa; nem o edificio
tem valor architectonico que merea investigaes demoradas, nem cerca
d'elle existem documentos ou dados provaveis, que possam facilitar
similhante trabalho. A carencia de elementos historicos, regra pelo
menos nos monumentos nacionaes primitivos, no soffre excepo na antiga
cathedral metropolitana, cujos archivos foram em grande parte destruidos
pelo incendio, que seguiu o terremoto de 1755.

Assim, citamos esta egreja como simples exemplo nacional do Estylo
Romanico; porque foi, sem duvida, o melhor dos edificios d'este estylo
existentes em Portugal. Effectivamente, entre ns devem apenas
considerar-se de relativa importancia, como monumentos romanicos, a S
de Lisboa, a S Velha de Coimbra e a da Guarda, porque, se algumas
outras egrejas comearam por ser d'este estylo, successivas
reconstruces e restauraes no periodo ogival e no da renascena
mascararam-lhe quasi por completo as feies. Alem d'isso, so estes
templos os de maiores dimenses, e excepcionalmente podemos encontrar
pelo paiz alem d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do Estylo
Romanico, mais ou menos puro.

Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos, que possuimos,
dois, a S de Lisboa e a da Guarda, acham-se mais ou menos profundamente
alterados por obras realisadas em differentes seculos, algumas asss
barbaras. Apenas, o terceiro, a S Velha de Coimbra, teve nos ultimos
annos conscienciosa restaurao, que a repoz quanto foi possivel no
estado primitivo. Pensou-se, tambem, ultimamente na S de Lisboa e
n'este sentido alguma cousa se tem feito; mas to profunda  a ruina
d'este templo e do respectivo claustro, que a estas obras talvez melhor
se dever chamar dispendiosa reconstruco, do que simples e economica
restaurao.

Apesar do exposto, faremos rapido bosquejo historico cerca da S
Patriarchal de Lisboa; templo que, embora nunca fosse grandioso de
dimenses ou rico e cuidado de estylo, deve merecer attentos trabalhos
de reconstruco e de restaurao, visto que representa a primeira
egreja do paiz na ordem da hierarchia ecclesiastica e  a cathedral de
uma importante cidade da Europa.

Sobre o solo de Lisboa, atravez dos longos seculos da sua existencia
historica, tem-se succedido muitas invases de povos de differentes
raas e religies. Sem falarmos, pois, em celtas, phenicios e
carthaginezes, que mais ou menos se perdem na noute mythica dos tempos,
occuparam-n'a os romanos em primeiro logar, vencidos depois pelos
barbaros, alanos, suevos e visigodos, que a seu turno foram dominados
pelos arabes, sendo, emfim, estes ultimos expulsos de Lisboa por D.
Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal.  evidente que n'esta longa
serie de seculos, Lisboa atravessou vicissitudes e condies diversas.
Foi pag e polytheista com os romanos, christ ariana com os visigodos,
professou o Islamismo com os arabes e o Christianismo orthodoxo, quando
assumiu a posio de metropole do pequeno reino de Portugal.

Apesar d'estes estados diversos e duradouros, Lisboa nunca foi uma
cidade importante. Os romanos no eram navegadores e o seu commercio,
quasi exclusivamente terrestre e oriental, no podia valorisar o
excellente estuario do Tejo. Os barbaros constituiam naes rudes ainda,
essencialmente guerreiras, embora j penetradas pela civilisao romana
e pelos ideaes christos. Os arabes, finalmente, mais puros e
civilisados, haviam-se concentrado no sul da Hespanha, na Andaluzia e em
volta de Cordova, a capital do grande Khalifado do Occidente,
abandonando as regies mais occidentaes da peninsula iberica a raas e
tribus mais guerreiras e illetradas.

Assim se explica a pobreza quasi absoluta de monumentos arabes na zona
de Portugal, que foi habitada por esta raa, emquanto a Andaluzia est
cheia de ricas construces do Estylo do Khalifado, algumas ainda asss
completas, como a mesquita de Cordova, o Alcaar de Sevilha e o Alhambra
de Granada, sem falarmos de edificios de menor importancia e de trechos
e vestigios, que attestam o grau da elevada civilisao dos arabes, que
povoaram aquella parte da Hespanha.

A importancia da cidade de Lisboa nos periodos romano, visigodo e arabe
foi sempre secundaria. A sua transformao profunda em verdadeiro
emporio commercial proveiu de dois factos posteriores na Historia da
Humanidade: a irradiao, para outros pontos do globo, da civilisao
dos povos e das naes, dispostas ao longo das costas do Mediterraneo,
onde ella se conservou durante os tempos classicos; e a descoberta do
caminho maritimo da India e dos vastos continentes da America, que
annullou os emporios de Marselha, Genova e Veneza, deslocando os antigos
caminhos commerciaes. A grandeza um pouco ephemera de Lisboa
manifesta-se nos ultimos quarteis do seculo XV e nos dois primeiros do
seculo XVI.

No admira, pois, que a capital portuguesa fosse sempre to pobre de
monumentos primitivos; quando, alem d'isso, a sua precaria situao na
zona dos terremotos no tendesse a destruir os poucos, que o trabalho de
longos seculos penosamente accumulou na sua antiga rea.

Por muito secundaria que fosse, todavia, a importancia de Lisboa,
romanos, godos e arabes n'ella edificaram templos, de que hoje no
restam os menores vestigios, a no ser em vagas tradies, colhidas em
antigos escriptos. Assim, a antiga S de Lisboa teria sido edificada nas
proximidades, se no no proprio local, de um templo classico,
substituido depois por um templo godo, a seu turno transformado em
mesquita no tempo do dominio arabe. Esta tradio  mais do que
plausivel, se attendermos  tendencia das religies victoriosas em se
apossarem dos templos das religies vencidas, facto de que existem
numerosos e incontestaveis exemplos em differentes epocas e em diversas
naes. A este ponto interessante da Historia da Arte e das Religies
nos referimos n'outro capitulo d'este livro.

A tradio, que affiana haver sido a actual S uma antiga mesquita
arabe,  evidentemente absurda. No s o estylo do templo 
accentuadamente romanico; mas, se elle houvesse sido construido nos
curtos periodos, durante os quaes os christos occuparam Lisboa depois
da conquista dos arabes, estes, voltando a dominar na cidade, teriam
apropriado a egreja ao seu culto, caracterisando-a com construces e
ornamentos especiaes, de que no se encontram os menores vestigios.

Seria, porm, o actual edificio da S de Lisboa levantado no local de
uma mesquita arabe?

Esta tradio parece-nos muito fundada; no suppomos, todavia, que a
construco arabe podesse ser de grande importancia. As mesquitas de
Lisboa no deviam soffrer comparao com as de Toledo, Cordova, Granada
e Sevilha, centros da civilisao arabe. A Cathedral de Sevilha, por
exemplo, repousa sobre o local de uma grandiosa mesquita, da qual se
conservam ainda hoje, junto  mesma cathedral, o espaoso pateo, que
precedia as mais consideraveis mesquitas, e a magnifica torre, um primor
do Estylo do Khalifado, bem conhecida pelo nome de Giralda.

Seja qual fr o valor d'estas presumpes, a melhor opinio, fundada em
argumentos de ordem historica e architectonica, consiste, segundo
pensamos, em que o edificio actual se deve attribuir a D. Affonso
Henriques e foi levado a effeito logo depois da conquista de Lisboa aos
arabes, em outubro de 1147.

Devia ser rapida a construco. A simplicidade architectonica e a
pobreza de ornamentao, que manifesta a parte primitiva do edificio,
no exigiram, de certo, planos muito estudados e completos, nem a
propria construco foi muito cuidada quer na escolha, quer na
disposio dos materiaes. Foroso  confessal-o, embora deste um pouco
dos louvores hyperbolicos de alguns escriptores nacionaes: o edificio da
S de Lisboa  de acanhadas propores, de muito pobre estylo e de
construco bastante ordinaria.

Sendo muito provavel que as obras comeassem logo aps a conquista, no
 facil determinar a respectiva durao. O conego Vieira da Silva, em
memoria annotada por D. Francisco de S. Luiz, Cardeal Patriarcha em
meiados do seculo XIX, deduz, de varios documentos e de investigaes
proprias, que a primeira constituio do Cabido da S de Lisboa data do
anno de 1150.

Estaria o primitivo templo acabado n'esse anno, ou pelo menos
achar-se-ia j muito adeantado e proximo do seu fim?

No custa a acredital-o. Em tres annos no seria grande difficuldade
elevar edificio d'esta natureza; principalmente se tivermos em atteno
que a silharia n'elle empregada foi, sem duvida, explorada em pedreiras
muito proximas das respectivas obras.

Uma observao interessante devemos fazer n'esta altura: o primeiro
bispo de Lisboa, capital de Portugal, foi o inglez Gilberto. Ora, em
Inglaterra floresceu o Estylo Romanico, a que pertence a parte primitiva
da S Patriarchal.

Depois da sua fundao, o primitivo edificio soffreu muitas
reconstruces, restauraes e alargamentos, dos quaes alguns motivados
pelas necessidades do culto e outros provenientes da falta de
alojamentos internos para o numeroso pessoal, que exigem a guarda e os
servios religiosos de uma cathedral. As barbaridades artisticas e de
construco, que por estas razes se praticaram, seriam inacreditaveis,
se grande parte d'ellas no fossem directamente observadas pelo auctor
d'este livro e algumas no existissem ainda, attestando o mau gosto, a
ignorancia e o desprezo pelos monumentos e pelas tradies, que s vezes
caracterisa o espirito nacional desde os tempos mais remotos at aos
nossos dias.

Seguindo a planta da S no seu estado actual, isto , na data em que
escrevemos este livro,  fcil formar clara ida do plano primitivo da
velha egreja de D. Affonso Henriques e das principaes transformaes,
que ella soffreu durante sete seculos e meio; por isso, chamamos a
atteno do leitor para a respectiva planta, observando-lhe que os seus
differentes tons correspondem a periodos distinctos da construco.

A primitiva egreja foi de Estylo Romanico do melhor periodo--o
secundario--que em geral floresceu no occidente e no centro da Europa no
seculo XI. Quando se levantava a S de Lisboa, em meiados do seculo XII,
j o Estylo Romanico em geral attingira o periodo terciario, preparando
a transio para o Estylo Ogival. Este relativo atrazo no deve,
comtudo, causar surpreza; pde considerar-se quasi regra geral na
evoluo da arte portuguesa em relao  das restantes naes centraes
da Europa.

Apesar de coberta de horriveis estuques, que a mascaram ridiculamente de
Estylo Classico, e das reconstruces ogivaes posteriores, no
encontrmos durante o estudo minucioso, que temos feito d'esta
construco, um s elemento, que possa contrariar a sua classificao no
Estylo Romanico secundario.

A planta primitiva era elegante. A nave central, o transepto e
capella-mr formavam uma cruz latina. As naves lateraes avanavam,
envolvendo a capella mr, isto , formavam _deambulatorio_, ou
_charola_. No  muito frequente esta disposio no Estylo Romanico
secundario; mas, evidentemente, a disposio da planta exige-a como
condio indispensavel e de elegancia. Alem d'isso, se no  possivel
demonstrar directamente a existencia da charola romanica na S de
Lisboa, na egreja de Alcobaa, sua cova, a existencia prova-se pelas
fortes columnas e arcadas da capella-mr, que abriam, sem a menor
duvida, para uma primitiva charola romanica. No nos parece nada
provavel que a charola romanica da S tivesse capellas; como no as
tinha talvez tambem a primitiva de Alcobaa. N'uma e n'outra egreja,
estas capellas provem de restauraes ou reconstruces ogivaes.

[Figura: Planta da S DE LISBOA--Estado actual]

Occupando os espaos onde hoje esto as capellas do Santissimo e a de S.
Vicente, que abrem para os dois extremos do transepto, existiam
provavelmente a sacristia e o thesouro. A estes elementos se reduzia a
planta da S primitiva, porque o claustro e todos os edificios annexos
so de construco posterior. Escusado ser observar que a supposio da
existencia de cinco naves na antiga cathedral resulta do erro grosseiro
de tomar certos edificios annexos, de que falaremos mais tarde, por
naves extremas, hypothese que a simples inspeco da planta no
admittiria com a menor probabilidade, quando a existencia das primitivas
janelas e da porta, hoje restaurada, da fachada lateral-norte no fosse
indiscutivel prova de que a egreja nunca teve mais de tres naves.

A fachada primitiva era formada, como a actual, por duas torres
quadradas, massias e revestidas de fortes botareos. Entre estas torres
corria a parte da fachada, correspondente ao cro. A disposio das
linhas geraes no foi, pois, alterada pelas restauraes, que alis
estragaram o estylo; com effeito, as torres foram, sem duvida, coroadas
de agulhas e as horriveis janelas quadradas n'ellas abertas
substituiram, no se pde bem avaliar por que razes, as bellas janelas
geminadas romanicas, que ultimamente foram restauradas na torre-norte.
As agulhas ou corucheus primitivos, em nossa opinio, no tiveram a
detestavel frma, com que apparecem em gravuras e azulejos posteriores
ao seculo XV; naturalmente destruidas por algum terramoto--talvez o de
1384--foram restauradas sob a frma de elevadas torres quadradas, de
muito menor superficie do que a das torres inferiores e cobertas por
telhados vulgares de quatro aguas!

A parte central da fachada, comprehendida entre as duas torres, tambem
no podia ser em nada parecida com a existente. A rosacea devia existir,
bem como o grande arco, dando accesso ao portal da egreja; mas toda esta
parte actual  de construco posterior e do frio e decadente Estylo da
Renascena, no seu peor periodo.

Tem-se attribuido as janelas quadradas da fachada, a mesquinha rosacea e
o bruto e feio arco do vestibulo  grande restaurao, depois do
terramoto de 1755;  um erro. Uma gravura franceza do tempo, mostrando o
estado das ruinas da egreja depois do terramoto, prova que tudo isto
existia antes d'esta catastrophe. Assim, ns suppomos, com o maior
fundamento, que todos estes absurdos elementos, bem como o ridiculo
coroamento das torres so obras covas da sacristia, encostada  fachada
lateral-sul da primitiva egreja, datando tudo dos comeos do seculo
XVIII, talvez do reinado de D. Joo V.

[Figura: Ruinas da S de LISBOA--Terramoto de 1755]

Alem d'isso, as torres soffreram restauraes em differentes epocas; a
do norte no periodo ogival e depois na renascena manuelina; a do sul
foi quasi toda reconstruida depois do terremoto de 1755. N'uma e
n'outra, as grandes janelas primitivas foram transformadas em sineiras,
fim que primitivamente no tiveram, porque os sinos occupavam uma
elevada torre, construida sobre o cruzeiro, que desabou tambem pelo
terremoto de 1755.

Fundados n'estes raciocinios, elabormos o projeto de restaurao da
fachada, que melhor nos parece traduzir a physionomia especial do Estylo
Romanico da velha egreja. Embora essa fachada no seja grandiosa em
dimenses e rica em ornamentao, julgamos traduzir a severa solemnidade
do estylo e o aspecto de fora, que nunca perderam as grandes e massias
torres da S, apesar de torturadas por absurdas restauraes e coroadas
por platibandas ridiculas, repousando sobre cornijas classicas.

O interior da primitiva egreja deduz-se da respectiva planta,
esclarecendo-a com algumas observaes, colhidas em investigaes
directas e sondagens feitas no actual edificio.

A nave central, a capella mr e o transepto, offerecendo quasi a mesma
largura, eram cobertas por abobada de volta inteira, nascendo a egual
altura; nos quatro arcos do cruzeiro repousava uma grande torre quadrada
no exterior, que se elevava muito para cima d'estas abobadas. No
interior da egreja esta torre tomava a frma de um octogono regular,
firmando-se em pendentes as paredes, correspondendo aos angulos
biselados do quadrado exterior. Em cada uma das faces d'este octogono,
rasgava-se uma janela muito alta e estreita, que illuminava a cupula
coberta por abobada, gerada pela interseco de quatro semi-cylindros,
lanados entre as faces oppostas do prisma octogonal, isto , por uma
abobada de oito arestas.

Esta abobada da cupula formava o primeiro pavimento da torre, que para
cima offerecia no exterior duas ordens sobrepostas de sineiras, tres em
cada ordem e em cada face. Segundo a nossa opinio, esta torre no tinha
seno um andar, a que fazia pavimento a abobada da cupula. No nos
parece que a espessura dos muros, ainda existentes na base, permittisse
a sobreposio de tres abobadas, sendo possivel at que a cobertura da
torre fosse de madeira revestida de telhado.

Voltando ao interior da egreja, observaremos que esta disposio
particular da cupula octogonal devia ser de excellente effeito
architectonico. As naves lateraes tinham as abobadas muito menos
elevadas do que a da nave central; mas esta disposio no permittiu o
rasgamento de janelas, que directamente illuminassem esta nave, porque
por cima das segundas naves foram construidas galerias de egual largura,
cujas abobadas em pouco ficavam inferiores  da nave central, no
deixando espao para rasgamento de janelas do _clerestory_.

Nas paredes da nave central, por cima dos arcos que dividiam as naves, e
nas do transepto, corria ao longo da egreja, com excepo da capella
mr, um estreito triforio, em communicao directa com as galerias, que
acabamos de apontar.

[Figura: S PATRIARCHAL DE LISBOA--Restaurao da fachada principal]

Todas estas disposies foram depois mais ou menos alteradas; assim, por
exemplo, no triforio a restaurao no s modificou as dimenses como
empregou columnas com galba e capiteis classicos! As paredes cobertas
por estuques horriveis, fingindo marmore de varias cres, subsistem na
actual egreja.

Feixes de grossas columnas romanicas sustentavam os arcos de volta
inteira, que dividem as tres naves; mas toda esta parte do edificio est
_excellentemente_ mascarada com columnas corynthias, tendo capiteis de
madeira, fustes de gsso e bases de marmore verdadeiro combinado com
madeira, tudo, excepto os marmores, imitando tambem marmore! Assim, 
impossivel fazer hoje clara ida d'estes elementos, que o maior
idiotismo imaginavel de restauradores em cidade civilisada conseguiu
estragar, com grande perda de tempo e dispendio de dinheiro!

A primitiva capella-mr era mais pequena do que a actual de construco
mais moderna, como o indica o tom mais leve da planta; devia ser formada
de grandes arcos de volta inteira, repousando sobre fortes columnas
romanicas e abrindo na charola.

Apesar da tradio corrente e escripta, que affirma haver na S de
Lisboa grandes subterraneos, no deparmos ainda com elles nas sondagens
e investigaes realisadas. At podemos quasi concluir que, pelo menos,
nem existe uma crypta importante; reduzindo-se tudo a pequenas capellas
sepulcraes subterraneas, ou carneiros escavados muito depois da data da
construco do edificio[2].

A illuminao do primitivo templo foi asss perfeita. A nave central
recebia luz da rosacea da fachada principal; as segundas naves de
janelas e portas abertas nas fachadas lateraes, que vamos descrever; o
transepto das rosaceas, rasgadas nos seus dois extremos, no existindo,
 claro, as feias janelas rectangulares, que actualmente por baixo
d'estas rosaceas abrem para o triforio; finalmente, a capella-mr era
illuminada pelas grandes janelas da charola e directamente por outras
superiores ao terrao da mesma charola. Alem d'isso, a cupula central
com as suas oito janelas devia, tambem, contribuir para derramar
bastante claridade no interior do templo.

Foram todas estas aberturas fechadas por vitraes coloridos?

No nos parece. Na epoca da construco, os verdadeiros vitraes
coloridos eram muito raros, nem ella foi rica e cuidada. V-se que D.
Affonso Henriques tinha mais f religiosa do que dinheiro. No periodo do
maior emprego dos vitraes, nos seculos XIII, XIV e XV, no  muito
provavel que o gosto artistico nacional exigisse este complemento
esthetico. Haja vista os martyrios, que inflingiram ao pobre edificio
romanico!

As fachadas lateraes eram muito simples. A partir das torres, acima
descriptas, a muralha, tendo a altura das naves lateraes e das galerias
sobrepostas a estas naves, apresentava-se dividida por botareos pouco
salientes, em cujos intervallos se abriam seis janelas todas de volta
inteira; as mais baixas e proximas do solo eram grandes, alargando para
dentro; por cima d'estas existiam outras muito menores, rasgadas quasi
em estreita fresta.

Umas e outras illuminavam as segundas naves. Em terceira linha superior
seis janelas abriam para as galerias, sobrepostas s naves lateraes. No
terceiro vo entre os botareos, a contar da torre, pelo menos na
fachada-norte, a janela inferior era substituida por uma porta, que foi
nos primitivos tempos resguardada por um vasto alpendre, coberto por
telhado. Esta porta foi ultimamente restaurada.  muito provavel que na
fachada lateral-sul se dsse egual disposio; mas essa porta, se
existiu, foi inutilisada pela construco da nova sacristia. Nos lados
do transepto viam-se apenas as janelas superiores.

Em face da fachada principal, e terminando em frente das portas
lateraes, devia existir um adro, cujos tijolos podmos ainda ver em
escavaes praticadas junto do monumento.

Eis a descripo summaria da antiga S de D. Affonso Henriques. No era
de certo nem grande nem rica; mas, indiscutivelmente, o seu todo devia
manifestar os caracteres do Estylo Romanico, a fora e a severidade, sem
excluir certa elegancia, que ainda hoje se pde notar nos elementos
primitivos, embora suffocados e esmagados por estuques, construces
absurdas, umas j desapparecidas, outras que ser impossivel eliminar.

Oxal os restauradores de todos os tempos tivessem procurado conservar
ao edificio as feies primitivas, porque n'esse caso Lisboa teria um
monumento de Estylo Romanico secundario de certo valor. Assim, ns, as
geraes actuaes, temos obrigao de fazer desapparecer pelo menos as
vergonhosas excrescencias, restaurando a parte restauravel do edificio,
como adeante explicaremos.

Bem cedo comearam as construces annexas a prejudicar a esthetica do
primitivo templo. Vamos seguir as principaes por ordem de relativa
antiguidade.

Logo pouco depois da egreja ter sido terminada, foi _no rigor da
palavra_ encostada no angulo formado pela fachada lateral-norte e pelo
transepto a primeira d'estas construces, consistindo n'um recinto
coberto por abobada de volta inteira, que inutilisou duas janelas
inferiores da nave. Este recinto, cujo terrao ficava inferior s mais
elevadas janelas da fachada, abria para o exterior em toda a dimenso da
sua seco; no tendo mais janela ou abertura alguma. Todas estas
observaes podem ser ainda verificadas em elementos existentes.

Qual seria o fim d'este annexo?

Difficil ser descobril-o.  possivel que fosse um _narthex_, ou galil
lateral, aberto mais tarde, talvez um logar de refugio para peregrinos
ou viandantes. Sobre este ponto poder, apenas, fazer-se alguma luz,
quando a eliminao dos estuques, que revestem interiormente este
recinto e a parte correspondente da egreja, deixar ver se existem alguns
vestigios de antigas portas para o transepto ou para a nave
lateral-norte.

Depois d'esta epoca, sobre o recinto anteriormente descripto,
levantou-se uma grande sala abobadada, em que a ogiva se accentua ja bem
claramente. Esta sala, no tendo egualmente janelas na sua frente-norte,
era illuminada por uma grande janela ogival, em parte cega, rasgada na
parede, que repousa sobre o grande arco do supposto _narthex_. As duas
janelas mais elevadas do edificio principal, que ficaram inutilisadas
por esta construco, acham-se tapadas por tal frma que, segundo
pensamos, no pde existir a menor duvida em no haverem jmais dado
communicao da primitiva S para a referida sala; apenas se pde
admittir, embora a achassemos tambem murada, que esta communicao se
fazia por uma janela do transepto, transformada em porta para o
triforio. Estas disposies, tanto a do recinto inferior como a da sala
sobreposta, comprehender-se-o claramente, notando na planta a segunda
intensidade do tom escuro.

Assim, temos uma sala de importantes dimenses apenas ligada com o
interior da egreja pela acanhada galeria do triforio, que a seu turno 
servido por uma pessima e estreitissima escada de caracol, encastrada no
botareo do transepto! Qual foi o fim d'esta sala?

O problema, porm, complica-se ainda mais. Uma terceira construco,
tendo dois andares correspondentes aos dois pavimentos existentes, veiu
encostar-se s duas precedentes. Devemos observar que propositadamente
temos escripto a palavra _encostar_, porque na realidade os successivos
constructores nem se deram ao trabalho de travar reciprocamente os
edificios; encostando-os, apenas, uns aos outros, o que permitte que em
determinados casos seja possivel ver claridade atravez das separaes.

O pavimento inferior d'este novo annexo tinha de certo ligao com a
egreja, havendo sido transformada a janela da nave em porta, que ainda
actualmente existe; mas no pavimento superior as cousas passam-se por
frma differente. A janela ogival da sala anteriormente descripta foi
transformada em porta, que serve os dois compartimentos; porm, a janela
da S, inutilisada pela nova construco, essa, encontramo-la ns murada
como as duas outras precedentes; e quando a abrimos, por necessidades de
servio e aproveitamento de local, ficmos convencidos, pela perfeio
do espesso massio de silharia e de alvenaria, de que o tapamento era,
sem duvida, antiquissimo, se no contemporaneo d'esta inexplicavel
construco.

Assim, como ainda se pde ver, existem duas salas, illuminadas por duas
altas frestas, que apenas communicavam com o interior da egreja por duas
estreitas escadas de caracol: a primeira, j indicada, a do triforio, a
segunda encastrada n'uma especie de botareo, que faz parte da ultima
construco.

Que fins podia ter esta disposio mysteriosa dos dois importantes
recintos?

Debalde temos pensado no problema e investigado as pedras, a fim de ver
se nos revelam o segredo; em vo temos consultado os eruditos. Apenas,
alguem suggeriu a ida de que, tendo as antigas cathedraes o _direito de
asylo_, isto , de tornar inviolaveis os perseguidos pelas justias
ordinarias, talvez as salas, to bem defendidas e mysteriosas, se
podessem relacionar com esse direito de proteco. Ahi deixamos posto o
problema, que talvez investigaes e sondagens mais completas possam
mais tarde resolver.

Das tres construces, que acabamos de descrever e apreciar, a primeira
deve datar dos fins do seculo XII e a ultima dos fins do seculo XIII.
Eis tudo quanto nos parece ser licito affirmar cerca da edade d'estes
edificios, annexados  primitiva S.

Como se deprehende da planta, estas construces approximaram-se
successivamente da porta lateral-norte, que ainda nos fins do seculo
XIII abria directamente para a rua, ou terrado d'este lado da S. Que
esta porta, como dissemos, tinha alpendre coberto de telhado, provam-n'o
os vestigios, ainda existentes na fachada do ultimo dos mencionados
annexos.

No anno de 1324 falleceu em Lisboa Bartholomeu Joannes, rico mercador de
fidalga linhagem franceza, como parece demonstrarem-n'o os brazes e as
flores de liz do seu tumulo, deixando em testamento legado especial para
ser erecta na S de Lisboa uma capella, onde jazessem os seus restos
mortaes e os das pessoas, que por elle fossem indicadas. Esta disposio
testamentaria originou uma quarta construco, a de uma elegante capella
do Estylo Ogival francez, que foi encostada  fachada lateral-norte,
occupando o espao de duas janelas a partir da torre.

N'estas condies, a porta lateral ficaria encravada, entre as
construces primitivas e a da nova capella; por isso, substituindo o
antigo alpendre, o espao da porta foi coberto por uma abobada. Esta
especie de vestibulo abre sobre a rua por um grande arco ogival.

Taes so os edificios, que em successivos seculos foram encostados 
fachada lateral-norte da primitiva S, mascarando-a por completo.

 claro que em qualquer projecto de restaurao ninguem poder pensar
sequer em repr o edificio nas condies primitivas; muito embora todos
estejamos de accordo em que teria sido muito preferivel ter evitado
estes acrescentamentos, que lhe prejudicaram a unidade do estylo. Alm
d'isso, a capella de S. Bartholomeu, apesar da sua pequenez,  um
excellente exemplar do ogival secundario. Assim, no projecto de
restaurao d'esta fachada, attendemos a todos os edificios,
aproveitando-os o melhor possivel.

Ainda no seculo XIV, em 1344, um forte terremoto destruiu ou pelo menos
arruinou a primitiva capella-mr romanica. A reconstruco realisou-se,
alterando as dimenses d'esta parte da egreja e empregando o Estylo
Ogival. As capellas, que guarnecem a nova charola, e o claustro, que no
existiam anteriormente, datam da mesma reconstruco.

Depois, entre esta grande restaurao e a que resultou do terremoto de
1755, devem ter-se realisado muitas outras de secundaria importancia e
principalmente as obras, que estragaram o edificio. Assim, por exemplo,
as janelas quadradas das torres, substituindo as lindas janelas
geminadas primitivas, a rosacea, as sacadas e o arco do frontispicio,
bem como o edificio da sacristia e da sala capitular, que mascarou
grande parte da fachada lateral-sul, parece-nos datarem dos comeos do
seculo XVIII, pelas qualidades do estylo; sendo, portanto, anteriores ao
terremoto de 1755, como o prova a gravura das ruinas, a que j nos
referimos.

Devem pertencer tambem a este periodo as construces dos vergonhosos
pardieiros de todas as ordens, especies e fins, que mascaravam
completamente a fachada lateral-norte, subindo at elevada altura entre
os botareos da respectiva torre, e a inutilisao da bella porta lateral
e do respectivo vestibulo, substituidos por uma horrivel porta, rasgada
na capella de Bartholomeu Joannes.

O terremoto de 1 de novembro de 1755, finalmente, produziu profundas
ruinas na egreja e no claustro da S. Metade da torre do sul desabou,
bem como a torre sineira que veiu esmagar a abobada da nave central e a
da capella-mr. A memoria da parte principal d'estas ruinas foi
conservada n'uma gravura franceza do tempo, que nos pareceu interessante
reproduzir. Durante muitos annos estas ruinas permaneceram no meio da
cidade, at que em 1767 comearam as grandes obras de reconstruco.

Teria sido esta a occasio azada para a restaurao completa da S, no
na sua frma primitiva, que j no seria possivel renovar; ao menos,
porm, nos Estylos Romanico e Ogival que se ligaram intimamente em
varios pontos do edificio. As tendencias da epoca, que j comeavam a
condemnar estes bellos estylos como _barbaros_ e _gothicos_, a
insciencia dos restauradores, a pressa e talvez a carencia de dinheiro
deram os resultados, que ainda podemos ver.

A abobada da nave central foi simulada em madeira e estuque, abrindo
se-lhe medonhos oculos para melhor illuminar a egreja. Na capella-mr
procedeu-se por frma parecida. A egreja foi por toda a parte coberta de
espessas camadas de estuque pintado, mascarando os velhos elementos
romanicos e ogivaes com elementos classicos absurdos e desordenados.
Assim, se o edificio da S, olhado exteriormente, causava a impresso,
principalmente na fachada lateral-norte, de uma sobreposio de
casebres, visto no interior, produz a desagradavel surpreza de uma
miseria, que pretende ostentar riqueza, e de um cahos de frmas
disparatadas e deselegantes, que resultam da desharmonica combinao das
linhas principaes dos estylos christos mais perfeitos com elementos
classicos, exigindo linhas geraes differentes[3].

Depois de termos dado succinta ida, porque outra no comportam os
quadros d'este livro, do primitivo estylo da S Patriarchal de Lisboa e
das modificaes mais importantes, que este edificio soffreu atravez dos
sete seculos da sua existencia, em curtos periodos diremos as nossas
opinies cerca da respectiva restaurao, de que ultimamente fomos
incumbidos e tentamos executar com os melhores criterios estheticos.

Embora a S de Lisboa, nem pelas suas dimenses nem pela grandeza do
estylo, possa ser considerada importante monumento romanico, no estado
primitivo, como acabamos de observar, no deixava de manifestar algum
valor architectonico.

Restauraes successivas e barbaridades de construco em seculos
differentes reduziram-n'o ao estado lastimoso, em que se conservou por
longos annos e em parte se encontra ainda n'este momento. A
reconstruco e restaurao mais ou menos radical do antigo monumento ,
portanto, quasi um dever de patriotismo.

Pensar em lhe dar a feio primitiva, apurando o Estylo Romanico
secundario em que foi construido, seria uma verdadeira loucura; no
conjunto do edificio os elementos ogivaes so mais importantes do que os
romanicos e, em regra, acham-se em melhor estado de conservao.

A restaurao, a nosso ver, deve comear pelas fachadas. A principal
pde, sem duvida, assumir novamente a sua expresso romanica,
manifestando certa grandeza, se as suas torres forem convenientemente
coroadas de agulhas e substituida a parte central, entre as duas torres.
Esta obra  indispensavel e uma das primeiras que deve ser realisada.

[Figura: S PATRIARCHAL DE LISBOA--Restaurao da fachada lateral-norte]

A fachada lateral-norte ficar sempre uma juxtaposio de edificios; mas
a indiscutivel belleza da Capella de Bartholomeu Joannes desculpar at
certo ponto esta agglomerao de estylos. Pelo que respeita 
fachada-sul, no haver remedio seno conservar o annexo onde esto a
sacristia e a sala capitular, melhorando o seu frio e pobre Estylo da
Renascena.

O claustro e as respectivas capellas so obras de restaurao facil,
embora dispendiosa, attendendo ao estado de profunda ruina em que se
encontram. O claustro no tem, na realidade, grande valor
architectonico; mas para elle abre uma vasta sala de elevada abobada
artezonada, que primitivamente devia ser muito bella. Diz-se que n'esta
sala foi instituida a primeira Misericordia nacional. Mais tarde, talvez
em principios do seculo XVIII, foi transformada em capella no Estylo da
Renascena, onde abundavam os mosaicos florentinos no arco, nas paredes
da abside e no altar. Suppomos que esta capella foi primitivamente a
_sala capitular_.

Realisadas todas estas restauraes, a parte interior da egreja tem de
ser completamente reedificada, aproveitando-se apenas as fundaes dos
pilares das arcarias das naves e as paredes exteriores. No s as
abobadas da nave central e da capella-mr no existem, sendo simuladas
em madeira e estuques, mas, os proprios pilares, ou feixes de columnas,
e as arcadas sobrepostas esto fendidos por tal frma que no
supportariam o peso de verdadeiras abobadas. Alm d'isso, as abobadas
das naves lateraes so de tijolo e provavelmente substituiram as
primitivas de silharia.

 natural que a restaurao exterior do templo leve, mais cedo ou mais
tarde, a esta importante obra de reedificao interna da egreja, porque
outra no se deve tentar, por improficua e dispendiosissima.

Em todo o caso j seria um adeantado passo acabar a restaurao externa
da velha egreja de D. Affonso Henriques, que deve considerar-se um
verdadeiro monumento da epoca, recordando a constituio e a
independencia da Nao Portuguesa.




CAPITULO QUARTO

SYNTHESE SOCIAL DO SECULO XIII


Traar um quadro do seculo XIII, dando-lhe a verdadeira expresso
social, scientifica e esthetica,  materia difficil, principalmente nos
limites estreitos d'este livro; todavia, por nos parecer indispensavel,
conforme o methodo adoptado, tentaremos este trabalho em modestas
propores.

O seculo XIII foi incontestavelmente o mais brilhante da Edade-Media;
concentra e d unidade, por assim dizer, aos trabalhos do pensamento
humano, realisados nos anteriores seculos, prepara os thesouros de
sciencia e de philosophia, que produziram a renascena artistica e
litteraria do seculo XVI, a philosophica do seculo XVII e, emfim, os
grandes movimentos sociaes e politicos dos seculos seguintes.

A organisao das monarchias feudaes, como a tentmos descrever n'outros
capitulos, estava completa no comeo do seculo XIII; em verdade, at
comeava a resvalar para a dissoluo, que se operou no fim do seculo XV
e de que foram principaes agentes em Frana Luiz XI, em Inglaterra
Henrique VII, o fundador da dynastia dos Tudors.

As grandes guerras religiosas para libertao do solo sagrado de
Jerusalem, que alis nunca foi perfeitamente livre e christo, foram a
grande obra das monarchias feudaes, desde os fins do seculo XI aos do
seculo XIII. Este grande esforo do feudalismo accumulou as causas da
propria decadencia; como as organisaes vigorosas se enfraquecem pelo
excesso de trabalho.

Prgadas pelos proprios Papas ou animadas por elles, as Cruzadas tinham
levado ao oriente, durante dois seculos, milhes de homens das naes
occidentaes. A melhor cavallaria feudal, durante este longo periodo,
havia deixado no caminho de Jerusalem parte das riquezas, e as vidas nos
campos das batalhas ou dizimadas pela peste. Este enorme fluxo e refluxo
de homens ligara intimamente as relaes entre os dois extremos da
Europa, trazendo para o occidente novos elementos de uma civilisao
mais adeantada, novas idas e processos; activando, emfim, as reciprocas
transaces commerciaes, de que foram poderosos centros Genova, Marselha
e Veneza.

Os grandes senhores arruinavam-se, sustentando longinquo e dispendioso
estado de guerra, emquanto a burguezia se enriquecia no commercio
pacifico e as classes populares repousavam e trabalhavam, livres de
grande numero dos pequenos tyrannos. A exaltao do espirito religioso,
excitado pelas santas Cruzadas, approximara as naes e dentro d'ellas
as respectivas classes. N'esta atmosphera favoravel, a liberdade ganhava
vigor na vida local das communas, cujas revoltas eram mais faceis e mais
baratas as compras de direitos civicos a senhores, que careciam de
dinheiro para as enormes despezas da guerra e satisfao de um luxo
exagerado, que traziam sempre inveterado nos costumes, quantos tocavam
sequer de leve as civilisaes orientaes. Assim, no seculo XIII baixava
o sol do feudalismo e comeava a raiar a aurora d'essa energica vida
communal, que nas mos de suzeranos habeis devia servir mais tarde de
poderoso instrumento para reduzir os bares feudaes, livres e
turbulentos, a vassallos, subordinados e pacificos, e a pouco e pouco a
simples cortezos, servis e lisonjeiros, que apenas ostentavam nas
antecamaras reaes honorificos titulos de antigos apanagios e nomes de
gloriosos antecessores.

No seculo XIII a egreja adquirira indiscutivel preponderancia sobre o
orbe christo, a Europa. Pela religio e pelo respeito tradicional, o
Papado impozera-se aos grandes e aos pequenos; era o arbitro supremo
entre os principes, perseguia-os como revoltosos e criminosos sobre os
proprios thronos e, sendo preciso, separava-os do povo pela interdico
dos Estados, ou pela excommunho dos rebeldes.

Desde os fins do seculo XI, o poder temporal do Papa tornara-se um facto
consummado. O antigo bispo de Roma j usava em volta da tira a primeira
cora da soberania terrestre, que o punha ao lado dos reis christos,
cuja consciencia elle dominava pelo espirito da religio. Senhor quasi
absoluto, depois da _querela das investiduras_, d'essa machina immensa
que se chama hierarchia ecclesiastica, levando a aco poderosa at s
consciencias mais humildes e obscuras, no seculo XIII, o Papa era o
primeiro poder da Europa. Assim, o Papado fra o espirito das Cruzadas e
o feudalismo o seu brao armado, que na lucta gastou as foras e perdeu
quasi os bens, herdados em grande parte pela egreja, cujas enormes
riquezas no satisfizeram nunca as suas ambies colossaes.

A atmosphera de liberdade, embora fraca, que se formou no seculo XIII,
deixra florescer, emfim, a cultura das artes e da sciencia. Grandes
discusses philosophicas enchem o seculo. Promove-as a theologia. Os
profundos dialecticos e os sabios pertencem em regra s Ordens
Religiosas,  certo; mas nos sombrios claustros penetrra a luz de fra.
A Escholastica n'esse periodo tomou uma feio nova e caracteristica,
que trazia em si os germens da liberdade do pensamento. A philosophia da
Edade-Media offerece, com effeito, tres periodos differentes; no
primeiro, a theologia subordina a sciencia; no segundo, estes dois
principios caminham a par, depois dividem-se, seguindo rumos
divergentes.

No segundo periodo, durante o seculo XIII, os talentos mais elevados e
cultos travam renhidas luctas de palavras e de escriptos, nem sempre
incruentas; uns so pelo _realismo_ de Alberto, o grande doutor, e do
seu genial discipulo Thomaz de Aquino, outros pelo _nominalismo_ de Duns
Scott, o doutor subtil. O discipulo excedeu o mestre. Santo Thomaz de
Aquino foi o chefe da eschola, que definiu os principaes dogmas da
egreja e preparou a constituio definitiva do Catholicismo, no concilio
de Trento.

O _nominalismo_, fundado sobre as doutrinas de Aristoteles, desenvolvia
as bases da sciencia; o methodo da observao e da experiencia
recomeava o seu caminho, interrompido por longos seculos. No seculo
XIII viveu o franciscano Roger Bacon, que s por si define uma eschola e
illustra um seculo. Philosopho, astrologo e alchimista, cujo saber
immenso nas azas do genio chega a sar fra dos limites do seu tempo,
Bacon descobre, ou pelo menos prev factos e verdades, que ho de
manifestar-se nos seculos seguintes.

Arnaldo de Villanova, outro profundo sabio do seculo, medico e
alchimista, discute a metaphysica escholastica e combate-a  luz dos
principios da sciencia ainda vacillante e incerta, mas procurando j
firmar-se nas bases do positivismo moderno. A sua vigorosa critica no
se atemorisa ante os perigos de atacar os erros da eschola philosophica
triumphante nas doutrinas de um dos maiores sabios e casuistas do tempo.
Que importa, escreve o grande luctador, que Alberto, o grande doutor,
affirme que as folhas de salva lanadas n'uma fonte fazem sobrevir a
tempestade? _Lancemos folhas de salva n'uma fonte e vejamos se a
tempestade sobrevem_.

A revolta do livre pensamento attinge o dogmatismo da Escholastica
orthodoxa, a essencia do methodo experimental est claramente definida
n'esta ironica e simples phrase. Arnaldo de Villanova  um precursor,
como Roger Bacon e os escholasticos revolucionarios nominalistas, d'esse
methodo, que ha de produzir a sciencia moderna e por meio d'ella o
espantoso progresso do seculo XIX.

N'estes primeiros movimentos revolucionarios do _nominalismo_ sentem-se
j energicas aspiraes da liberdade do pensamento. As suas doutrinas
so a semente, que, ao calor do estudo, das luctas, e pela aco do
tempo, ha de produzir, por ininterrupta evoluo, a reforma religiosa do
seculo XVI e a philosophia do seculo seguinte. Os adeptos do
_nominalismo_ so perseguidos e as doutrinas consideradas heterodoxas;
mas, como correspondem a necessidades organicas do espirito humano, se
os martyres ficam desconhecidos, as suas idas preparam o futuro. Os
primeiros luctadores contra o poder de Roma, Arnaldo de Brescia,
discipulo de Abelard o _nominalista_, em Italia, Pedro de Vaux em
Frana, Lollard e Wiclef em Inglaterra, so os precursores de Joo Huss
e depois de Luthero, Melancton, Calvino, Zwinglio e Knox, os fundadores
victoriosos da _reforma religiosa_ do seculo XVI.

No seculo XIII, a esthetica experimenta, tambem, uma aco profunda. Um
dos maiores genios, de entre os que tem engrandecido a Humanidade, o
florentino Dante Allighieri, cujas feies energicas e tragicas nos
conservou o pincel de Giotto, aperfeioa, se no cria litterariamente a
primeira e mais bella das linguas latinas, a italiana, em que teve como
discipulos e commentadores Petrarcha e Boccacio. Genio colossal,
fortalecido por sciencia profunda e inspirado por grandes sentimentos,
attingindo a febre da paixo, Dante revoluciona a poesia e quebra os
velhos moldes dos poetas da decadencia.

A sua prodigiosa lyra, tendo todas as cordas desde a sublime epopeia at
ao delicado lyrismo, produz o mais gigantesco poema, creado pela
intelligencia humana, a Divina Comedia, onde o poeta se revela sabio,
theologo, historiador do seu tempo, s vezes apaixonado e injusto, se
quizerem, mas sempre supremo artista. Dante, talvez a figura principal
do seculo XIII, a quem os seculos seguintes no fizeram perder ainda na
poesia a posio culminante,  a mais pura e clara expresso d'esse
espirito classico, sempre vivo no solo da grande Italia. A liberdade do
pensamento, como nova e rica seiva, inflora no poeta esse vivido
espirito, impellindo-o para fra da esphera humana e levando-o a
procurar no Inferno, no Purgatorio e no Paraiso, symbolos da metaphysica
theologica, um campo infinito, onde podiam exercer-se intelligencia e
phantasia to excepcionaes.

As outras bellas-artes, excepto a musica para a qual no chegra ainda o
momento historico, bem mais tarde manifestado, principalmente em fins do
seculo XVIII e no seculo XIX, offerecem um caracteristico movimento
correspondente.

At ao seculo XIII, a influencia do espirito byzantino mantivera-se
preponderante, sobretudo na pintura e na esculptura, alis ainda
subordinadas  architectura, de que constituiam artes auxiliares e
complementares. Ora, as artes do oriente, como vimos, haviam ficado
estacionarias, crystallisando em frmas hieraticas e convencionaes. A
inspirao e a liberdade dos pintores e dos esculptores foram
esterilisadas por esse immovel e hybrido espirito oriental. Os artistas
copiavam-se successiva e reciprocamente, procurando amoldar a
espontaneidade do proprio talento a antigas e consagradas formulas, a
que as tradies religiosas contribuiam para dar quasi fora de dogmas.

Foi ainda a Italia, que deu os primeiros gritos, sacudindo essa
lethargia; foi ainda o espirito classico, reanimado pela liberdade do
pensamento, que despedaou a rede dos formalismos tradicionaes e da
ignorancia technica, que envolvia e suffocava a inspirao dos pintores
e esculptores.

Esta reaco inicia-a Cimabu, libertando-se dos liames das escolas
byzantinas. Giotto, seu discipulo, pintor, esculptor e architecto,
segundo o uso e as necessidades do tempo, opra a revoluo. A correco
do desenho e o rigor do colorido, a expresso e a vida, isto , a
verdade na arte que s nasce do estudo da natureza, so o resultado
d'essa outra victoria do espirito humano. Os dois primeiros mestres
italianos do seculo XIII ficam sendo na historia os precursores da
grande arte da renascena, poderoso movimento que tambem a Italia quasi
exclusivamente realisar nos fins do seculo XV e durante o seculo XVI,
no grande periodo em que floresceram homens como Leonardo de Vinci,
Raphael Sanzio e Miguel Angelo Buonaroti.

A architectura e as artes secundarias annexas saem dos conventos, vindo
expor novos productos e novas creaes  luz da liberdade nascente. J
no so as grandes communidades religiosas, que monopolisam as
construces, crystallisando-as um pouco e enviando de convento para
convento os architectos mais famosos e os planos mais completos. A
esthetica, como a sciencia, manifesta energica expanso. A arte
revoluciona-se e liberta-se.

Nas communas constituem-se grandes corporaes de artes e officios. As
associaes de architectos e de operarios de todas as ordens, que nos
seculos precedentes trabalhavam sob a direco monastica, esse resto dos
gremios romanos, ou formados  sua imagem, emancipam-se, libertam-se do
jugo ecclesiastico nas produces artisticas, tomando definitivo
caracter civil, embora subordinadas e protegidas pelo espirito
religioso, que imperou sempre durante toda a Edade-Media.

So, com effeito, as corporaes _franco-maonicas_ que vo construir
muitos, se no todos os edificios ogivaes mais grandiosos e celebres.
Houve-as em Inglaterra, tendo um dos centros principaes em York. Foram
incontestavelmente os _free-stones-masons_, que elevaram um dos grandes
monumentos ogivaes inglezes, a cathedral de York. Teve-as a Allemanha,
com o principal centro em Strasburgo, onde Erwing Steinbach construiu a
grande e formosa cathedral, um dos primeiros monumentos do Estylo
Ogival, que serviu de exemplo a tantos outros e cuja fama deu 
loja-mestra a supremacia sobre quasi todos os centros principaes
allemes e ao seu presidente o gro-mestrado supremo. Existiram em
Frana, onde predominou a loja-mestra de Paris, construindo as grandes
cathedraes de Amiens, Reims e outras, Notre-Dame e a Saint-Chapelle em
Paris. Encontravam-se, emfim, na propria Italia, onde alis o Estylo
Ogival experimentou energicas reaces classicas, principalmente ao sul.
Foram os _magistri comacini_, que, sem a menor duvida, construiram o
colosso ogival, a cathedral de Milo.

Como estas associaes tiveram grande influencia sobre a formao e a
disperso do Estylo Ogival, parece-nos conveniente entrar em alguns
pormenores cerca da sua organisao no seculo XIII, visto que das
respectivas origens provaveis e evoluo constituinte j falmos em
precedentes capitulos.

No pde existir, a nosso ver, a menor duvida em que estas corporaes
_franco-maonicas_, que se estendiam pela Frana, Allemanha e
Inglaterra, chegando pelo menos ao norte da Italia, tinham entre si
intimas relaes, offerecendo um caracter internacional bem definido.
Esta affirmao resulta no s da propria natureza das associaes de
mutuo auxilio e de defeza dos interesses dos respectivos associados; mas
, ainda, demonstrada pela essencia e tradio das associaes
_franco-maonicas politicas_, em que as primeiras se transformaram,
durante os seculos XVI e XVII.

A grande unidade do Estylo Ogival e a sua rapida disperso nas zonas,
alis extensas, em que floresceu, devem ser attribuidas em grande parte
s relaes muito apertadas entre as corporaes maonicas do mesmo paiz
e asss intimas entre as de naes differentes. Em 1459, por exemplo, a
assembla capitular de muitas lojas allems, reunida em Strasburgo,
reconheceu como gro-mestre o presidente da loja-mestra d'esta cidade.
Mais do que provavel nos parece que em Frana e em Inglaterra se
procedesse por identica frma;  a consequencia logica dos fins d'estas
associaes de trabalho e de soccorro mutuo.

Alem d'isso, as deslocaes dos associados de uns para outros paizes, em
procura de trabalho ou por outras quaesquer causas, s por si
constituiriam, n'esse tempo de construces muito activas, constantes
relaes internacionaes, quando no existissem outras officiaes e
regulares, como  asss provavel. O operario associado em viagem
encontrava, naturalmente, a proteco e o apoio das associaes do mesmo
genero, formadas em outros paizes. Este facto dava-se com as associaes
romanas e corresponde  tendencia internacional das poderosas
associaes operarias. Assim, na Edade-Media o trabalho teve uma
organisao muita extensa e protectora, que a moderna Internacional
tentou debalde realisar no ultimo quartel do seculo XIX.

A constituio interna d'estas sociedades _franco-maonicas_ , como a
sua historia, asss obscura. Visto que fixavam os proprios salarios dos
differentes trabalhadores, parece-nos logico que estas associaes se
ligassem por simples contractos pessoaes, ou porventura em muitos casos
por contractos de empreitadas parciaes ou geraes, como se pratica nos
modernos tempos. Evidentemente, estas presumpes fundam-se apenas na
logica e no principio de que em todas as epocas a eguaes necessidades
corresponderam, sempre, instituies e processos analogos ou
equivalentes.

Deve notar-se que estas associaes foram muito protegidas durante a
Edade-Media. Altas personagens civis e ecclesiasticas faziam d'ellas
parte como _socios honorarios_, no periodo da sua maior grandeza. Foi
at a existencia numerosa d'estes elementos estranhos ao trabalho, que,
depois da decadencia e transformao do Estylo Ogival, facilitou a
converso das associaes primitivas em corporaes politicas,
conservando os symbolismos dos officios, os provaveis signaes de
reconhecimento, as praticas secretas e o espirito internacional,
protector e caridoso, da maonaria moderna, que foi nos ultimos seculos
um instrumento poderoso de movimentos sociaes.

 natural que as lojas-mestras dirigissem as obras de varios edificios,
elevados na sua respectiva esphera de aco; sabe-se, como a partir dos
meiados do seculo XIII, as construces ogivaes tomaram grande
incremento. Sendo assim, a elaborao dos planos seria a tarefa dos
maiores e mais habeis architectos e, por logica diviso do trabalho, as
particularidades caberiam ao pessoal technico, que por ordem hierarchica
se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo merito. Esta
hypothese  corroborada pelo espirito disciplinado e methodico, que
constitue a melhor garantia de produces completas e perfeitas em obras
collossaes.

Esta diviso do trabalho devia chegar ao ultimo extremo. Assim, sabe-se
que as construces eram dirigidas por um mestre ou architecto,
escolhido provavelmente em harmonia com a grandeza da obra, sob cujas
ordens turmas de dez homens trabalhavam, dirigidos a seu turno por um
mestre pedreiro. Esta organisao explica a grandeza da concepo dos
planos, a analogia, quasi similhana, que manifestam muitos dos seus
elementos e, emfim, a extrema diversidade da ornamentao no mesmo
edificio. Pde notar-se, por exemplo, que as altas agulhas de Zurich,
Vienna, Colonia e Landshut offerecem reminiscencias muito accentuadas
das de Strasburgo.

A extrema variedade de ornamentao, a diversidade dos capiteis, no
mesmo edificio numerosissimos e poucas vezes repetidos, esses
symbolismos grotescos uns, pornographicos outros, espalhados nos
capiteis e constituindo algumas gargulas, no podem ser explicados seno
pela extrema liberdade de aco dos esculptores e lavrantes de pedra,
mais numerosos e inferiores. Este uso caracteristico, j mencionado no
Estylo Romanico, conservou-se depois ainda nos paizes, como o nosso,
onde a _franco-maonaria_ teve, quando muito, residencia accidental.

Isto exposto, o perfil do seculo XIII pde desenhar-se em poucas
palavras. O pensamento humano, activo e energico, procura conquistar a
liberdade na esphera moral e politica. O feudalismo perde lentamente as
foras e empobrece. Pelo contrario, a burguezia progride, accumula
riquezas pelo commercio e pela industria, e trabalha. As communas
multiplicam-se e florescem. N'este estado social, um poder predomina, o
Papado e a hierarchia ecclesiastica, pela intelligencia e illustrao,
pelo prestigio da religio sobre as consciencias e pelo poderio de
riquezas immensas. As futuras reaces da _reforma_ esto ainda
embryonarias e latentes. A sciencia busca despir as faixas da theologia
e da metaphysica, approximando-se lentamente do methodo experimental,
que ha de ser o poderoso instrumento da rapida e prodigiosa evoluo
social e scientifica dos seculos XVIII e XIX. Tambem a arte, conforme a
propria essencia, _observa_ e _experimenta_, retemperando-se no estudo
da Natureza.

Em summa, a liberdade hesitante bruxoleia ainda; mas os tenues raios de
luz so sufficientes para dissipar as sombras medievaes, deixando ver o
caminho do futuro e os direitos da Humanidade. Eis como comprehendemos a
synthese do brilhante seculo XIII.




CAPITULO QUINTO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO OGIVAL


A formao do Estylo Ogival resulta logicamente do _meio_ social do
seculo XIII. A phase da evoluo da arte corresponde-lhe com rigor.  o
espirito do seculo que toma frma nas pedras dos monumentos, descobrindo
novas combinaes de antigos elementos, empregando-os com mais arrojo e
inspirao esthetica, mais sciencia e experiencia de construco. Assim,
na realidade o Estylo Ogival  a florao esplendida do romanico, aberta
 luz e ao calor do sol nascente da liberdade do pensamento.

Onde se manifestou primeiro o Estylo Ogival?  impossivel fixal-o. Os
seus productos, mais ou menos originaes, elevam-se por toda a parte,
onde o _meio_ foi identico; como certas plantas nascem em slos
afastados, quando so de natureza similhante.  certo, todavia, que se
desenvolve e progride com maior rapidez, principalmente entre as naes
onde teve mais tarde maior preponderancia a _reforma religiosa_,
vencedora na Allemanha e em Inglaterra, em Frana vencida aps longas e
tenazes luctas: mas deixando sempre um permanente fermento religioso. Na
Hespanha, em Portugal e na Italia, onde a Inquisio e a Companhia de
Jesus esmagaram a _reforma_ logo  nascena, o caminho do novo estylo
manifesta-se, pelo contrario, mais penoso e lento.

N'aquelles paizes, que ho de ser o foco das futuras luctas da religio,
entre o dogma e a disciplina de um lado e do outro a liberdade do
pensamento e da interpretrao da Biblia, a disperso do ogival foi
rapida e fecunda. Os reis, os pequenos senhores feudaes seculares e
ecclesiasticos, as communas e as ordens religiosas, numerosas e ricas
depois das Cruzadas, rivalisavam em construces grandiosas,
espalhavam-n'as por toda a parte com piedade religiosa, onde havia
tambem muita emulao humana. Assim, por exemplo, resolvendo a
construco da grande Cathedral de Sevilha, o respectivo Cabido
escrevia: construamos obra to grandiosa e magnifica que os vindouros
possam dizer que estavamos loucos.

As associaes _franco-maonicas_, fornecendo um exercito de
constructores desde os architectos at aos mais simples operarios,
facilitavam este grande movimento, imprimindo-lhe a rapidez e a unidade
de feies, que anteriormente notmos.

Recordando n'este ponto o que escrevemos cerca da abobada e das
consequencias logicas do respectivo emprego, bem como as doutrinas
expostas no mesmo sentido sobre o arco ogival, procuremos agora definir
os caracteres do Estylo Ogival, que alis se ligam intimamente com os do
romanico terciario. O arco em ogiva, diminuindo muito os impulsos
horisontaes sobre os supportes, permittia dar-lhes menos espessura,
fossem pilares ou paredes. A elevao dos edificios, dando-lhes
incontestavelmente elegancia e nobreza, foi a consequencia necessaria do
emprego d'este arco. Os architectos ogivaes aperfeioaram o systema,
empregando as _abobadas artezonadas_, ou de nervuras, d'onde decorreram
modificaes importantes na arte da construco dos edificios.  este,
sem duvida, o caracter mais importante do Estylo Ogival.

Figuremos por um instante que da abobada da nave central da Egreja da
Batalha, bem conhecida de todos, tiravamos a silharia encastrada entre
os artezes, como o parenchyma das folhas vegetaes enche os meandros das
nervuras salientes. Da folha ficaria uma fina renda de estreitas malhas,
da abobada um grande arcabouo de arcos ogivaes parallelos sobre pilares
correspondentes, formando successivos tramos quadrados eguaes. Outros
arcos em ogiva, perpendiculares entre si e cortando-se nos fechos,
ligariam de angulo para angulo os quatro pilares do tramo. Emfim, uma
nervura recta ao longo do eixo da nave pareceria dar rigidez e
estabilidade ao systema, encadeando os vertices dos arcos parallelos e
perpendiculares.

Se a figura foi exposta com alguma clareza, comprehender-se- com
pequeno esforo de intelligencia o systema das abobadas ogivaes. Tudo
consiste, em summa, no artificio de descarregar, o mais possivel, as
presses verticaes e os impulsos horisontaes da abobada sobre os
pilares. Em theoria tambem a silharia entre os pilares poderia
desapparecer, deixando um pavilho aberto, uma especie de esqueleto
formado pelos pilares, reforados por arcobotantes, e pelos arcos,
constituindo as nervuras ou arteses das abobadas.

As concluses logicas d'este systema de construco so de extrema
evidencia. As presses verticaes e os impulsos horisontaes dos arcos
determinam certa espessura aos pilares. As primeiras no podram ser
supprimidas; mas os impulsos horisontaes foram diminuidos pela frma
ogival da curva e podem ainda, ser, contrariados pelo lado de fra por
botareos salientes, e pela ligao d'estes botareos a outros exteriores
por meio de arcobotantes. Assim por este modo, um edificio ogival pode
ser _theoricamente_ reduzido a um esqueleto de pedra, como as casas de
Lisboa representam um esqueleto de madeira, antes de preenchidos os
intervallos com a alvenaria das paredes e de fechada a cobertura dos
tectos.

 evidente que este systema da construco ogival permitte o facil
rasgamento de grandes vos abertos, portas, janelas e rosaceas, entre os
intervallos dos botareos e dos arcobotantes; por isso, ao contrario do
romanico, o Estylo Ogival abunda n'estes elementos, multiplicando as
janelas e as rosaceas para illuminar as grandes naves e os transeptos,
que attingem alturas muito elevadas em relao  respectiva largura, s
vezes, alturas relativas enormes, como succede na Egreja da Batalha.
Pretender dar mais clareza a uma exposio d'esta ordem, sem desenhos ou
modelos, seria car em diffuso de palavras, que mais complicaria ainda
o assumpto. , pois, contraproducente tental-o. A imaginao do leitor,
impellida por estes traos, preencher as lacunas.

Expostas estas generalidades, inutil ser entrar em divagaes sobre o
emprego da ogiva, o que alis j fizemos succintamente no segundo
periodo do Estylo Romanico. A ogiva foi conhecida e empregada muito
antes do estylo a que deu o nome,  facto incontestavel. No conhecido
nem empregado era o systema das abobadas, tal como o havemos descripto.
Eis qual foi a verdadeira creao dos architectos ogivaes.

Em verdade, este systema ainda pde considerar-se a concluso logica e
scientifica do emprego da ogiva e das suas respectivas qualidades
estheticas e mechanicas. O arco de volta inteira podia, com effeito, ter
sido applicado ao systema com alguns resultados, smente implicando
grande sacrificio da elegancia e da majestade do edificio. Parece-nos,
pois, um verdadeiro circulo vicioso investigar, se o arco em ogiva deu
origem ao novo systema de abobadas, se este systema exigiu a frma
quebrada do arco. Emquanto a ns, se houvesse vantagem em fixar opinio
sobre este ponto, admittiriamos, como mais natural e logica, a primeira
hypothese.

O Estylo Ogival manifesta uma durao de tres seculos. Vimol-o nascer
com o feudalismo na decadencia, durar durante a agonia d'esta
instituio e desapparecer com ella, transformando-se em novo estylo.
Est definitivamente formado a partir dos meiados do seculo XIII,
constituindo o primeiro periodo. As construces d'este periodo so
harmonicas e regulares, mas a sua feio  ainda um pouco fria e severa.

No seculo XIV adquire feies mais elegantes e distinctas. N'este
segundo periodo, que os architectos denominaram _radiante_, devido a
disposies caracteristicas de certos elementos de construco e
ornamentao, os edificios so mais puros e alegres, mais elevados e
finos, emfim mais ideaes, d'esse espirito que principiou a manifestar-se
no seculo anterior.

No seculo XV e nos comeos do XVI o Estylo Ogival attinge elevado grau
de elegancia, s vezes exagerada. N'este terceiro periodo, os elementos
verticaes tendem a tomar grandes propores, a ornamentao manifesta-se
riquissima e caprichosa, os coroamentos enchem-se de agulhas e de
pinaculos, uma floresta de corocheos elevados e ponteagudos d aos
edificios phantastico aspecto, causando a impresso caracteristica de
chammas, principalmente quando illuminados pelos raios do sol poente.
D'esta impresso proveiu, de certo, o ser conhecido este periodo pela
designao de Estylo Ogival _flammejante_, ou _florido_.

Taes so os periodos, que offerece a evoluo do novo estylo; devendo,
porm, notar-se n'este ponto o que dissemos cerca da classificao um
pouco empirica por seculos. A passagem dos estylos faz-se sempre
evolutivamente, sendo impossivel marcar-lhes limites rigorosos e bem
definidos.

No interior as egrejas ogivaes manifestam excepcional grandeza e
elegancia, provindo da elevao dos pilares polystilos e da profundidade
das abobadas, ricamente artezonadas, com fechos ornados de bocetes.
Numerosas janelas e rosaceas, tendo vitraes polychromicos, inundam o
templo de luz doce e poetica. O mysticismo sombrio e severo das egrejas
romanicas, a profunda melancholia que produzem no espirito,
transforma-se nas ogivaes em alegre e suave sentimento religioso.

A egreja romanica traduz a profunda tristeza e o desalento da
Edade-Media, principalmente nos primeiros seculos; a sua expresso 
lugubre, quasi sinistra, como a do espirito monastico que lhe deu
origem. Ha n'ella a impresso desoladora de uma vida rude e cruel,
d'onde a alma procura fugir para o socego eterno. A egreja ogival produz
sensaes differentes. Respira-se ali a vida livre e activa, supremo bem
sobre a terra, seguida depois pela felicidade eterna, cuja esperana
irisada illumina o espirito, como os raios do sol, atravessando as
grandes vidraas coloridas, inudam de luz suave e avelludada as naves do
templo.

Nas disposies internas a egreja ogival soffreu algumas modificaes
importantes. A cruz latina j havia sido por vezes abandonada ou
alterada no Estylo Romanico, muito embora, tanto n'este estylo como no
ogival, deva ser considerada frma fundamental e preferida. Pelas
necessidades do culto, sempre crescente em riqueza, os coros ogivaes
tomaram propores maiores em relao s naves. A _charola_, quando
existe,  ornada de capellas, a correspondente ao eixo central da egreja
mais elevada e comprida, dedicada ao culto da Virgem. As capellas ao
longo das naves lateraes no se encontram ainda no primeiro periodo
ogival; mas apparecem no fim do segundo, no seculo XIV. Em algumas
egrejas observa-se a inclinao do eixo do cro em relao ao da nave
principal, desvio que citmos e aprecimos no Estylo Romanico de
transio.

A planta circular e a polygonal manifestam-se, tambem, como no estylo
precedente. Em certas egrejas as absides so prismaticas ou
desappareccm, sendo substituidas por paredes planas em que se abrem
grandes janelas.  evidente ser impossivel abranger em curta synthese as
disposies, variaveis em muitos elementos, das plantas das egrejas
ogivaes, que se contam por centenas, se no por milhares em todo o orbe
christo. Uma ida geral, embora, pouco caracteristica,  o mais a que
se pde chegar n'este momento; todavia, no devemos deixar de
especificar a elegante planta da egreja da Batalha, que descreveremos
n'outra parte d'este livro.

Uma disposio particular muito constante das egrejas ogivaes parece-nos
ser a maior elevao da nave central sobre as colateraes. Nas paredes
d'esta nave, exteriormente fortalecidas por arcobotantes, abrem-se as
grandes janelas do _clerestory_. s vezes, desapparecendo o _triforio_,
estas janelas assumem enormes propores, prestando-se ento
admiravelmente aos magnificos quadros dos vitraes polychromicos. Esta
disposio, que d extrema belleza s naves centraes,  a da Egreja da
Batalha.

N'algumas egrejas, os ambons primitivos--as tribunas onde era lido o
Evangelho--foram substituidos por galerias elevadas, lanadas entre a
nave central e o cro, com accesso pelos dois lados. Estas galerias,
profusa e ricamente ornamentadas, repousam sobre grandes arcos, por
baixo dos quaes fica livre e desembaraada a ligao do corpo da egreja
com o cro. D'esta construco, alis pouco vulgar e no existente entre
ns, ha exemplos elegantissimos e muito ricos.

Pelo que respeita s fachadas, a diversidade  maravilhosa; todavia, de
um grande numero de edificios pde deduzir-se um schema de certa
importancia e clareza. Tomaremos, para exemplo, um monumento bem
conhecido, a Cathedral de Notre Dame de Paris. A fachada  dividida em
trez partes verticaes--em geral ha tantas partes definidas, quantas so
as naves interiores da egreja--a do centro comprehende a porta
principal, sobrepujada pela rosacea; as lateraes, correspondendo s
torres, conteem as portas secundarias e por cima as respectivas janelas
ou rosaceas, que illuminam as naves correspondentes. A fachada offerece,
tambem, tres divises horisontaes bem distinctas, a primeira envolve as
tres portas, a segunda a rosacea e as janelas ou rosaceas lateraes, a
terceira comea na nascena das torres.

Nas fachadas sem torres, como as das Cathedraes de Milo e de Sevilha,
de cinco grandes naves, e na da Egreja da Batalha de tres, as divises
verticaes so muito evidentes, accusando, sempre por frma bem marcada,
o numero e a disposio decrescente das naves interiores.

Este schema parece-nos apenas interessante; porque seria impossivel
abranger a variedade infinita das fachadas ogivaes em curtas regras e
poucos principios. Diremos mais:  quasi impossivel descrever a mais
modesta s com simples palavras oraes ou escriptas.

As torres ogivaes so caracteristicas, de extrema elegancia,
principalmente quando coroadas de elevadas, finas e rendilhadas agulhas.
Offerecem a impresso de fora e grandeza, sem duvida; mas a profusa
ornamentao e as grandes janelas, onde reina a ogiva, do-lhes um
aspecto especial de leveza e elegancia, que no possuem as romanicas.
Algumas vezes as torres da fachada apresentam-se deseguaes; accusando,
assim, a secundaria importancia da egreja na hierarchia ecclesiastica.

Estes e outros caracteres dos templos ogivaes manifestam-se to
salientes, impressionam to profundamente a intelligencia e a memoria,
que os menos entendidos e versados na architectura podem distinguil-os,
classificando com relativa facilidade edificios bem definidos.

A ornamentao ogival  em extremo complexa; mas to harmonica e bem
combinada, que produz a sensao de grande simplicidade. Para bem a
apreciar seria indispensavel estudar elemento a elemento as differentes
partes de um edificio, o que no podemos fazer.

Na ornamentao mural do seculo XIII predomina o reino vegetal; na
Cathedral de Reims, por exemplo, contaram-se mais de trinta especies
vegetaes differentes, espalhadas pelos varios pontos do edificio. Os
ornamentos mais usados so os trifolios, os quadrifolios, as violetas,
as crossas ou arpes, orlando os angulos das pyramides e as linhas dos
frontes e das cornijas, os pinaculos, rematando as cabeas dos
botareos, os nichos com doceis mais ou menos pyramidaes e rendilhados,
zig-zags, cabeas de pregos e algumas outras molduras romanicas. A
antiga ornamentao byzantina, que floresceu ainda no Estylo Romanico,
tende a desapparecer. O trabalho  fino e perfeito; procura-se imitar a
natureza, sem a copiar, com extrema liberdade de concepo e firmeza de
execuo.

No seculo XIV esta ornamentao subsiste. Os doceis dos nichos tomam
frmas mais elevadas e pyramidaes. Os triforios obscuros tornam-se
transparentes, illuminados por janelas. As arcaturas teem n'este periodo
uso mais geral.

No seculo XV, domina nas molduras a seco prismatica. Os doceis dos
nichos accentuam-se em elevao e em caprichosos e ricos ornamentos. Os
caixilhos, ou almofadas, constituem decoraes muito vulgares, que
mascaram a nudez das paredes. A ornamentao do seculo XV acompanha,
como  natural, a evoluo do estylo,  grandiosa e complexa,
approximando-se das frmas da renascena.

A esculptura no seculo XIII comea a perder as frmas tradicionaes e
byzantinas dos seculos anteriores. Tem mais grandeza e naturalidade, sem
prejudicar a unco religiosa. A architectura emancipou-se da influencia
monastica, a esculptura seguiu-lhe o exemplo.  o elemento profano que
vae preparando successivamente o movimento artistico da renascena, pelo
estudo da natureza e da antiguidade classica.

No seculo XIV apparecem as creaes grotescas, algumas asss livres, e
as satyras da vida monastica, de que entre ns existem exemplos. Na
Egreja da Batalha, alguns capiteis mais elevados, segundo nos disseram
operarios que os restauraram, descrevem scenas equivocas, ou pelo menos
pouco edificantes. No pudmos verifical-o, attendendo a enorme altura
dos capiteis e  pouca claridade do templo. Algumas grgulas offerecem
disposies parecidas; uma parece symbolisar accentuadamente o classico
deus Priappo.

No antigo Convento da Conceio em Evora, mosteiro de freiras, uma
grgula representa uma freira, dando  luz uma creana. Na egreja matriz
de Caminha, outra grgula figura um homem, voltando as costas para
Hespanha em posio asss equivoca. Estas e outras anomalias, alis
vulgares e caracteristicas n'este estylo, procurmos explical-as,
tratando da organisao das associaes _franco-maonicas_. Em qualquer
caso, so o producto do trabalho independente da aco monastica, talvez
uma manifestao deploravel da liberdade de pensamento, que foi a
aspirao do segundo periodo da Edade-Media.

No seculo XV a esculptura e a pintura libertam-se. A verdade da natureza
traduz-se nas posies e nos actos. Sente-se bem que a Renascena est 
distancia de um seculo. Os esculptores e os pintores teem
individualidade propria, as suas escolas e os seus discipulos; no se
apresentam simples decoradores, manifestando j a dignidade de artistas,
que professam artes independentes.

A pintura mural foi muito usada no Estylo Ogival. No interior, as
abobadas eram, s vezes, pintadas de azul e constelladas de ouro e
prata. A cr verde applicava-se aos capiteis, a encarnada aos fustes das
columnas. Nas paredes desenhavam-se varios ornamentos, em alguns casos
simulando elementos architectonicos que melhor pertencem  esculptura.
No exterior, a pintura cobria tambem os portaes, as arcaturas e os
pontos principaes do edificio. As folhagens offereciam a cr verde e as
figuras dos porticos eram recamadas de ouro.

A pintura mural rivalisava com a dos grandes vitraes. O tempo fel-a,
porm, desapparecer quasi por completo, habituando a esthetica moderna a
no comprehender nem admirar a polychromia dos edificios, alis tambem
muito empregada nos Estylos Classicos. A Sainte Chapelle de Paris,
modernamente restaurada, offerece no interior um excellente exemplo da
pintura mural. , todavia, mais do que provavel que este uso no fosse
geral, pelo menos nas egrejas de menor importancia. Segundo a nossa
opinio, devemos confessal-o, as velhas cathedraes devem aos seculos o
grande beneficio de lhes haverem substituido o effeito garrido da
pintura exterior pela cr sombria e solemne, que provm da aco do
tempo.

Um dos mais bellos ornamentos do Estylo Ogival consiste, sem a menor
duvida, nos vitraes. As vidraas multicolores, rutilantes  luz do sol,
como se fossem de pedrarias, coando serena claridade pelas grandes
superficies irisadas, onde se desenham, envoltos em caprichosa
ornamentao, complexas scenas, paisagens, episodios guerreiros ou
religiosos, nichos rendilhados com grandes figuras asceticas, produzem
effeitos de luz surprehendentes e de extrema belleza esthetica. Estes
vitraes polychromicos causam uma impresso profunda e indelevel, em que
se mistura a poesia da alma com a musica das cres. Sem elles as mais
bellas cathedraes perderiam grande parte do espirito mystico e do seu
finissimo caracter artistico.

Vimos apparecer estes vitraes no ultimo periodo romanico, pelo menos com
mais importante applicao; vamos agora esboar as transformaes, que
soffreram nos seculos seguintes.

No seculo XIII, as vidraas coloridas attingem grande perfeio. A arte
do vidreiro e a pintura aperfeioaram-se. Como se chegou a obter na
mesma chapa de vidro cres differentes e esbatidas, as malhas do tecido
de chumbo so maiores, no recortam tanto o desenho, e os tons dos
vitraes manifestam mais harmonia e doura. As figuras so mais elevadas,
o que provm logicamente dos grandes vos das janelas. Os ornamentos,
mais cuidados e ricos, harmonisam-se com os do interior do templo.

So variadissimos os motivos; scenas do Novo e Antigo Testamento, lendas
do Christianismo, o florilegio dos martyres, combinam-se com episodios
do tempo e representaes de industrias covas, verdadeiros subsidios de
estudo. Retratos de personagens da epocha, ecclesiasticas e civis,
guerreiros com armaduras e bispos paramentados, constituem recordaes
historicas de piedade christ e de votos dos que offereceram estes
despendiosos ornamentos, que embellezam as antigas cathedraes.

No seculo XIV o desenho dos vitraes  mais correcto e as figuras vo
sempre perdendo o caracter byzantino. Os pintores comeam a estudar mais
a antiguidade e a natureza, abandonando as frmas tradicionaes dos
seculos anteriores. A esthetica consegue em bellos effeitos o que perde
em originalidade e espirito de tradio, que alis encerra sempre
manifestaes de belleza mais de accordo com a architectura dos templos.
As cres tornam-se menos vivas, prevalecem as neutras pouco carregadas.
As egrejas precisam de luz, a fim de que os fieis possam ler nos
breviarios os exercicios divinos; as vidraas tornam-se, pois, mais
claras. A Imprensa, inventada no seculo XIV, se esclareceu o mundo,
sacrificou um pouco as velhas cathedraes, desfazendo essa penumbra doce
e encantadora que era a expresso mais adequada ao mysticismo religioso.

Uma ornamentao, embora accessoria, que embelleza as cathedraes
ogivaes,  a rica obra da talha ou a esculptura em madeira,
principalmente nas cadeiras dos cros, que nos estylos mais primitivos
eram de pedra. A perfeio d'este trabalho attinge propores admiraveis
no seculo XIV. N'este genero de coros, em que a nossa pobreza  extrema,
deve citar-se o da S da Guarda. Em Hespanha, pelo contrario, ha
riquezas immensas nos coros e nas respectivas obras de talha. O mais
rico, que temos visto  o da Cathedral de Sevilha, collocado segundo o
uso n'aquelle paiz na nave principal, como no Estylo Latino. Este cro,
admiravel e riquissimo em todo o sentido, parece-nos que deve datar dos
meiados, se no dos fins do seculo XVI.

Antes de finalisar este capitulo, so indispensaveis algumas
consideraes geraes de ordem mais ou menos technica, que somos forados
a desenvolver. Em nenhuma das phases da evoluo da arte se manifesta
mais accentuada a influencia do _meio_, do que no Estylo Ogival. Provam
esta assero a unidade dos seus caracteres geraes e tambem a sua rapida
disperso nas zonas, onde esse _meio_, como o definimos na introduco
d'este livro, era mais ou menos identico; todavia, a existencia de
elementos e de condies particulares nos differentes paizes tinha de
influir necessariamente nos caracteres da arte.

As construces ogivaes, obedecendo  influencia do _meio_ particular
das naes, entre as quaes se desenvolveram, tomou feies proprias em
cada uma, muito embora subordinadas s leis e aos caracteres geraes do
estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feies
especiaes, diriamos talvez mais nitidamente as physionomias, do ogival
allemo, francez e inglez so por tal frma definidas, que os grandes
entendedores da arte as distinguem com facilidade.

A evoluo e a decadencia do estylo no se manifestaram, tambem, em
identicos periodos: por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e
duradouro o bom estylo, no experimentando quasi o periodo de
decadencia. A Italia, principalmente ao sul, offereceu sempre tenaz
resistencia a todas as innovaes artisticas, que mais se distanciavam
do profundo espirito classico, herdado no sangue das geraes
successivas e conservado em numerosos restos dos antigos monumentos. Ao
Estylo Ogival aconteceu facto analogo: as suas construces appareceram
primeiro nos pontos, onde menos abundavam as romanicas. No falaremos na
Grecia e no Oriente, porque n'esses paizes o _meio_ social conservou-se
sempre differente.

A estas indicaes se deve attender na historia de um estylo, sem
perder, tambem, de vista que a unidade e a harmonia dos edificios so
sempre prejudicadas pela demorada construco.  sabido, com effeito,
que alguns dos maiores monumentos ogivaes levaram seculos a terminar,
no falando, ainda, nas successivas restauraes, que chegam a alterar a
unidade e o caracter de um edificio.

Um facto, que parece caracteristico tanto no Estylo Romanico como no
Ogival, consiste no pequeno numero de nomes dos grandes architectos, que
nos conservou a historia, emquanto so conhecidos muitos dos classicos.
Tem-se procurado, com excesso de paciencia archeologica, explicar este
facto pela humildade christ dos frades architectos do Estylo Romanico e
pela organisao especial das associaes _franco-maonicas_, principaes
constructoras dos edificios ogivaes.

Talvez em parte fossem estas causas a origem do silencio; no
comparemos, porm, a illustrao e o gosto artistico dos cidados livres
da Grecia e de Roma com a ignorancia dos bares feudaes e dos
cavalleiros medievaes, que timbravam em no saber ler e escrever,
sellando os documentos com os copos das proprias espadas. Nem
confundamos a plebe d'aquellas florescentes republicas com a multido
desgraada e quasi selvagem da Edade-Media. Nos paizes classicos a arte
foi sempre considerada nobre e elevada funco; na Edade-Media deve ter
sido apenas olhada como simples profisso. Assim, conservaram-se os
nomes dos fundadores dos templos e dos grandes e poderosos da terra,
para quem foi inventada a Historia; os dos pequenos e humildes, embora
geniaes e creadores, mergulharam nas trevas do esquecimento e da
ignorancia medieval.

Alem d'isso, os architectos no punham em evidencia os seus nomes. Aqui
e alm do-se pequenas excepes a esta regra. Quando muito, empregavam
signaes caracteristicos e proprios em qualquer ponto evidente da
construco. Assim, j o dissemos, na pequena e elegante capella do
Estylo Ogival secundario, agora em via de restaurao na S de Lisboa, a
flor de lyz, gravada na face de uma columna prismatica, pde bem indicar
a origem franceza do architecto.

Os signaes gravados nos silhares dos monumentos ogivaes tambem so muito
vulgares. Teem sido attribuidos a simples marcas dos canteiros, que
indicavam, talvez para pagamento, as pedras feitas por cada um. O facto
de serem os signaes gravados na pedra e alguns difficeis e complicados,
como se pde verificar no Mosteiro da Batalha, prejudica no nosso
espirito esta hypothese. Mais provavel nos parece que sejam signaes
particulares das differentes lojas maonicas, ou seces d'ellas, a que
pertenciam os differentes trabalhadores, mestres e architectos. O
assumpto no offerece, alis, seno o simples valor de curiosidade.

Temos exposto, segundo nos parece, os caracteres principaes do Estylo
Ogival. O trabalho  incompleto, nem podia deixar de o ser em assumpto
to vasto e complexo, sobre o qual muito se tem escripto e muito ha
ainda para escrever. N'este estylo temos, felizmente, um riquissimo
exemplar no Mosteiro da Batalha, cuja historia e descripo reservamos
para uma parte especial d'este livro. Esta rapida monographia completar
a exposio feita, melhor talvez do que outros desenvolvimentos mais ou
menos didacticos.

Na nossa opinio, o Estylo Ogival  a mais elevada expresso esthetica,
at hoje revelada na evoluo da architectura. Para o comprehender no 
necessario ser artista, sabio ou crente; bastar, apenas, possuir algum
sentimento, firmado em instruco vulgar, e comparar os movimentos do
nosso espirito em face das creaes dos melhores estylos.

Ns vimos grandes templos, restos da antiguidade classica, sumptuosas
basilicas, magnificos exemplares byzantinos e romanicos; encontrmol-os
por muita parte. Em longas horas de contemplao e de estudo, procurmos
o espirito d'esses monumentos, transportando-nos aos seculos, que lhes
imprimiram physionomia. As impresses mais perfeitas e harmonicas
foram-n'os dadas, sempre, pelas grandes cathedraes do Estylo Ogival.




CAPITULO SEXTO

O ESTYLO OGIVAL ENTRE NS


Eis um capitulo por natureza curto. Se Portugal , infelizmente, pobre
em monumentos, a sua penuria manifesta-se extrema nos do Estylo Ogival.
O Estylo Romanico deixou entre ns algumas construces, mais ou menos
importantes, embora, em geral, estragadas depois por inscientes
restauraes, que o cuidado e o gosto moderno vo a pouco e pouco
substituindo, a fim de darem aos edificios a possivel pureza primitiva.
A S de Coimbra, egreja romanica do segundo periodo,  bom exemplo
d'este gosto e cuidado.

Pelo paiz inteiro, pelo menos na parte por ns percorrida, encontram-se
de quando em quando trechos do Estylo Romanico de soffrivel valor,
escondidos no mesmo edificio por entre outros ogivaes e da renascena.
Assim, um dos nossos primeiros monumentos, o Convento de Christo em
Thomar, offerece construces differentes. A subida importancia que
outr'ora teve este Mosteiro, sem duvida o mais rico do paiz, a extrema
e curiosa diversidade de estylos, que elle manifesta, aconselha-nos mais
detida descripo, embora exceda em parte os quadros d'este livro.


    [Figura:


    1 Terreiro e escadorio.                 |  6 Sacristia.
    2 Adro.                                 |  7 Portaria.
    3 Charola, egreja primitiva.            |  8 Cro e corpo da egreja.
    4 Antiga porta da egreja primitiva.     |  9 Claustro de Joo III--Filippes.
    5 Claustro do D. Henrique ou Cemiterio. | 10 Refeitorio.
                             11 Claustro de Santa Barbara.
    ]

Na anterior planta esto descriptos os elementos do grande edificio, que
ns suppomos deverem ser considerados verdadeiramente monumentaes; o que
no quer dizer que n'outros pontos, j na parte pertencente ao Estado,
j n'aquella que infelizmente foi vendida, no existam trechos de
verdadadeiro valor artistico e historico, dignos de cuidadosa defeza e
conservao.

[Figura: CONVENTO DE THOMAR--Fachada da Egreja]

A egreja actual  formada por dois corpos, construidos em seculos
differentes. O circular, que parece hoje constituir a charola da egreja,
foi o templo primitivo. Pertence ao Estylo Romanico, talvez terciario,
visto que a ogiva, embora pouco accentuada, se desenha sob as camadas de
estuque, que revestem os oito arcos do recinto octogonal, cuja abobada
forma uma especie de zimborio sobre o altar.

Primitivamente, este recinto tinha o aspecto de torre central,
elevando-se a respectiva abobada bastante acima da abobada anelar da
nave envolvente. A antiga porta de entrada, virada ao nascente, foi
transformada em janela, quando  egreja romanica se annexou o corpo
rectangular. N'esta frma do primitivo templo sente-se a indiscutivel
influencia de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem.

Nos comeos do seculo XV foi construido ao norte da primitiva egreja o
Claustro de D. Henrique ou do Cemiterio, que, embora muito simples e
pequeno,  de asss puro e elegante Estylo Ogival; talvez do terceiro
periodo, se attendermos aos caracteres dos capiteis das columnas, unicos
elementos que podero servir para rigorosa classificao architectonica
d'este claustro.

Nos fins do mesmo seculo XV e principios do XVI elevou-se a construco
do actual corpo da egreja, que abre para o primitivo templo circular,
transformado em capella-mr, por grande arco, rasgado na respectiva
parede. A nova entrada, olhando o sul,  formada por um magnifico e
elegante portal. Assim, antes da construco do Claustro de D. Joo III,
vulgarmente chamado dos Filippes, toda a fachada sul da egreja,
comprehendendo este portal e duas grandes janelas de volta inteira, bem
como a fachada Occidental, ficavam livres e visiveis.

O cro, outr'ora guarnecido de excedente obra de talha, occupa quasi
metade do corpo da egreja e firma-se sobre a abobada da casa do
capitulo. Por esta frma, a fachada occidental, ladeada por dois
formosos e originaes botareos, offerece entre elles na parte superior
uma rosacea, abrindo no cro, e na inferior, illuminando a casa do
capitulo, uma magnifica janela com rica ornamentao de algas, embora na
realidade um pouco pesada. Toda esta parte do edificio  do Estylo da
Renascena do primeiro periodo, entre ns chamado manuelino,
manifestando-se na fachada occidental grande influencia do oriente,
principalmente na decorao dos botareos e da janela das algas.

Pouco depois do meiado do seculo XVI foi construido e encostado 
fachada sul da egreja, da qual mascara grande parte, o Claustro de D.
Joo III, erradamente denominado dos Filippes. Este claustro, que faz
recordar os magnificos pateos dos palacios florentinos,  de excellente
Estylo da Renascena italiana. Emquanto a ns, se no constitue o unico
exemplar nacional d'este estylo, deve pelo menos ser considerado o mais
puro e completo. Para o claustro, ou mais rigorosamente para este pateo,
abria outr'ora a porta do refeitorio, que da parte monumental  elemento
integrante e indispensavel, como o indica a planta.

Esta bella e ampla sala abobadada pertence tambem ao Estylo da
Renascena; hoje, porm, encontra-se separada do monumento, havendo sido
murada a respectiva porta. Embora seja propriedade do Estado, anda ha
longos annos arrendada ao proprietario de parte do Mosteiro e da
respectiva crca, servindo-lhe de celleiro! Todos os esforos empregados
at agora para acabar com este arrendamento, ainda os mais recentes
feitos pelo Conselho dos Monumentos Nacionaes, tem sido
infructiferos[4]!

Do Claustro do Cemiterio passa-se para a sacristia, pea de secundario
valor architectonico, construida nos fins do seculo XVI em Estylo da
Renascena, frio e pesado, que faz lembrar muito a singular physionomia
da renascena do Escurial.

Esta succinta descripo demonstra a importancia architectonica do
Mosteiro de Thomar, bello exemplar onde se casam os mais perfeitos
estylos com ornamentaes ricas e caracteristicas. Devemos, porm,
observar que, no rigor da palavra, a parte no monumental do grande
edificio monastico envolve tambem elementos e trechos de bastante valor
artistico. Assim, no Claustro da Micha, no comprehendido na planta
junta, existem tres grandes salas, onde a tradio affirma que se
reuniram as Crtes de Thomar. Se  possivel duvidar d'esta tradio,
embora o estylo das salas seja da epoca, no padece duvida alguma que
todas, principalmente a da Nobreza, so bellas e dignas de conservao,
ou talvez melhor de salvamento, porque o tempo e o vandalismo acabaro
por destruil-as sem remedio[5].

Alm d'isso, o Mosteiro manifesta riquissima construco quer em
materiaes, quer em trabalho; assim, por exemplo, os corredores para onde
abrem as cellas, na realidade multiplas, vastas e sobrepostas galerias
cortando-se em angulo recto, so cobertos por tectos de volta inteira e
apainelados de excellente carvalho do norte. De espaos em espaos,
encontram-se n'estas galerias bellos trechos e baixos-relevos da pura
arte da renascena.

A conservao em que tudo isto se encontra, exceptuando os edificios
monumentaes descriptos, menos descurados hoje,  quasi deploravel na
parte pertencente ao Estado; porque a outra parte do Mosteiro, talvez a
maior, encravada nas pertenas nacionaes sem ordem e sem nexo, bem como
a bella crca e outras valiosas propriedades conventuaes, foram vendidas
por somma irrisoria[6].

Entre todos os mosteiros nacionaes, exceptuando o de Mafra e o de
Alcobaa, suppomos que o de Thomar  o maior e o segundo na ordem da
riqueza artistica e historica. Uma administrao nacional sensata e
illustrada teria conservado completo e mobilado este bello monumento,
como typo da vida e dos costumes monasticos. Seria, por assim dizer, um
exemplar unico no mundo. Hoje, alienada parte do edificio, vendidos a
desbarate ou roubados os moveis e os livros, esta restaurao seria
quasi impossivel; mas, no que nos resta ao menos, o edificio deveria ser
conservado como excellente exemplo de uma feio caracteristica e
importante das organisaes sociaes dos seculos passados[7].

Grande parte das egrejas no norte do paiz, foram primitivamente do
Estylo Romanico do primeiro ou do segundo periodo, mas so de
construco acanhada e pobre, offerecendo cobertura de madeira. No sul
ainda a escassez de monumentos  maior. Em todo o Algarve, depara-se-nos
apenas a S de Faro e a de Silves, que merecem alguma atteno. Julgamos
que a ultima obedece aos principios das construces do norte: Estylo
Romanico do terceiro periodo--transio--naves cobertas de madeira, cro
abobadado, mas tudo em lastimoso estado de conservao artistica.

A Egreja Matriz de Caminha parece-nos constituir um bello exemplo d'este
typo de egrejas do norte. Sem duvida, a primeira construco foi
romanica do segundo periodo. Soffreu, depois, grandes restauraes no
tempo da renascena manuelina. A fachada, composta de tres corpos
distinctos desenhando as naves internas,  d'este definido estylo.

No interior, muito interessante, existem tres naves. A cobertura  de
carvalho e de castanho, com vigas descobertas. Arcos de volta inteira
sobre columnas delgadas dividem as naves. As paredes lateraes d'estas
naves no tinham primitivamente capellas; as que hoje existem so dos
seculos XVI e XVII. A egreja acha-se revestida at  altura dos capiteis
das naves por azulejos ordinarios, datados de 1690. D'ahi para cima as
paredes esto caiadas. O templo primitivo no tinha cro sobre a porta
principal, o que existe na actualidade  de construco moderna.

A capella-mr, tambem manuelina,  coberta por uma bonita abobada. No
exterior d'esta capella-mr corre um bello friso de corda e por baixo
d'elle outro, simulando uma cadeia de ferro.  o primeiro que vimos
n'este genero. Na fachada lateral da egreja ha uma bonita porta da
renascena. A construco  toda de granito. Em geral, os ornatos esto
muito apagados, porque o granito empregado tem o gro muito grosso e
esbora-se, exposto  aco do tempo. Fazemos esta ligeira descripo
para darmos ida de um typo asss vulgar das nossas egrejas secundarias
do norte e do seu estado actual.

Parece-nos dever concluir, do que temos visto, que as construces
religiosas em Portugal foram bastante activas nos seculos XI e XII, isto
, no periodo romanico. O periodo ogival no manifesta a mesma
actividade. Na S de Lisboa, como nas de Evora e de Braga e n'outros
pontos, o ogival apparece certamente; mas, em geral, parece-nos que foi
trazido pelas restauraes dos edificios e pela construco de capellas
annexas.

Assim, na S de Lisboa, como vimos, a charola  ogival, guarnecida de
capellas, resultando da restaurao da antiga charola do romanico
secundario, estylo a que pertence a egreja. O claustro  tambem ogival e
deve datar da restaurao da charola.  esquerda, logo a principio da
nave lateral da egreja, foi construida nos meiados do seculo XIV uma
elegantissima capella ogival, por testamento de Bartholomeu Joannes.
Esta capella  talvez, apesar das suas pequenas dimenses, um dos mais
ricos exemplares do ogival francez do segundo periodo, existente em
Portugal. As suas disposies fazem lembrar--at certo ponto e com a
devida modestia--as da Sainte Chapelle de Paris. Est hoje em adeantada
restaurao; devendo constituir, em breve, a unica construco completa
do Estylo Ogival em Lisboa.

A Egreja do Carmo, como o attestam as respectivas ruinas, foi um
edificio ogival do segundo periodo, de certa grandeza e de bastante
valor architectonico, muito embora diminuido por evidentes restauraes,
sobre tudo na capella-mr e nas capellas lateraes das naves, que a
primitiva egreja no devia ter. Esta construco, comeada alguns annos
depois da do Mosteiro da Batalha, seguiu-lhe o plano, pelo menos nas
disposies geraes; sem, comtudo, ter podido nunca manifestar a
elegancia e a pureza de estylo do seu bello modelo.  para lamentar que
o terremoto de 1755 inutilisasse o unico edificio ogival importante de
Lisboa. Hoje, no seria rasoavel restaural-o completamente; mas
dever-se-ia tentar, com proveito para a arte nacional e para a decorao
da cidade, a _restaurao das ruinas_,--se nos consentem a expresso--o
que no seria obra difficil nem dispendiosa.

Da Egreja de Alcobaa j falmos anteriormente, classificando-a de
preferencia no Estylo Romanico de transio. Julgamos, pois, opportuno
apresentar agora as rases de ordem architectonica, em que fundamos esta
classificao, que pde ser talvez impugnada.

Este edificio religioso, um dos maiores se no o maior que entre ns
existe,  attribuido tambem a D. Affonso Henriques; sendo, portanto,
covo da S de Lisboa; seria, porm, completamente edificado no seculo
XII, ou apenas restaurado e engrandecido n'esse seculo um templo
primitivo existente?

Confessamos no possuir elementos sufficientes para dar fundada resposta
a esta pergunta, embora nos inclinemos para a segunda hypothese. Esta
investigao, que alis teria importancia para o estudo perfeito do
monumento,  dispensavel no caso presente, em que apenas procuramos
classifical-o e firmar a nossa opinio em affirmaes claras e
positivas.

Em seguida, apresentamos a planta da parte monumental do Mosteiro de
Alcobaa, famoso pela grandeza do edificio, pelas ricas propriedades
conventuaes e pelas tradies de opulencia gastronomica dos frades
beneditinos, que o habitaram.

    [Figura:

    1 Egreja.             | 5 Sacristia.
    2 Sala dos Reis.      | 6 Capella do Santissimo.
    3 Sala dos tumulos.   | 7 Claustro de D. Diniz.
    4 Vestibulo.          | 8 Sala do Capitulo.
    ]

A parte monumental  relativamente pequena em relao  enorme
superficie do Mosteiro; todavia, a egreja deve em comprimento
considerar-se a maior do paiz.

A fachada foi, evidentemente, restaurada, ou melhor, reconstruida j no
periodo da renascena, talvez a partir dos meiados do seculo XVII,
aproveitando-se pelo menos parte do antigo portal. Esta fachada
manifesta-se fria e pesada, pertencendo ao estylo, asss espalhado entre
ns, que de bom grado chamariamos _jesuitico_; porque nos parece
traduzir a ferrea disciplina, o caracter forte e combatente, o methodo
implacavel e severo d'essa machina de guerra religiosa, chamada
Companhia de Jesus, que, durante seculos, dominou a sociedade
portugueza, organisando-a  sua imagem e similhana nas instituies, na
philosophia, na sciencia, na religio e at nas manifestaes
estheticas.

 preciso, em verdade, confessar que a fachada da Egreja de Alcobaa,
apesar das qualidades indicadas, offerece elevado cunho de severidade e
um grande aspecto solemne, que at certo ponto se nos impe, resgatando
os defeitos do respectivo estylo.  como a disciplina e o espirito
jesuiticos, aos quaes, por mais antipathicos que se manifestem  nossa
intelligencia e ao nosso sentimento, no podemos deixar de reconhecer
grandeza e de tributar um odiento respeito.

[Figura: CONVENTO DE ALCOBAA--Fachada da Egreja]

A egreja no interior no exprime, tambem, o sentimento religioso, que se
apodera da alma em edificios ogivaes d'esta natureza, principalmente na
bella Egreja do Mosteiro da Batalha. Este facto provm talvez mais de
condies secundarias do que das disposies geraes architectonicas. 
possivel que a impresso fosse profundamente modificada, se a egreja
tivesse um dia completa e perfeita restaurao e os vitraes
polychromicos produzissem a suave e poetica luz, que hoje falta por
completo ao grande templo. Em todo o caso, a egreja no deixa de causar
uma sensao profunda de majestosa e solemne severidade, exactamente
aquella que produzem os edificios romanicos e, sem duvida, provm da
synthese caracteristica dos elementos fundamentaes do estylo.

A egreja tem tres elevadas naves, cujas respectivas abobadas se elevam a
egual altura. As lateraes so muito estreitas e como excepo, que
julgamos asss rara, inflectem-se em angulo recto, acompanhando os
braos do transepto. A capella-mr, relativamente pequena,  envolvida
pela charola, onde foram abertas capellas. Suppomos que estas capellas
devem ter sido construidas no periodo ogival; esto, porm, to cobertas
de obra de talha dourada, que no  facil fazer seguras affirmaes
sobre este ponto.

As columnas romanicas da capella-mr, bem caracterisadas, segundo
pensamos, do periodo secundario, so visiveis da charola; pela frente,
esto mascaradas por intercolumnios classicos semicirculares, de
construco relativamente moderna, muito elegantes: o inferior da Ordem
Jonica e superior da Composita. N'este ponto reside, sem duvida, uma das
difficuldades e um dos problemas de qualquer futura restaurao.

O Claustro de D. Diniz--damos-lhe a designao vulgar--fica encostado 
parede norte da egreja, commum a ambas as construces.  um bello e
grande claustro, o terceiro na ordem architectonica dos que existem no
paiz, considerando o primeiro o do Mosteiro da Batalha pela unidade e
delicioso estylo e o segundo o do Mosteiro dos Jeronymos. Primitivamente
este claustro apenas teve, como o da Batalha, porticos inferiores,
segundo todas as probabilidades cobertos por terraos; nos fins do
seculo XV ou no XVI foram construidos os porticos superiores, cuja
cobertura  de madeira e telhados amouriscados.

A Sala do Capitulo abre no portico oriental inferior do claustro.  uma
bella pea architectonica; sobretudo, a grande porta, ladeada de quatro
janelas, duas de cada banda, constitue um dos melhores exemplares
romanicos, existentes no paiz. Ninguem acreditar, por certo, que esta
porta e estas janelas, to puras e caracteristicas, se acham muradas,
ficando separada da parte monumental a respectiva sala, que outr'ora
serviu de _picadeiro_ ao regimento de cavallaria aquartelado no velho
Mosteiro e hoje est occupada pelo _gymnasio_ militar!

Os restantes edificios, exceptuando a chamada Sala dos Reis, so
construces posteriores, annexas ou encostadas ao antigo monumento. Por
pouco se recommendam, embora sejam elementos integrantes e
indispensaveis da parte monumental.

A Sala dos Reis deve ser cova da egreja e do claustro, quer seja
primitivo o seu estado actual, quer resulte de posteriores
reconstruces. No tem valor architectonico. A sua designao provm de
umas estatuas (?!) de gsso com olhos pintados, que sobre misulas de
pedra _ornam_ as paredes do recinto. Uma s phrase define estas
grotescas personagens: _ridiculas e vergonhosas_. Seria uma obra de
misericordia artistica e de amor patrio tirar d'ali aquelles _mnos_,
que attestam a esthetica dos gordos frades de Alcobaa e nos envergonham
perante nacionaes e estrangeiros, hoje comeando a affluir em visita ao
monumento.

A Sala dos Tumulos, abrindo no ramo sul do transepto,  de construco
posterior  da egreja. Edificio vulgar, contm, apenas, alguns
sarcophagos de valor, principalmente o de D. Pedro I e o de D. Ignez de
Castro, magnificos exemplares do Estylo Ogival, embora um pouco
damnificados pelas profanaes, que em geral soffreram as nossas ricas
sepulturas _no tempo dos francezes_.  a defeza habitual da incuria e
falta de respeito pelas tradies e pelos mortos.

Tambem, muito posteriormente  construco da egreja, uma das capellas
envolventes da charola foi rasgada para ligar o templo com a sacristia
actual. Esta sacristia, de Estylo da Renascena,  muito pobre e quasi
glacial. Parece-nos posterior  restaurao da fachada. No extremo da
sacristia v-se um Relicario circular, todo forrado de talha dourada e
de bustos de madeira, em geral asss feios e mal feitos, que encerravam
as reliquias. Apesar dos defeitos e do pessimo estylo, se esta palavra
se pde applicar ao caso, este Relicario deveria ser restaurado, como
exemplar dos costumes religiosos do tempo.

Em frente da sacristia encontra-se uma capella, actualmente do
Santissimo, sem valor architectonico absolutamente algum. Todavia, no
vestibulo, que serve esta capella e  sacristia, as duas respectivas
portas so de excedente Estylo da Renascena manuelina.

Eis a succinta descripo da planta da parte monumental do Mosteiro de
Alcobaa. No resto do edificio nada encontramos que merea atteno a
no ser a Sala da Bibliotheca, do Estylo da Renascena, vastissimo salo
com estuques modernos a car em pedaos e ameaando proxima e perigosa
ruina. Nos vos das respectivas janelas existem ainda vestigios da
antiga ornamentao, onde se nota a influencia dos frescos e pinturas
muraes de Pompeia, to usadas depois da descoberta, no meiado do seculo
XVIII, e das excavaes d'esta antiga cidade romana, situada nas margens
do Golpho de Napoles.

No mencionaremos a _pantagruelica_ cozinha dos gastronomos frades de
Alcobaa, que, segundo parece, a todas as artes preferiam, a julgar pelo
_sanctuario_, a arte culinaria e as famosas _tremendas_, pequenas
refeies de um arratel de toucinho assado!

A que estylo pertencem a egreja e o claustro, ao Romanico de transio
ou ao Ogival primario?

 claro que em face d'estes edificios vamos collocar-nos como os
classificadores zoologicos ou botanicos em frente de novos exemplares.
Alm d'isso, no temos a pretenso de resolver o problema; desejamos,
apenas, enuncial-o claramente, o que em mathematica se considera meia
resoluo.

Comecemos pela egreja, fazendo notar no s a impresso particular, que
ella produz, mas tambem a circumstancia de que tanto este edificio, como
o claustro e a casa do capitulo se encontram to ligados, tendo paredes
communs, que no respectivo conjunto a construco deve ter sido pelo
menos quasi simultanea.

Enumeremos, pois, os principaes caracteres romanicos bem definidos
d'estas construces.

A egreja offerece os seguintes:

1.^o Os pilares das arcadas, que dividem as naves, so rectangulares,
massios e muito fortes, embora asss elevados. Os cinco primeiros de
cada lado, a contar do transepto, tem columnas nichadas nos quatro
angulos. Nas faces exteriores d'estes pilares, as columnas, que
sustentam os arcos da nave central perpendiculares ao respectivo eixo,
so chanfradas em certa altura, no chegando ao pavimento. Nos oito
pilares seguintes, tambem de cada lado, desapparecem as columnas
nichadas e as das faces exteriores assentam sobre fortes misulas. Todas
estas columnas, que revestem de grandes em grandes espaos os pilares
rectangulares, embora sejam muito elevadas, manifestam relativamente
grande grossura.

Estamos, pois, bem longe dos pilares polistylos ogivaes. Assim, se a um
architecto dessem isoladamente a seco d'estes pilares e parte da sua
elevao, cremos que no duvidaria em classifical-os romanicos.

2.^o Em algumas bases das columnas da egreja apparecem garras, cuja
frma nos parece accentuadamente romanica.

3.^o As portas da Sala dos Reis, a da entrada para o claustro e a do
refeitorio, no portico norte d'este claustro, manifestamente primitivas,
so _caracterisadamente_ romanicas.

4.^o Os arcos primitivos da capella-mr so de puro Estylo Romanico.

5.^o As janelas da capella-mr, as orientaes do transepto e as lateraes
das naves, excepto a ultima de cada lado proximas do transepto, so de
volta inteira.

D'esta exposio suppomos dever concluir a supremacia do arco continuo
nos elementos fundamentaes da egreja. A ogiva apparece, sem duvida, mas
nem ao menos  dominante. Assim, na abobada da nave central apresenta-se
pouco accentuada e se o  nas lateraes, pde o facto attribuir-se 
condio da egual altura dos fechos das abobadas nas tres naves, que
obrigou o constructor a dar maior ponto aos arcos, pronunciando a ogiva.

 verdade que o portal da fachada principal  ogival; mas nada prova que
esse portal seja o primitivo. Alm d'isso, os respectivos capiteis, de
folhagens e gales com muito pequeno relevo, so mais romanicos do que
ogivaes.

Passemos agora ao claustro:

1.^o A porta e as janelas da Sala do Capitulo so _absolutamente_
romanicas.

2.^o Os porticos inferiores so formados de dois ou tres arcos geminados
de ogiva bem definida, com pequenas rosaceas sobre os angulos
curvilineos; mas o grande arco envolvente  _sempre_ de volta inteira.

3.^o O pavilho da fonte tem janelas nas quaes a ogiva mal se desenha.

Se a tudo isto juntarmos que o coroamento do edificio, na parte
primitiva,  formado de ameias, repousando sobre forte e simples
cachorrame, teremos dado a summula dos argumentos architectonicos, em
que nos fundamos para a classificao do monumento.

Outros mais entendidos do que ns que os apreciem, porque na realidade
no temos em geral grande amor s nossas idas e em todas as occasies
da nossa vida, sem sacrificio de vaidade, temos procurado apenas a
verdade.

Este bello Mosteiro de Alcobaa teve sorte egual ao de Thomar. No o
venderam,  certo; mas transformaram-n'o em caserna e abandonaram-n'o 
pilhagem. Verdade seja que hoje l vamos com diminuta somma restaurando
lentamente o magnifico claustro.

Afra isto, nada mais existe no paiz do Estylo Ogival, pelo menos que o
conheamos, a no ser em pequenos edificios e em trechos encravados em
egrejas romanicas; eis o que nos parece incontestavel. Assim, na
realidade, o unico monumento puro, completo e relativamente grande, que
Portugal possue do Estylo Ogival,  o Mosteiro da Batalha; por isso mais
detidamente o vamos estudar e descrever.

Da Renascena no  to accentuada a nossa pobreza. Durante os seculos
XVI, XVII e XVIII reparou-se e construiu-se bastante entre ns. As
construces so em geral acanhadas,  certo; s vezes, de um estylo de
pessimo gosto, como o de quasi todas as egrejas d'esse estylo frio,
deselegante, disciplinado e monotono, que, segundo dissemos, parece ter
nascido da influencia do espirito jesuitico, dominante n'esses seculos.
Mas edificios existem, como o Mosteiro dos Jeronymos em Belem, o Palacio
da Ajuda, o Convento de Mafra, o Convento da Madre de Deus e a Egreja da
Estrella em Lisboa, o Convento de Santa Joanna em Aveiro e ainda alguns
outros, que possuem qualidades estheticas e architectonicas dignas de
admirao e louvor.

D'este ponto no nos podemos occupar n'este livro, limitado pela prvia
definio do assumpto; reservando para mais tarde o delicado estudo do
Estylo da Renascena, se podrmos ainda tentar e realisar este
trabalho[8].




PARTE QUARTA

O MOSTEIRO DE SANTA MARIA DA VICTORIA

NA BATALHA




[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Vista geral]




CAPITULO PRIMEIRO

ORIGENS E CONSTRUCO DO MOSTEIRO


O Mosteiro da Batalha , sem possivel contestao, o nosso primeiro
monumento do Estylo Ogival, quasi poderiamos dizer o unico entre ns
pela unidade e grandeza, porque os outros offerecem valor secundario.
Tivemos occasio de apreciar esta assero no capitulo precedente.

A verdade , ainda, que deve ser considerado, no pelas dimenses mas
pela architectura, um dos primeiros do mundo. Seria inutil, com effeito,
comparal-o com as enormes Cathedraes de Milo, Sevilha, Strasburgo e
Colonia. A pequena Egreja da Batalha caberia quasi nos transeptos das
duas primeiras cathedraes, vastos colossos de cinco grandes naves, cujas
abobadas se elevam a mais de quarenta metros nas naves centraes.

A posio primacial do Mosteiro da Batalha, entre a multido dos
monumentos ogivaes, -lhe fixada pelas formosas condies
architectonicas, pela unidade e harmonia de estylo, rarissimas nas
outras cathedraes, pelo sentimento indescriptivel de poesia e de
mysticismo que infunde a todos os visitantes, embora sejam versados no
estudo de outros monumentos e tenham visto alguns dos principaes. Ora,
devemos observar que  necessario ter um edificio singulares qualidades
estheticas para resistir  falta de grandeza, que constitue, sem duvida,
um requisito quasi indispensavel nas construces monumentaes.

Assim, por exemplo, o Alhambra de Granada com o seu lindo pateo dos
Lees, um primor da arte arabe, visto em gravuras causa grande
impresso, que  modificada depois de visitado, por effeito da pequenez
do recinto. O aspecto  encantador, de certo; mas falta-lhe a
solemnidade das dimenses. Os porticos do pateo dos Lees, formados de
pequenas columnas cujos capiteis mal excedem a altura elevada de um
homem, offerecem mesquinho aspecto. O nosso espirito procura augmentar
tudo aquillo, alargar-lhe as dimenses, dar-lhe, emfim, grandeza e com
ella a solemnidade.

J o mesmo no succede na antiga mesquita de Cordova, transformada em
Cathedral. Se o edificio  baixo, como em regra o eram os do Estylo
Arabe, as vastas alamedas de columnas, ligadas por dois arcos
sobrepostos e cortando-se perpendicularmente em enorme superficie,
do-lhe um aspecto original e grandioso. Outro tanto no poderemos dizer
da Sainte Chapelle de Paris, riquissimo exemplar do Estylo Ogival, mas
to pequeno e rendilhado que faz nascer a ida de estarmos dentro de um
riquissimo e gigantesco cofre cinzelado. Taes so as impresses, que
produzem, pelo menos no nosso espirito, estes dois pequenos monumentos:
o arabe e o christo.

Assim, as condies excepcionaes do Mosteiro da Batalha, quer em relao
 nossa riqueza artistica, quer pela sua elevada classificao entre os
monumentos do Estylo Ogival, obrigam-nos a estudal-o mais detidamente,
procurando, se for possivel, fixar a seu respeito doutrinas e opinies,
que ainda nos parecem pelo menos incertas e confusas.

_Origem e data da construco._--No momento critico, em que a batalha de
Aljubarrota, dada em 14 de agosto de 1385, esteve perdida para os
portuguezes, D. Joo I e o seu grande condestavel Nuno Alvares Pereira
faziam, talvez ao mesmo tempo, o voto de edificar um templo ao Deus dos
Exercitos, porque s elle os podia salvar n'esse terrivel transe. A
victoria dos castelhanos teria sido, com effeito, a perda irremediavel
do pequeno reino de Portugal, visto que as condies politicas do tempo
eram differentes das de 1640.

Os votos dos dois poderosos senhores foram entre ns origem de duas
construces ogivaes. O espirito religioso da Edade Media produziu estes
resultados em muitos pontos. Foi, como dissemos, uma das causas da
grande disperso do Estylo Ogival por todo o orbe christo no periodo do
feudalismo, que alis em rigor no existiu entre ns.

O rei cumpriu o voto, edificando perto dos campos de Aljubarrota o
Mosteiro de Santa Maria da Victoria, o condestavel elevando em Lisboa o
templo do convento, onde em vida mystica passou os ultimos annos da sua
existencia. Esta egreja, destruida pelo terramoto de 1755,  conhecida
pelo nome de Ruinas do Carmo.

A data do comeo dos trabalhos do Mosteiro da Batalha no  facil de
fixar. Os archivos do convento, como aconteceu com os de muitos outros,
foram dispersos e roubados, principalmente depois da revoluo
constitucional. Existem, todavia, documentos, pelos quaes se pde
definir com muita probabilidade esta data e o periodo da construco.

Na carta regia de 4 de abril de 1388, el-rei D. Joo I fez doao do
convento  Ordem de S. Domingos. , pois, natural que n'esta data os
trabalhos estivessem comeados e parte do convento, pelo menos, em
estado de receber os frades. O cardeal patriarcha de Lisboa, D.
Francisco de S. Luiz, auctor de uma memoria valiosa sobre o Mosteiro da
Batalha, homem instruido que viveu durante alguns annos no convento e
pde ainda consultar os archivos mais ou menos completos, manifesta a
opinio de que o edificio teria sido iniciado em 1387, ou quando mais
cedo no anno precedente.

A necessidade de fazer projectos e de reunir mestres e operarios habeis,
principalmente para obra de estylo grandioso e rico pouco cultivado
entre ns, exclue, a nosso ver, o curto espao de um anno entre o voto e
o comeo da construco. Alm d'isso, frei Luiz de Sousa, o chronista do
Mosteiro, cuja descripo constitue um primor de estylo e linguagem do
tempo, frade no proprio convento, na sua _Historia da Ordem de S.
Domingos_ escreve estas phrases: com as armas s costas--D. Joo
I--revia traas, consultava architectos, buscava officiaes e, ganhando
por uma parte logares rebeldes que lhe resistiam, ia por outra
edificando paredes sagradas. E foi assim que j havia tres annos que a
obra do Mosteiro corria, quando, estando de cerco sobre o castello de
Melgao, assentou de o dar  ordem de S. Domingos.

Esta citao demonstra a vida agitada do monarcha e o seu cuidado em
buscar architectos e artifices para a realisao do voto, mas em parte
est evidentemente incorrecta, porque, datando a doao do convento de
1388, no podia a respectiva construco ter j n'essa epocha tres
annos, visto que tambem tres annos antes se ferira a batalha de
Aljubarrota.

Por estas rases, corroboradas por outras que exporemos em logar
competente, somos levados a fixar o comeo dos trabalhos em 1387 e com
grande probabilidade a suppor, em harmonia com o espirito peculiar dos
votos, que foi escolhido para este acto o dia do anniversario da
victoria sobre os castelhanos, 14 de agosto.

_Periodo da construco._--O conjunto do Mosteiro, como existiu outr'ora
porque depois parte do convento foi arrasada para desaffrontar o
monumento, deve ter sido construido em tres epochas differentes.

A primeira epocha abrange os edificios principaes, como a egreja, a
capella do fundador, o claustro, a sacristia, o refeitorio e a casa do
capitulo. Estes elementos, os de maior valor, constituem uma parte
monumental do Mosteiro e so do melhor e mais puro Estylo Ogival, embora
em pontos muito secundarios offeream vestigios da renascena manuelina.

A segunda epocha comprehende um outro claustro, denominado de D. Affonso
V e os antigos annexos do convento.

A terceira epocha envolve as _capellas imperfeitas_ e o respectivo
vestibulo.

Occupar-nos-emos, agora, s dos edificios da primeira epocha, porque os
da segunda e os da terceira sero succintamente apreciados em um dos
seguintes capitulos.

Uma das impresses profundas, que  simples vista produzem logo os
edificios ogivaes da primeira epocha,  a sua perfeita harmonia e
unidade, to completas que no nosso espirito se radica a opinio de que
o conjunto teve planos estudados e realisados por um s architecto. Esta
impresso  manifestada por todos os homens versados no assumpto.
Citaremos dois.

Murphy, architecto inglez, que em 1793 viajou em Portugal e visitou o
Mosteiro da Batalha, onde fez estudos desenvolvidos, publicou dois
livros conhecidos, um sobre as viagens, outro sobre o Mosteiro,
acompanhado de magnificas gravuras. Ora, este architecto escreve cerca
dos edificios, agora considerados: no todo vem-se tal correco e
regularidade que apparentemente parece ter sido o resultado de bem
concebido plano original e, ao mesmo tempo,  evidente que este plano
foi seguido e executado em progresso regular, sem as alteraes e as
interrupes a que esto, em geral, sujeitas estas grandes
construces.

Um grande engenheiro portuguez, Luiz Mousinho de Albuquerque, que
durante longo tempo dirigiu as primeiras obras de restaurao do
Mosteiro, distinguindo-se nas dos vitraes, observa, em memoria que corre
impressa, terem todos os edificios da primeira epocha paredes communs e
directas communicaes. Esta observao indica que a construco no
podia deixar de ser simultanea e de obedecer a um plano geral
definitivo, organisado sob as vistas harmonicas em concepo e estylo de
um architecto, ou pelo menos de poucos animados do mesmo espirito.

Alm d'isso, demonstra que os edificios deviam ter sido construidos em
curto praso. Com effeito, vimos que nas grandes cathedraes do periodo
ogival faltam em regra a unidade e a harmonia, porque nos longos
periodos de construco, s vezes abrangendo seculos, muitos architectos
se seguiram na direco das obras e, durante to largos espaos, o
_meio_ social e o gosto artistico tiveram tempo de se transformar
sensivelmente, influindo sobre a unidade e a harmonia dos monumentos.
Nos edificios considerados do Mosteiro da Batalha no se deve ter dado
este facto. Eis o que resulta da simples observao; ora, os documentos
e as presumpes positivas demonstram esta verdade, por frma
irrefutavel.

No testamento de D. Joo I, feito em 1426, lem-se em relao ao estado
do edificio as seguintes phrases: que o Mosteiro se acabe de Crasta,
casarias, e de todolos outros edificios, que a bom comprimento do dito
Mosteiro forem necessarios. Anteriormente, no mesmo documento, El-rei
designa para sua sepultura a _capella-mr_, onde jazia a rainha D.
Filippa, sua mulher, ou _na outra que Ns ora mandamos fazer, depois que
for acabada_. Cotejando estas duas citaes devemos concluir que a
egreja estava quasi acabada em 1415, anno da morte de D. Filippa, porque
o respectivo epitaphio refere a trasladao do corpo da rainha para o
Mosteiro da Batalha, em 15 de outubro de 1416.

Assim, comparadas estas datas,  ponto incontroverso que em 1416 a
egreja se achava terminada e estavam em adeantada construco o claustro
principal e a capella do fundador; portanto, tambem o deviam estar a
casa do capitulo, o refeitorio e a sacristia, como corpos annexos e por
necessidade do proprio desenvolvimento das obras.

D. Joo I morreu em agosto de 1433. Seu filho, D. Duarte, continuou os
edificios, j muito proximos do fim. O cardeal D. Francisco de S. Luiz
transcreve uma carta d'este ultimo rei, escripta de Setubal, em 10 de
maio de 1436, a Ferno Rodrigues, _vdor_ das obras--sublinhamos
propositadamente o cargo--dizendo-lhe: vimos a carta que nos escreveste
pelo Ruy Fernandes, vosso filho, sobre certas obras que dizeis que eram
ordenadas por El-Rei, nosso Senhor que Deus haja, que se fizessem logo
n'esse Mosteiro e que quereis saber o que n'este caso havemos por bem
que se fizesse, convem a saber: em vir a agua da fonte dos valles, ou da
jardoeira, ou da calvaria para o lavatorio do dito Mosteiro.

As expresses d'esta carta provam que em 1436 a construco tocava o
fim, porque o lavatorio, a que evidentemente se refere D. Duarte,  a
bella fonte de excellente estylo, abrigada no pequeno pavilho,
construido n'um dos angulos do claustro principal e fazendo parte
integrante da respectiva construco.

A exposio das opinies de ordem technica e a comparao dos documentos
historicos, que acabamos de fazer, auctorisam e fundamentam a hypothese
de que todos os edificios da primeira epocha foram construidos e
terminados, pelo menos nos seus elementos principaes, de 1387 a 1433,
isto , no periodo de quarenta e seis annos.

Contra esta hypothese podem apenas suscitar-se duvidas de caracter muito
secundario e facilmente explicaveis, por exemplo: a cruz de Christo e a
esphera armillar, emblemas manuelinos, existentes nos tecidos
rendilhados dos tympanos de alguns arcos do claustro principal. 
evidente que estes elementos podem ter sido feitos posteriormente,
porque no eram indispensaveis para os usos do Mosteiro; alem d'isso, 
muito possivel que provenham de restauraes, visto que a pedra
empregada nos edificios  branda em excesso e, nas peas finas e
rendilhadas principalmente, mostra-se muito sensivel  aco corrosiva
do tempo.




CAPITULO SEGUNDO

O ESTYLO ARCHITECTONICO DO MOSTEIRO


Quando tratmos dos Estylos Romanico e Ogival, expozemos as rases pelas
quaes os nomes dos architectos d'esses periodos eram pouco conhecidos.
Tambem o do Mosteiro da Batalha segue esta regra quasi geral; todavia, 
assumpto muito interessante esta investigao, que, ao mesmo tempo, nos
esclarecer, sobre varios pontos historicos e technicos do nosso
primeiro monumento ogival. Ouamos os documentos; depois viro as
deduces geraes e os argumentos de ordem technica. Veremos se 
possivel lanar alguma luz n'estas densas trevas.

D. Joo I chamou de _longes terras_, escreve frei Luiz de Sousa, os
mais celebres architectos que se sabiam, convocou de todos os pontos
officiaes de cantaria destros e sabios; convidou uns com honras, a
outros com grandes partidos, obrigou a outros com tudo junto.  voz da
grandeza da obra acudiu de _todo o mundo_ numero infinito de peonagem a
servir e trabalhar e ganhar jornaes--que este bem tem as grandes obras,
manter muitos pobres.--E n'outro ponto faz notar que os religiosos no
eram chamados a dar voto, nem traa, nem ordem nas obras, unicamente
dirigidas por officiaes reaes.

Estas affirmaes na bocca de um escriptor grave, eminentemente
nacional, que devia ter ao seu alcance os archivos e conhecer as
tradies oraes monasticas do Mosteiro da Batalha, offerecem decisiva
auctoridade. Frei Luiz de Sousa viveu por largos annos no convento;
attesta-o a magnifica descripo que d'elle fez na sua grande obra,
escripta no principio do seculo XVII, isto , cerca de duzentos annos
apenas depois da construo do Mosteiro. Se os archivos do convento j
no existiam, havia a tradio oral, admissivel em to curto espao de
tempo, principalmente n'uma associao monastica. Frei Luiz de Sousa no
cita o nome do architecto; mas escreve expressamente que foram chamados
de _longes terras_ os mais celebres architectos; ora, n'este caso, a
expresso designa naes estrangeiras. Esta interpretao no pde
soffrer duvida, porque o mesmo auctor mais abaixo explica que o pessoal
acudiu de _todo o mundo_. A declarao  expressa.

Por outro lado, Jos Soares da Silva, nas _Memorias de D. Joo I_,
affirma que n'outra memoria do dominicano Antonio de Madureira se dizia
ter sido o primeiro architecto do Mosteiro da Batalha um irlandez
chamado David Aquete, que ento vivia em Vianna do Castello. Debalde
procurmos encontrar esta ultima memoria, ou determinar a data em que
existiu este frade dominicano, o que poderia constituir valioso subsidio
para a resoluo do problema; todavia, parece-nos dever concluir d'estas
citaes que, entre os frades dominicanos, passava por averiguado ter
sido estrangeiro o primeiro architecto da Batalha.

O patriotismo dos nossos escriptores antigos, por vezes exagerado, no
teria por certo deixado escapar a occasio de enaltecer o nome nacional
com a gloria da creao de monumento, que em todos os tempos foi
profunda e geralmente admirado.

Esta furia patriotica offerece um eloquente exemplo. Murphy, fundando-se
na assero de Soares da Silva, anteriormente citada, traduziu
Aquete--frma portugueza--pelo nome inglez, que sonicamente lhe
corresponde, escrevendo Hakett, appellido irlandez por signal. D.
Francisco de S. Luiz critica este procedimento do architecto inglez, que
alis teve tambem outros motivos technicos importantes para acceitar a
origem ingleza do creador do plano do Mosteiro, e declara-o exagerado. E
como se no bastasse este triste argumento, accrescenta, com incrivel
arrojo, que n'esse tempo da construco do Mosteiro eramos a nao mais
adeantada em architectura e nas outras artes, exceptuando apenas a
Italia!

Ora, n'este ponto, o Cardeal, alis erudito e grave, demonstrou pequenos
conhecimentos, porque no s no ogival a Italia nunca teve a primazia,
mas n'essa epoca j a Frana, a Allemanha, a Inglaterra e os Paizes
Baixos estavam cobertos de monumentos dos mais puros estylos, no
falando nas outras artes.

Em contraposio a estes indicios, cujo valor  incontestavel, temos a
opinio de frei Manuel dos Santos, que diz chamar-se o mestre da obra
Affonso Domingues, natural de Lisboa, morador na freguezia da Magdalena,
homem digno de eterna memoria pela capacissima ida, com que delineou a
fabrica. Devemos observar que este chronista do seculo XVIII, pela sua
posio official, no nos deve infundir grande confiana em questes
patrioticas. Alm d'isso, estudou to mal a questo que, linhas abaixo,
escreve haver-se executado a construco do Mosteiro de 1385 a 1388, o
que era em absoluto impossivel no curto espao de tres annos,
confundindo assim a data da doao do convento, feita por D. Joo I, com
a do fim dos trabalhos.

D. Francisco de S. Luiz, como  logico, acceita esta verso e d-lhe
certa plausibilidade. O futuro Cardeal Patriarcha de Lisboa estivera por
muito tempo no Mosteiro da Batalha, onde estudou o monumento e consultou
os archivos, existentes no principio do seculo passado, colhendo
preciosas informaes sobre os seus successivos architectos, pintores e
vidraceiros, nomes que hoje estariam perdidos, se no fossem o zlo e a
curiosidade do illustre prelado. Ora, entre os documentos do archivo,
este escriptor viu um de 1402, que se referia a Affonso Domingues e j o
dava por fallecido n'esta data. Como os trabalhos haviam comeado em
1387, segundo a nossa opinio, este architecto, se o foi, podia bem ter
sido o primeiro, ou um dos primeiros do Mosteiro da Batalha; no se
devendo concluir d'aqui, comtudo, que fosse o unico, ou o auctor do
plano primitivo, que bem poderia ter vindo de _longes terras_. Em todo o
caso a observao tem valor.

Affonso Domingues seria architecto? Eis a duvida. Um grande architecto
no se forma isoladamente. No gabinete estuda-se a arte, que se pratica
depois. A imaginao, a sciencia da construco, a firmeza do estylo,
emfim, as grandes qualidades de um architecto, se dependem do proprio
genio, desenvolvem-se pela pratica e, sobretudo, pela influencia do
_meio_.

O que existia em Lisboa n'esse tempo tendo verdadeiro valor
architectonico, a no ser do Estylo Romanico e d'esse bem pobre e pouco?
O que estava em construco, onde se aquecesse e formasse o seu genio?

Porque produzir no gabinete e realisal-o depois, sem a experiencia e a
influencia de grandes obras existentes ou em construco, plano como o
do Mosteiro da Batalha, seria um rasgo genial, quasi superior ao de
Pascal, que, sendo novo, pelo unico esforo do proprio genio deduziu os
trinta e seis primeiros theoremas de Euclides. Mas entre a mathematica e
a architectura, as differenas so profundas: na primeira, as verdades
absolutas existem e concatenam-se no raciocinio; na segunda, a
intelligencia no pde supprir os factos numerosos, que constituem a
arte e a sciencia do constructor.

 verdade que no seu tempo, em meiados do seculo XIV, acabra a
construco em Lisboa de uma pequena capella do Estylo Ogival, n'este
momento em via de restaurao, encostada  velha S; mas o exemplar,
simples e modesto,  do ogival francez do segundo periodo, como o
attestam os seus caracteres architectonicos e a assignatura do seu
auctor n'uma pilastra principal, conforme era de uso s vezes, segundo
j dissemos: uma flor de lyz bem definida, que, se occulta o nome,
define a nacionalidade.

Finalmente, para citarmos uma opinio inesperada e singular, o auctor da
colleco de memorias relativas aos pintores, esculptores, architectos e
gravadores estrangeiros, que estiveram em Portugal, cita o nome de
Benjamin Comte. Esta citao no envolve valor algum, porque estas
memorias, impressas em 1827, manifestam grosseiras inadvertencias. O
nome parece francez; todavia, cumpre notar que depois da conquista dos
normandos foram introduzidos em Inglaterra muitos nomes de origem
franceza. Esta supposio podia tomar vulto, se o segundo mestre, ou
architecto do Mosteiro da Batalha, que apparece no documento citado de
1402, como testemunha e j era fallecido em 1450, Mestre Ouguet, Huet,
ou Huguet, no fosse, como  provavel, a frma sonica portuguesa do nome
bem inglez Hewett.

D. Francisco de S. Luiz, para reforar a hypothese de que Affonso
Domingues foi o architecto do Mosteiro, diz que bem pde ser este mestre
Ouguet o Aquete, nomeado por Soares da Silva segundo a memoria do
dominicano Antonio de Madureira.

Bem avaliados os documentos e as citaes apresentadas, o nosso espirito
fica perplexo. Sem duvida, Affonso Domingues existiu e teve importante
ingerencia nas obras do Mosteiro da Batalha; mas isto no significa que,
se dirigiu as obras, fosse d'elle o plano primitivo do Mosteiro. Em
primeiro logar, poderia apenas tel-o executado; depois--parece-nos esta
observao importante--a situao de Affonso Domingues tambem podia ser
a de simples fiscal da obra, contractada com uma corporao
_franco-maonica_, que a teria projectado e realisado, como tudo nos
leva a crer e explicaremos mais adeante.

Esta ultima assero nossa  corroborada pela carta de El-Rei D. Duarte,
anteriormente citada e escripta de Setubal a Ferno Rodrigues, _vdor_
das obras, do Mosteiro da Batalha, em 1436. N'este anno, vivia ainda o
architecto Hewett, que se suppe ter sido o segundo mestre das
respectivas obras, porque D. Duarte lhe fez doao em 1436 de umas
casas, que elle Hewett habitava junto das obras; ora, este principe
morreu em 1438, reinando apenas cinco annos. N'este periodo de tres
annos de 1433 a 1436, ou pelo menos em parte d'elle, o architecto inglez
teve, como _vdor_ ou fiscal, Ferno Rodrigues, delegado regio.

Se este devia ser logicamente o systema, como o  na actualidade nas
grandes empreitadas do Estado, nada repugna ao espirito que o mesmo
facto se desse em epocha anterior com o architecto David Hacket e o
_vdor_ Affonso Domingues. Assim, ficaria explicado o apparecimento do
nome do segundo no documento de 1402, que infelizmente, ainda visto por
D. Francisco de S. Luiz, j hoje no existe.

Esta investigao  asss difficil e uma concluso, mais ou menos
segura, carece de ser fundada em argumentos e provas de outras ordens,
que em seguida procuraremos adduzir. Por emquanto, a nosso ver, a mais
provavel supposio reduz-se a estas proposies: que o plano do
Mosteiro da Batalha  de origem estrangeira, ingleza provavelmente, e
que o primeiro architecto, que delineou e comeou a realisar este plano,
no era nacional, mas tambem, segundo as maiores probabilidades, de
nao ingleza.

Se os argumentos de ordem historica nos levam a estas concluses,
vejamos agora onde nos conduzem outros argumentos e outras induces de
natureza architectonica.

As construces ogivaes, obedecendo  influencia do _meio_ particular
das naes, entre as quaes se desenvolveram, tomaram feies proprias em
cada uma, muito embora subordinadas s leis e aos caracteres geraes do
estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feies
especiaes, diriamos talvez mais nitidamente, as physionomias do ogival
allemo, francez e inglez so por tal frma definidas, que os grandes
entendedores da arte as distinguem com facilidade. A evoluo e a
decadencia do estylo no se manifestaram, tambem, em identicos periodos;
por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom estylo,
no offerecendo quasi o periodo de decadencia. Eis o que escrevemos a
proposito do Estylo Ogival e agora por applicavel repetimos.

No fim do seculo XIV, quando comeou a construco do Mosteiro da
Batalha, manifestava-se j certa decadencia na arte ogival do
continente, emquanto a ingleza era, ainda, pura e florescente.  certo
que, pelas suas condies geographicas e particulares, Portugal recebia
o influxo das artes um pouco em atrazo; devemos, pois, entrar em linha
de conta com este facto.

O estylo architectonico do Mosteiro da Batalha  de um ogival purissimo,
de perfeita unidade e harmonia nas linhas geraes, elegantissimo, sobrio
na ornamentao alis fina e distincta; em summa, traduz os melhores
caracteres da arte na mais florescente edade. Esta impresso resalta do
conjunto do monumento e do estudo das suas differentes partes.

Faremos notar, por exemplo, a extraordinaria e formosa viso
architectonica, permitta-se-nos a phrase, que, mais talvez do que em
nenhum outro ponto, o monumento produz, visto do canto do claustro
principal, no terrado junto ao pequeno pavilho da fonte. Jmais outros
grandes monumentos, dos que vimos, nos provocaram to profunda sensao
e sempre repetida; a no ser, talvez, a grande charola da Cathedral de
Milo.

A construco do Mosteiro da Batalha comeou, pois, quando no continente
o Estylo Ogival resvalava para a decadencia; pelo mesmo tempo,
erguiam-se em Sevilha e Milo duas enormes cathedraes de estylo bem
menos puro. Esta coincidencia da pureza architectonica do Mosteiro da
Batalha com a da arte ingleza parece-nos asss caracteristica; outras
rases ha, porm, que ainda mais apertam estas relaes.

Em assumpto to delicado procuremos a opinio de um mestre inglez, bem
conhecido historiador da arte. Ns no encontramos, tambem, em
Inglaterra, diz Hope, esses porticos profundos, cheios de estatuas e
encimados de grande rosaceas, que se vem nas Cathedraes de Strasburgo,
Reims, Pars, Chartres, Amiens e outros pontos. Apenas podemos formar
ida d'isto pela rosacea, relativamente insignificante, da egreja de
Exester. Por toda a parte--em Inglaterra--o portal e a rosacea so
substituidos por uma porta e uma janela sem proporo alguma entre si, a
porta sendo muito pequena e a janela muito grande.

No multiplicamos as citaes para evitar longa exposio e porque esta
nos parece caracteristica.

Olhando a fachada principal e a do sul do Mosteiro, porque a egreja est
orientada, como era costume, voltando a capella-mr para o oriente,
encontraremos realisada a regra do historiador inglez, principalmente na
ultima. Outras similhanas se manifestam nos caracteres do coroamento e
da ornamentao, que seria prolixo descrever. Alm d'isso, em todo o
edificio predominam as grandes janelas com maior ou menor numero de
maineis; s duas insignificantes rosaceas existem na casa do capitulo e
essas talvez no sejam primitivas.

Uma observao fizemos logo n'uma das nossas primeiras visitas ao
Mosteiro da Batalha, guiado, de certo, pelas presumpes e pelos factos
historicos, a que nos havemos mais tarde de referir; pareceu-nos que a
feio, a physionomia artistica do Mosteiro offerecia grandes analogias
com a da Cathedral de York, apesar das profundas differenas nas
respectivas linhas geraes.

Assim, foi com alguma surpreza e contentamento que se nos deparou,
depois, a seguinte opinio de Raczynski, cuja obra sobre as Artes em
Portugal  bem conhecida: logo que eu conheci, diz este sabio, a
soberba Egreja da Batalha pelas gravuras de Murphy, achei-lhe tal
analogia com a Cathedral de York, que no me restou duvida sobre a
origem commum d'estes edificios.

Ora, deve notar-se que este grande critico da arte no podia ter
presumpes fundadas, nem perfeito conhecimento dos factos historicos
portuguezes, que o levassem, como a ns, a ser bem guiado ou enganado
por elles. O testemunho , pois, valioso e insuspeito.

 tambem verdade que Murphy, o architecto inglez de quem j falmos e a
quem Raczynski se refere, no seu livro _Viagens em Portugal_, diz que
Falkenstein bibliothecario em Dresde, lhe escreveu: ser fra de duvida
que a maior parte das cathedraes ogivaes eram obra da inspirao de
architectos, ou pedreiros livres--_franco-maons_. Havendo, tambem,
acrescenta Murphy, recebido informaes de empregados dos archivos de
Lisboa, que lhe affirmaram ter sido um architecto inglez, chamado
Stephen Stephenson, o constructor do Mosteiro da Batalha.

Foi a Rainha D. Filippa, contina Murphy, filha do duque Joo de
Lencastre e neta de Eduardo III, de Inglaterra, quem deve ter tido maior
aco na escolha do architecto.  fra de duvida que Stephen Stephenson
fazia parte dos _free and accepted masons_, cujo centro em Inglaterra
era York--_grand-loge of free masons at York_. Esta observao
valiosissima podia ter guiado Raczynski; mas no seria sufficiente para
lhe formar a opinio das parecenas, visto que lhe faltavam outros
elementos.

A affirmao de Murphy pde ser contestada; d'ella se conclue, porm,
embora implicitamente, que o architecto inglez encontrra os caracteres
do Estylo Ogival da sua nao no Mosteiro da Batalha, alis no
acceitaria nem exporia as hypotheses apresentadas.

Por todas estas rases, parece-nos demonstrado que o estylo do Mosteiro
 do ogival inglez. Vejamos ainda se os factos historicos e as
respectivas datas, bem como outros argumentos, corroboram esta
concluso.

Em primeiro logar, a construco da Cathedral de York, levada a effeito
pelos _franco-maons_ da loja-mestra d'aquella cidade, comeou crca do
anno de 1245 e tinha terminados os principaes elementos, naves,
transepto, etc., etc., de 1291 a 1360. As obras do mosteiro da Batalha,
havendo sido iniciadas em 1387, permittem as datas no s a influencia
directa da Cathedral de York sobre o monumento portuguez, mas explicam
at esta influencia pela possibilidade de ter sido feito o plano
respectivo por architectos inglezes da loja-mestra dos _franco-maons_
d'aquella cidade, chamados depois a Portugal por D. Joo I para o
executarem.

Um facto muito secundario na apparencia parece-nos avigorar esta
presumpo. Alguns nomes portuguezes dos elementos architectonicos
ogivaes so perfeitas adulteraes das palavras correspondentes
inglezas, por exemplo: o _maynel_, ou pinazio das janelas, traduzido por
_mainel_, o _butress_ transformado em _botareos_, a _gargoil_ em
_gargula_. Estes termos, pelo menos, so de origem ingleza.

Assim tambem, nos tempos modernos, os operarios inglezes, que primeiro
trabalharam no caminho de ferro entre Lisboa e Porto, deixaram, entre
outros termos especiaes, os _rails_, carris, traduzidos pelo portuguez
popular em _ralhes_ e as _sleepers_, travessas, transformadas em
_chulipas_. A analogia tem aqui grande importancia e demonstra, a nosso
ver, que na primitiva construco do Mosteiro da Batalha trabalharam
operarios inglezes; ora, sendo inglezes, a logica leva-nos a suppor que
deviam ser de York, pertencentes  grande corporao _franco-maonica_,
que levantou a grande cathedral d'esta cidade.

Os factos da historia do tempo mais corroboram ainda esta fundada
presumpo.  impossivel fazer n'este ponto um quadro completo d'essa
phase historica nacional; por isso, citaremos apenas, apreciando-os e
comparando-os, alguns factos culminantes, que mais directamente
interessam o presente assumpto.

As nossas relaes com a Inglaterra eram ento muito intimas. N'esse
tempo, em que no existia representao diplomatica permanente, Portugal
tinha n'aquella nao dois embaixadores, cujos nomes a historia
conservou: D. Fernando Affonso de Albuquerque e Loureno Annes Fogaa.

Eduardo III, o pae do celebre _Principe Negro_, acabava de crear
condados para dois dos seus filhos, dando-lhes soberania quasi
independente: o de Leicester, para Joo de Gaunt, e o de York, para
Eduardo de Langley. Os condados eram limitrophes e no segundo
approximava-se do fim a construco da grande cathedral, que passa por
ser a melhor da Inglaterra e uma das melhores do mundo.

Sem entrarmos em outros pormenores, digamos que em comeos de 1386
chegaram a Portugal emissarios de Joo de Gaunt, duque de Leicester,
annunciando a sua chegada e pedindo navios. De facto, o duque
desembarcou na Corunha, em 25 de junho do mesmo anno. Em novembro
seguinte, n'uma conferencia realisada no Porto, ficou ajustado o
casamento de D. Joo I com D. Filippa de Lencaster, filha do duque
inglez. Assim, em fevereiro de 1387 realisou-se no Porto o casamento.

A frma, pela qual os factos se precipitam em tempos, em que as
communicaes eram difficeis, demonstra as relaes intimas e constantes
das duas crtes. , pois, natural que D. Joo I, informado pelo duque de
Leicester das magnificencias da Cathedral de York, cuja fama corria j
por toda a Inglaterra, lhe pedisse esses _celebres architectos e
officiaes de cantaria de longes terras_, de que fala Frei Luiz de Sousa.

Esta presumpo  logica e humana. Seria absolutamente impossivel suppor
que D. Joo I no falasse ao duque, seu futuro genro e auxiliar na
guerra, na batalha de Aljubarrota e no cumprimento do voto; como
impossivel , tambem, que a tal respeito o interlocutor no se referisse
 Cathedral de York.  muito provavel, portanto, haverem sido
encommendados os planos para Inglaterra, ou pedidos os architectos para
os fazer em Portugal, dirigindo depois a respectiva construco. A
proxima vinda para Portugal de Filippa de Lencaster facilitava esta
resoluo.

De certo, estes raciocinios s por si poderiam representar simples
coincidencias de datas; mas ponderados e cotejados com os restantes, j
desenvolvidos, assumem um caracter de plausibilidade de incontestavel
valor.

Ora, no existe duvida alguma em que architectos e operarios da
loja-mestra _franco-maonica_ de York foram os constructores da grande
cathedral; portanto,  rigorosamente logico e muito natural que a essa
corporao se fossem buscar os elementos para a construco do Mosteiro
da Batalha. A prova da cathedral ingleza, quando outra no houvesse,
daria nome e fama universal aos seus habeis constructores.

, alm d'isso, muito provavel que as associaes _franco-maconicas_
fossem empreiteiras, como existem sociedades modernas. Em qualquer
tempo, a eguaes necessidades sociaes correspondem instituies
similhantes, ou pelo menos equivalentes. Se assim no aconteceu,
manifesta-se ainda provavel que estas associaes _franco-maonicas_,
creadas tambem para defeza dos respectivos operarios de todas as ordens,
se garantissem por meio de contratos de trabalho. Qualquer d'estes
factos, ambos naturaes e logicos, explica a existencia do _vdor_, ou
fiscal das obras, Ferno Rodrigues, que vivia no tempo de D. Duarte.
Assim, ficaria egualmente fundamentada a nossa hypothese: Affonso
Domingues poderia muito bem ter sido o primeiro _vdor_ real das obras
do Mosteiro da Batalha.

De todos estes raciocinios e factos, expostos e comparados, resulta,
segundo pensamos, a plena convico de que o Mosteiro da Batalha, sendo
do Estylo Ogival inglez, foi planeado e construido por architectos e
operarios inglezes, que faziam parte da associao _franco-maonica_ da
grande-loja de York.


[Figura: CONVENTO DA BATALHA--Planta geral.

LEGENDA

PRIMEIRA EPOCHA

1 EGREJA.

2 CAPELLA DO FUNDADOR.

3 SACRISTIA.

4 THESOURO.

5 CLAUSTRO PRINCIPAL.

6 CASA DO CAPITULO.

7 PONTE OU LAVABO.

8 REFEITORIO.

9 COZINHA.

10 ADEGA E DISPENSA.

11 PORTARIA.

SEGUNDA EPOCHA

12 CLAUSTRO DE D. AFFONSO V.

TERCEIRA EPOCHA

13 VESTIBULO.

14 CAPELLAS IMPERFEITAS.]




CAPITULO TERCEIRO

AS EPOCHAS DA CONSTRUCO DO MOSTEIRO


Como dissemos em anterior capitulo, os edificios, constituindo o antigo
Convento da Ordem de S. Domingos, na Batalha, foram construidos em
epochas differentes. Depois da extinco das ordens religiosas, esteve o
Mosteiro completamente abandonado durante longos annos, caindo em ruinas
parte d'elle e soffrendo graves prejuizos a parte monumental, exposta 
aco do tempo e s grosseiras depredaes, praticadas pela ignorancia
popular.

Mais tarde, quando comearam com algum methodo e continuidade as obras
de conservao e restaurao dos edificios, uns foram arrasados como
inuteis, porque formavam as arruinadas pertenas do convento, e outros
para desaffrontar a parte monumental do Mosteiro. A planta geral, que
apresentamos, traduz o estado actual e definitivo d'estes edificios.

Em tres epochas muito proximas, quasi successivas, foram elles
construidos. Na planta procurmos distinguir estas epochas, dando tons
diversos s construces respectivas existentes. Assim, temos:

1.^a Epocha. Envolve, bem nitidamente definidos pelas intimas ligaes,
a capella sepulcral do fundador, a egreja, a sacristia, o claustro
principal, a casa do capitulo, a portaria, a adega, a cozinha e o
refeitorio.

2.^a Epocha. Comprehende actualmente o claustro de D. Affonso V e alguns
dos antigos annexos.

3.^a Epocha. Abrange, apenas, as chamadas _capellas imperfeitas_, que
mais rigorosamente se deveriam denominar _incompletas_, porque o nome
lhes vem de estarem ainda em grande parte por acabar, e o respectivo
vestibulo.

Da historia dos edificios da primeira epocha j nos occupmos nos
anteriores capitulos, por serem do monumento os que pertencem ao Estylo
Ogival. No ser, todavia, longa e escusada digresso, determo-nos um
pouco na apreciao dos edificios das outras epochas.

Os edificios da segunda epocha eram asss vulgares; apenas o claustro
chamado de D. Affonso V, cujo reinado durou de 1438 a 1481, offerece
algum valor architectonico.  do Estylo Ogival, muito espaoso e
simples, no manifestando ornamentao alguma, nem at nos proprios
capiteis das columnas prismaticas dos porticos. Apesar d'isso, as suas
linhas geraes so agradaveis, embora tenha de luctar com a proximidade
do bello claustro monumental. Sem duvida, foi construido para servir de
centro s pertenas do convento, que principalmente para elle abriam.

O Cardeal D. Francisco de S. Luiz admitte que a construco d'este
claustro se deve attribuir aos mestres Martin Vasques e Ferno de Evora.
O primeiro d'estes mestres, segundo o mesmo auctor, dirigiu as obras de
1438 a 1448. Como este claustro era o centro das pertenas conventuaes,
a respectiva construco deve ter acompanhado de perto a dos edificios
da primeira epocha.

Os edificios da terceira epocha reduzem-se s _capellas imperfeitas_ e
ao respectivo vestibulo, que so peas de elevado valor architectonico,
onde a primeira physionomia do Estylo da Renascena se desenha com
excessiva nitidez e se accentua,  medida que a ornamentao se
manifesta nas partes superiores do edificio, parecendo marcar-lhe varios
e successivos periodos de construco.

Julgamos indiscutivel que este conjunto  obra do reinado de D. Manuel,
que durou de 1495 a 1521. Assim, logo no interior do vestibulo, por
baixo das lindas janelas que o illuminam, uma ao norte outra ao sul,
v-se em logar superior o caracteristico _E_, letra do nome d'este rei,
Emmanuel, cercada de uns lavores, que por signal tem dado tratos 
imaginao dos archeologos pacientes, e por baixo as seguintes legendas
em caracteres romanos: _perfectum fuit anno domini 1509_. Ora,  mais do
que natural que as paredes do vestibulo crescessem simultanea e
parallelamente com a elevao das paredes das capellas.

O Cardeal D. Francisco de S. Luiz, que estudou o monumento, infere, no
sabemos com que criterio, que esta data corresponde  suspenso das
obras. Julgamos infundado este asserto. No  natural nem logico suppor
que a suspenso se dsse n'esse anno, quando D. Manuel no seu
testamento, feito em 1517, recommenda com a maior instancia ao seu
successor que as mande acabar.

N'este documento, com effeito, lem-se textualmente os seguintes
periodos: item, rogo muito e encomendo que se mandem acabar as Capellas
da Batalha naquella maneira que milhor parecer, que seja conforme 
outra obra e asy lhe dem entrada para a Igreja do Mosteiro da milhor
maneira que parecer, e mandem mudar para ellas, sendo primeiro de todo
acabadas, e asy seus Altares, e todas as outras cousas necessarias:
El-Rei Duarte, que foy o primeiro principiador dellas, e assy El-Rey D.
Affonso meu thio, e El-Rey D. Joo, que Deus aja, e o Principe D.
Affonso, meu sobrinho.

As phrases terminantes d'esta parte do testamento parece indicarem D.
Duarte como iniciador das obras, quer este principe tivesse apenas o
pensamento de construir um pantheon de familia, que D. Manuel depois
adoptou, quer lhe lanasse os fundamentos, sobre os quaes depois, e
muito mais tarde, comearam a crescer os edificios. Em nossa opinio s
a tanto se poderia ter alargado a iniciativa de D. Duarte, no s porque
o reinado d'este principe, de 1433 a 1438, foi curtissimo; mas ainda
porque em principios do seculo XV seria impossivel em qualquer parte,
principalmente em Portugal, o emprego do estylo d'estas capellas.

N'este tempo reinava o Estylo Ogival no seu estado de pureza, e a
evoluo da arte no manifestra ainda os primeiros symptomas da
renascena. Alm d'isso, a carta, anteriormente citada, de D. Duarte a
Ferno Rodrigues, vdor das obras do Mosteiro da Batalha, corrobora esta
presumpo. O principe no teria deixado de referir-se s obras das
capellas, sendo natural ter maior interesse pelas da sua propria
iniciativa. A construco devia, pois, estar parada e ter ainda pequena
importancia no principio do reinado de D. Manuel, se na realidade passou
de simples plano.

Todas estas presumpes so fortalecidas por outras rases, que
seguidamente vamos adduzir, muito embora no pretendamos alongar esta
exposio e fazer detida descripo d'esta parte do Mosteiro.

A grande porta das _capellas imperfeitas_  uma das melhores, das mais
ricas e bellas, se no a melhor que temos visto at hoje, fra e dentro
do paiz. Deve ser considerada incontestavelmente um primor de elegancia,
de ornamentao e de execuo; mas um architecto ogival no a poderia
ter creado, por maior genio e sciencia que possuisse. A potente
concepo do artista, fosse elle quem fosse, j estava fortemente
aquecida pela renascena e enthusiasmada pelas glorias das viagens
portuguezas ao Oriente. Sente-se, v-se isto n'aquellas pedras, quasi
cinzeladas.

Sem a pretenso de descrever, o que  indescriptivel sem o auxilio de
planos e desenhos minuciosos, diremos, apenas, que na face voltada para
o vestibulo, a de ornamentao mais sobria e pura, as molduras da porta
esto, de cima at abaixo, absolutamente cobertas de pequenos anneis
encadeados, em cujos espaos circulares se lem caracteristicas
legendas. No alto da porta, em dois grandes anneis similhantes, que a
fraca claridade do vestibulo mal deixa perceber, lem-se em caracteres
gothicos as palavras gregas: _pante taray_. Nos anneis mais pequenos
repete-se sempre outra legenda, tambem em grego: _tanyas erey_.

Sem falarmos nos erros orthographicos, que provem de se empregar muitas
vezes n'esse tempo o _y_ por _i_, estas legendas completam-se na
symbolica e imperativa phrase: _depressa por toda a parte descobre
regies_.  o grito da alma portugueza dos seculos XV e XVI que o
architecto deixou gravado na pedra do formoso monumento!

Na face voltada para o recinto das capellas, o estylo parece mudar de
physionomia. Os rendilhados assumem propores phantasticas. A pedra
parece trabalhada por joalheiros. A nossa memoria occorrem essas
filigranas delicadissimas, que a India e a China nos enviam, abertas em
sandalo e marfim!

Se  licito, deante de tal primor, lembrar defeitos, talvez seja esta
ornamentao, levada ao ultimo excesso de finura e riqueza, aquelle que
impressiona o nosso espirito, principalmente quando passamos
abruptamente do grande estylo, simples, puro e ideal dos edificios da
primeira epocha para os das _capellas imperfeitas_. Que nos perdoe o
poderoso e genial creador d'esta maravilha architectonica!

Ora, se  possivel duvidar de que as paredes do vestibulo crescessem
simultaneamente com as do recinto das _capellas imperfeitas_, duvida que
alis para ns no existe, seria um absurdo insustentavel fazer egual
supposio cerca da porta monumental, que d entrada _unica_ para este
recinto.

Devia ter um genio prophetico o architecto ogival, que em comeos do
seculo XV, durante o reinado de D. Duarte, projectasse esta porta
monumental de accentuada renascena, com indiscutiveis influencias
orientaes na ornamentao e nas legendas, excepcionalmente escriptas em
lingua grega!

No interior do recinto das capellas a physionomia do estylo muda
sensivelmente. At  altura das janelas em comeo, a influencia ogival
ainda  profunda; embacia-se mais, depois, accentuando-se os caracteres
da renascena. Por cima da magnifica porta, que acabamos de indicar, uma
bella janela accusa j fortemente a renascena italiana, que alis se
manifesta na ornamentao geral d'esta parte superior do edificio. Aos
espiritos um pouco versados na historia e nos caracteres dos estylos
occorre que algum tempo deve ter separado estas duas construces
sobrepostas, realisadas por architectos differentes[9].

De facto, parece que depois da interrupo da construco das _capellas
imperfeitas_, ainda no tempo de D. Manuel, as obras tiveram andamento.
Assim, D. Sebastio, para continuao dos trabalhos, mandou dar em 1574,
pela Casa da India, 400$000 ris annuaes, impostos sobre o contrato da
pimenta. J n'este tempo tinhamos addicionaes! Segundo consta, este
imposto pouco ou nada produziu; mas isto no prova que o mesmo rei no
concedesse outros fundos para esta construco, que lhe mereceu as
attenes. Depois, em 1591, Filippe I--o celebre _demonio do meio
dia_--mandou fazer o oramento, como se diria hoje, para terminao das
_capellas imperfeitas_; mas o dinheiro nunca chegou de Hespanha, onde
mal dava para a grandiosa obra da construco do Mosteiro de S.
Loureno, no Escurial.

Seja como for, a parte superior das _capellas imperfeitas_ pela feio
especial do seu estylo parece-nos de construco posterior  outra
parte, devendo datar dos meiados do seculo XVI.

Apesar do seu incontestavel valor architectonico, a elevao d'este
edificio, na situao onde se encontra, foi um grave e irremediavel
erro, que se tornaria monstruoso se a construco tivesse sido
finalisada e posto em directa communicao o pantheon dynastico com a
egreja primitiva, como D. Manuel indicava no seu testamento. Por esta
frma, as absides do templo ogival ficariam quasi sem luz e as
communicaes directas s podiam ser rasgadas, ou na abside central, a
capella-mr, ou nas duas absidiolas lateraes adjacentes, estragando
completamente a bella egreja ogival.

Ainda no estado actual as _capellas imperfeitas_ prejudicam muito a luz
das janelas inferiores das cinco absides do templo, principalmente das
tres comprehendidas no vestibulo, tirando-lhes os bellos effeitos dos
vitraes, atravessados pelos primeiros raios do sol nascente, to
procurados pelos architectos da edade media.

Pensar em demolir as _capellas imperfeitas_, dado o seu grande valor
historico e architectonico, constituiria um crime de lesa-arte; mas o
que poderia fazer-se com vantagem para ambos os monumentos, um ganhando
luz para as respectivas absides, outro para a soberba porta acima
descripta, seria demolir a abobada do vestibulo, deixando-lhe apenas as
paredes lateraes, onde existem, como dissemos, duas bellas janelas, que
devem ser respeitadas.

Eis em rapidos traos a summaria enumerao das construces da terceira
epocha. Se excede os quadros d'este livro, exige-a a descripo do
Mosteiro, que no ficaria completa, se a este trabalho por inopportuno
nos houvessemos poupado.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Crte longitudinal segundo o eixo da
Egreja]




CAPITULO QUARTO

DESCRIPO GERAL DOS EDIFICIOS DA PRIMEIRA EPOCHA

--Estylo Ogival--


Por ordem logica, deveriamos, talvez, comear pela descripo exterior
das fachadas do Mosteiro, porque estes elementos se apresentam primeiro
 nossa observao; todavia, alteramos esta ordem, visto ser impossivel
bem avaliar e estudar uma construco, sem previamente haver formado
clara ida das disposies geraes da respectiva planta.


I

Plano geral dos edificios ogivaes

_Egreja_. Est orientada, como era costume, na direco leste-oeste,
correspondendo a porta da fachada principal ao poente e abrindo as
bellas janelas das cinco absides sobre o oriente, d'onde o templo devia
receber a primeira luz radiante da madrugada, atravez dos vitraes
polychromicos. A absurda escolha do local para a construco das
_capellas imperfeitas_ inutilisa, em grande parte e sem remedio, este
effeito poetico, procurado em quasi todas as cathedraes romanicas e
ogivaes.

A egreja tem tres naves, apenas; a do centro, mais larga e elevada do
que as outras, termina pela abside principal, tambem de maior altura e
comprimento do que as quatro absidiolas, duas de cada lado,
correspondendo as confinantes com a nave central s naves lateraes, e as
extremas vencendo o excesso de comprimento do transepto sobre a largura
das tres naves. Dada esta disposio, no existe charola. Assim, a nave
central, prolongada pela respectiva abside e cortada pelo transepto,
desenha uma elegante cruz latina. No extremo sul do transepto abre-se
outra porta para a egreja; esta porta, e a da fachada principal, so as
unicas que de fra a servem. Em poucas palavras eis a descripo da
elegantissima planta do templo.

A egreja  pequena, j o dissemos; mas to pura de estylo que a pequenez
no lhe sacrifica a majestade. Para formar idea das suas dimenses,
apresentamol-as comparadas com as das Cathedraes de Milo e de Sevilha,
colossos de cinco grandes naves do Estylo Ogival.


                                            Milo  Sevilha  Batalha
                                              m       m        m
    Comprimento da porta ao fim da abside    148     140     81,18
    Largura de todas as naves                 57      77     21,97
    Comprimento do transepto                  87      77     36,12
    Largura do transepto                      19      16      9,48
    Nave central { Altura                     46      40     27,73
                 { Largura                    19      16      9,48


[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Crte transversal da Egreja segundo o eixo
do transepte]


N'estas dimenses devemos observar a relao da largura para a altura
das naves centraes. Na Egreja da Batalha esta relao  representada por
1:2,9, emquanto na Cathedral de Milo attinge apenas 1:2,4 e 1:2,50 na
de Sevilha. Differenas similhantes se devem dar nas naves lateraes; por
isso, a expresso de elegancia do edificio portuguez  bem superior s
dos monumentos italiano e hespanhol.

As naves lateraes so illuminadas por sete janelas, das quaes duas na do
sul mais pequenas, porque ficam em parte inutilisadas pela capella do
fundador. So elegantissimas e correspondem aos vos interiores das
arcadas da egreja. A nave principal recebe, tambem, luz de cada lado,
por sete janelas do _clerestory_, verdadeiras reduces das anteriores,
abrindo sobre os terraos das naves lateraes, entre os arcobotantes que
amparam o corpo mais elevado do centro.

Estas disposies sero facilmente comprehensiveis estudando e
comparando as pequenas gravuras correspondentes ao corte longitudinal,
segundo o eixo da egreja, ao transversal, segundo o eixo do transepto e
finalmente ao do claustro principal[10].

Por cima da porta principal, uma grande janela maior do que o vo d'esta
porta, fechada por finissimos rendilhados de pedra, derrama luz suave e
multicolor ao longo da nave central. O transepto recebe luz de quatro
janelas, rasgadas sobre as absidiolas e ainda de outra sobre a porta do
extremo sul do mesmo transepto; janela enorme, de dimenses bem
superiores s da porta, com tympano de quadrifolios sustentado por dois
maineis, entre os quaes existe um tecido de pedra aberto em lozangos. Em
geral, na ornamentao dos tympanos das janelas predominam os
quadrifolios. Insistimos na descripo para darmos ida da feio
caracteristica do ogival inglez, que se manifesta por toda a parte na
Egreja da Batalha[11].

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Crte do Claustro principal]

_Capella do fundador._ Seguindo a planta, ao entrar na egreja  direita,
depara-se-nos esta capella de frma quadrada, tendo 20^{m},1 de lado,
juxtaposta  nave do sul, de que inutilisa parte de duas janelas. O
conjunto d'este pequeno edificio  de um encanto grandioso, apesar das
dimenses. O recinto  illuminado profusamente por tres janelas em cada
uma das paredes livres, a do centro magnifica, com sete maineis
sustentando um grande tympano, as lateraes de tres maineis. Arcocelios
de puro estylo, encostados ao lado sul da capella, cobrem os sarcophagos
dos infantes filhos de D. Joo I e de D. Filippa, cujos restos foram
tambem recolhidos n'outro grande e bello sarcophago, isolado no meio da
capella entre os arcos de um elevado zimborio, ou torre.

Levanta-se esta construco sobre oito arcos, formando um octogono de
5^m de lado. Estas arcadas sobem e sobre ellas e as paredes lateraes
assentam as abobadas da parte rectangular da capella; depois, as
respectivas paredes crescem, formando exteriormente uma torre octogona,
amparada por arcobotantes, tendo em cada uma das faces uma janela. 
admiravel o effeito d'este mausoleo, quer no interior, quer no exterior,
verdadeira obra prima no genero. Constitue uma creao esthetica to
feliz no exito, que, ainda visto muitas vezes, causa sempre agradavel
impresso.

_Sacristia._ Da absidiola do norte passa-se para este recinto, tendo
11^{m},95 por 9^{m},47, que nada envolve importante a no ser as duas
respectivas janelas conjugadas, viradas ao nascente. Para a sacristia
abre a pequena casa do _thesouro_.

_Claustro principal._ Encosta-se  nave lateral do norte; mas os
porticos no lhe mascaram as janelas, que abrem sobre os terraos d'este
claustro. Os porticos so, pois, baixos e no affrontam o corpo da
egreja; pelo contrario, completam-n'o, dando-lhe o realce de varios
planos. Este magnifico claustro, tendo 55^{m},3 de lado,  formado de
grandes arcos, encastrados entre fortes botareos, com tympanos
rendilhados repousando sobre cinco finos columnellos; produz um effeito
deslumbrante. Sob um pavilho, tendo paredes communs com o claustro, no
angulo sudoeste, existe o lavabo, ou a fonte, a que indubitavelmente se
refere a carta citada de D. Duarte. N'este ponto gosa-se de um dos mais
bellos golpes de vista, que offerece o Mosteiro.

_Casa do capitulo._ No portico oriental do claustro depara-se com a
entrada d'este edificio, uma grande porta, ladeada por janelas, uma de
cada lado, manifestando tudo extraordinaria belleza nas linhas geraes e
na ornamentao. A sala forma um quadrado perfeito de 19^{m},95 de lado.
 coberta por um s vo de abobada de extrema elegancia, ricamente
artezonada e com enorme bocete. Esta abobada, cuja gerao  um pouco
complexa, constitue uma especie de cupula, dando em projeco horisontal
uma estrella de seis raios. Nos cantos da sala os artezes nascem de
misulas; nas paredes, firmam-se em columnellos, que descem ao pavimento.
Em verdade,  uma das abobadas mais bellas e bem lanadas que temos
visto. Alm d'isso, distingue-se pela admiravel perfeio do trabalho;
observao que devemos em rigor applicar a todas as obras ogivaes do
Mosteiro da Batalha.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Portico sul do Claustro principal]

cerca da construco d'esta abobada, considerada muito difficil, correm
varias lendas.  certo que a abobada  bastante abatida; no nos parece,
porm, que a difficuldade extrema da construco seja o caracter que
mais a recommenda. Bem mais difficil julgamos ser a construco de uma
abobada unica, como a que por exemplo cobre o extenso transepto da
Egreja do Mosteiro dos Jeronymos, em Belem.

Em frente da porta da entrada d'esta sala, uma grande janela com
vitraes, talvez os mais antigos e melhores do Mosteiro, d luz ao
recinto. Tambem se vem por cima das janelas, que ladeiam a porta, duas
pequenas rosaceas. So as unicas, alis bem insignificantes, que se
encontram em todo o Mosteiro, onde reinam exclusivamente as janelas de
formas elegantissimas, algumas vezes simples, em geral divididas por
maineis.

_Refeitorio._ Communica com o portico occidental do claustro real. Nada
tem notavel;  apenas uma grande sala de 27^{m},3 por 9^{m},7,
abobadada, bastante feia e abaixo do valor architectonico do resto do
edificio.

_Cosinha._ Em communicao directa com o refeitorio existe a cosinha,
tendo 10^{m},17 por 9^{m},34, que por cousa alguma se recommenda.

_Adega, e dispensa._ Este edificio abobadado, tendo 37^{m},36 por
9^{m},34, corre ao longo do portico norte do claustro principal, para
onde abre apenas por tres frestas.

_Portaria._  uma grande sala, tendo 12^{m},08 por 9^{m},34. Servia de
aula para as lies, que os frades davam a estudantes seculares.

Eis a succinta descripo do plano geral do Mosteiro, na parte que se
refere aos edificios da primeira epoca, os ogivaes. Quizemos dar uma
ida do conjunto e das disposies relativas, para acompanhar a planta
geral e as gravuras, que, segundo pensamos, muito esclarecem e completam
a descripo.


II

Descripo das fachadas

Descrevamos agora succintamente o exterior do edificio, limitando-nos s
linhas mais geraes. A fachada principal, que olha para o occidente, 
formada por tres corpos diversos: o da egreja, ladeado ao sul pelo da
capella do fundador e ao norte pelo do refeitorio. Os dois primeiros
esto no mesmo alinhamento, o terceiro avana sobre este alinhamento a
respectiva largura.

_Fachada principal._ No  ornada de torres. Pertence  categoria das
construces, de que so exemplo as Cathedraes de Sevilha e de Milo.
Assim, tambem n'esta fachada se notam, perfeitamente marcadas por
botareos encimados de pinaculos, tres divises verticaes: a do centro
correspondendo  nave principal, e as lateraes s naves secundarias.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Fachada principal]

A diviso central, de cerca de 30 metros de altura, excede n'um tero
approximadamente as divises lateraes. Comprehende o unico portal,
sobrepujado por uma grande janela coroada por elegante platibanda. As
divises lateraes apenas teem as janelas, que illuminam as respectivas
naves. Assim, nas linhas geraes, a fachada define com nitidez as
dimenses e as disposies internas da egreja.

Na diviso central, o portal pouco profundo, de molduras ogivaes
embocetadas e decrescentes, repousando sobre columnellos eguaes, termina
no vo da porta, ornada de tympano de pedra. A parede d'esta diviso da
fachada cresce sobre o portal e quasi a dois teros da altura cessa,
deixando estreita passagem, resguardada por uma platibanda, em frente da
grande janela, que d luz  nave principal. Esta passagem liga entre si
os terraos das naves lateraes. O corpo medio da egreja, mais elevado do
que os colateraes,  amparado por arcobotantes, dos quaes os mais
proximos da fachada so mais rendilhados e leves.

A ornamentao  de extrema sobriedade. Por cima do portal e da janela,
altas e estreitas arcaturas--melhor lhe chamariamos talvez caixilhos ou
almofadas--cujo lavor pouco sobresae da silharia da parede, parece
sustentarem uma faixa de gales tecidos em losangos. As platibandas do
edificio offerecem frmas quadrilobadas, repousando sobre cornijas
sustentadas por pequenos modilhes ogivaes. Os botareos centraes da
fachada so ornados de caixilhos ou almofadas, a partir de certa altura.

A simplicidade da ornamentao, despretenciosa e pura,  encantadora e
traduz no emprego geral das arcaturas principalmente e dos caixilhos,
bem como na relao das portas e das janelas e na ausencia de rosaceas,
os caracteres do ogival inglez, apontados por Hope, na citao
anteriormente feita[12].

_Fachada da capella do fundador._  ainda de maior simplicidade. A parte
quadrada inferior est dividida por quatro botareos, em cujos vos se
rasgam tres janelas. Dos botareos centraes partem arcobotantes, que
terminam proximo das cabeas de outros oito botareos, revestindo os
angulos da torre octogonal; a cada intervallo corresponde uma das oito
respectivas janelas. A ornamentao, muito sobria e do caracter da
anterior fachada, resume-se nas platibandas, desacompanhadas de
arcaturas. A torre central foi coroada por um grande corucheo. Pena 
que a restaurao do Mosteiro no abrangesse at hoje este importante
complemento, que tanto engrandeceria a fachada principal.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Portal do sul]

_Fachada do refeitorio._ Por um muro curto e liso, apenas encimado pela
platibanda j descripta, muro que corresponde a uma pequena extenso do
claustro principal, liga-se a fachada simplicissima do refeitorio e da
cozinha com a da egreja.  um edificio longo, dividido por nove
botareos, entre os quaes se abrem janelas ou frestas, seis do refeitorio
e duas da cozinha. So de verga inteira, sem ornamentao alguma.
Platibanda similhante  do resto do edificio cora tambem esta
construco.

Como se v, o conjunto das fachadas, offerecendo original simplicidade,
 muito sobrio nas linhas geraes e mais ainda na ornamentao, em nada
parecida com as disposies complicadas de outras construces ogivaes,
principalmente de caracter francez e allemo. Seria isto ainda um
indicio, se necessario fosse, da origem do estylo do Mosteiro da
Batalha.

_Fachada sul._ Desenham-se as duas naves, a lateral com as janelas sobre
parede lisa: as duas primeiras mascaradas em parte pela capella do
fundador. A nave central v-se por cima, guarnecida de botareos,
sustentados por arcobotantes, encastrando as respectivas janelas do
_clerestory_.

Na parte correspondente ao transepto, outro portal, mais simples do que
o primeiro, constitue a segunda entrada da egreja, tendo por cima a
grande janela que anteriormente descrevemos. Na desproporo dos
respectivos vos mais se accentua, ainda, a observao de Hope sobre o
ogival inglez. Seguem-se as absides com estreitas janelas e, encostada
ao fundo d'essas absides, a construco das _capellas imperfeitas_.

_Fachada norte._ A este lado da egreja est encostado o claustro. A
disposio d'esta fachada  em tudo similhante  precedente, salvo a
elegante torre do relogio, coroada de fina e rendilhada agulha.

O crte do edificio pelo claustro, gravura anteriormente apresentada,
completa a descripo das mais importantes fachadas, porque as restantes
se acham, em parte ou no todo, mascaradas pelas _capellas imperfeitas_ e
pelos edificios do antigo convento, ainda hoje existentes.


III

A ornamentao architectonica do Mosteiro

A grande arte traduz-se nas linhas geraes, que a ornamentao deve
acompanhar, realando-as apenas, sem lhes prejudicar a pureza e as
elevadas qualidades essenciaes. O excesso de ornatos constitue, em
geral, grave symptoma de decadencia na arte ou falta de genio nos
artistas.

Assim, uma das frmas fundamentaes da belleza  incontestavelmente o
corpo humano; ora, a suprema expresso d'esta unidade esthetica consiste
em o representar em completa nudez. A grande difficuldade est
incontestavelmente em realisal-o.

Os artistas gregos, os geniaes creadores da mais perfeita esculptura do
corpo humano, em que at hoje no tiveram seno bem raros competidores,
descobriram esta lei do bello e enunciaram-n'a em milhares de creaes,
algumas das quaes, que resistiram  aco destruidora do tempo e dos
homens, so ainda hoje causa de sincera e profunda admirao. Eis por
que elles representavam quasi sempre Venus e Apollo, symbolos da belleza
humana, em perfeito estado de nudez; e quando excepcionalmente lhes
envolveram os corpos em leves estofos, a ornamentao contribuia para
avigorar e realar a perfeio das frmas e das carnes nuas.

Uma das mais formosas estatuas classicas, semi-vestidas, ainda
existente, a Venus Callipygia do Museu de Napoles, arregaa com a mo
esquerda a fina e leve tunica, deixando ver as linhas mais puras e
suaves do corpo humano, traduzidas admiravelmente no antigo marmore de
Paros, a que os seculos deram quasi o tom avelludado e quente de uma
carnadura viva e palpitante. A casta Diana, a sabia e guerreira Minerva
no fogem a esta regra. Uma das melhores estatuas da Galeria Chiaramonti
no Vaticano, Diana contemplando Eudymion adormecido, veste o _peplum_
to cingido, que por baixo d'elle se desenha o bello torso; a tunica
roagante  to fina e sedosa, que atravez do estofo transparente se
vem as frmas delicadas e perfeitas da casta deusa.

Assim, na esculptura como na architectura, o genio grego demonstrou que
nas linhas geraes reside a suprema belleza, no sendo a ornamentao
mais do que um accessorio, que, longe de as abafar e deturpar, deve pelo
contrario contribuir para as engrandecer e realar. A simplicidade, a
pureza e a harmonia da ornamentao so, pois, qualidades indispensaveis
dos grandes estylos da arte[13].

Os primitivos architectos ogivaes do Mosteiro da Batalha executaram esta
lei esthetica com verdadeiros rasgos de genio. Assim, em edificio algum
do mesmo estylo, dos muitos que temos visto, a harmonia e a pureza das
linhas geraes tocam o grau da perfeio, attingido no monumento
portuguez; nem  possivel encontrar segundo, entre os de correspondente
importancia, to sobrio e puro na ornamentao. Estas qualidades
excepcionaes so exactamente as que originam o seu incontestavel e
elevado valor artistico. A harmonia architectonica entre as linhas
geraes e a ornamentao  to intima e perfeita, que, ao primeiro golpe
de vista, o monumento portuguez produz a impresso profunda de uma
unidade esthetica.

 muito difficil, se no impossivel, com simples palavras definir
impresses. Certos movimentos do espirito so comprehensiveis, porque,
nascendo da propria essencia da alma, todos os possuimos e os sentimos
em maior ou menor escala. A no ser isto, tornar-se-iam muitas vezes
enigmaticos, visto que a linguagem humana, perfeita para a enunciao de
idas,  um instrumento incompleto, quando pretende definir a intima e
profunda natureza das sensaes e dos sentimentos. Assim, esta expresso
_unidade esthetica_ poder parecer obscura aos que no tenham larga
cultura intellectual, ou pelo menos no possuam poderosas faculdades
artisticas.

A nossa experiencia tem-nos demonstrado que em taes casos uma simples
comparao vale mais do que longas e didacticas dissertaes. Evoquemos
do passado de vinte e cinco seculos uma mulher d'essa belleza singular,
que serviu de modelo aos maiores esculptores da Grecia; vistamol-a,
depois, de qualquer frma. Ficar sempre uma mulher formosa. Mas o
penteado elegante e alto, o _peplum_ afivelado nos hombros ns, caindo
sobre a tunica leve e roagante, emfim, esse vestuario que o genio grego
creou para as linhas geraes da belleza jonica, far da mulher formosa
uma _unidade esthetica_.

Assim, o Mosteiro da Batalha produz-nos a impresso encantadora das
mulheres virgens, honestas e formosas, ornadas com essa extrema e
elegante simplicidade, que  o reflexo exterior e harmonico de um puro
estado da alma.

J falmos das fachadas do Mosteiro; bem longe estamos d'esses enormes
porticos profundos de caprichosa ornamentao, coroados de grandes
rosaceas, e ladeados de torres immensas, cujas agulhas finas e
rendilhadas parece tocarem as mais altas nuvens. O Mosteiro da Batalha
no offerece esta rica ornamentao. Nem torres, com flechas arrojadas,
nem profundos porticos guarnecidos de grandes esculpturas de
phantasticas e mysticas personagens, possue o modesto e singelo
monumento!

A Cathedral de Milo  povoada por 6:000 estatuas de todas as grandezas,
dispersas pela vasta construco em nichos de ricos e variadas frmas. O
Mosteiro da Batalha tem apenas as doze estatuetas do portico; em mais
parte alguma se v outra estatua, ou um nicho deserto espera ainda a
obra do esculptor!

O interior da egreja , tambem, de absoluta simplicidade. A ornamentao
limita-se aos pontos, onde era indispensavel: aos capiteis das columnas,
aos tecidos das janelas e, por excepo, aos lambrequins de pedra que
guarnecem o intradorso dos arcos das absides.

Os feixes de columnellos, de extrema elegancia e delicadeza, que
revestem os pilares das naves, sobem a grande altura e ramificam-se nas
abobadas, abrindo-se em simples rede de nervuras singelas. A Cathedral
de Sevilha, no vastissimo cruzeiro e nos primeiros vos das naves, a de
Milo, em toda a extenso da grande nave, offerecem as abobadas
recamadas de verdadeiras rendas de pedra, entre os meandros de
complicadas nervuras.

As paredes nuas do templo, emolduradas pelos arcos e pelos columnellos,
crescem de baixo at acima sem o mais simples ornamento, sem a mais
ligeira moldura; n'essas superficies immensas brilham, apenas, as
janelas de excellentes propores, como refulgem os grandes diamantes,
encastoados em velha prata oxidada. A Egreja da Batalha possue a belleza
ideal das suas linhas geraes, a perfeio innegavel da construco e a
cr de velho marfim, que os seculos deram  antiga pedra. Mais nada.

Em todo o Mosteiro reina egual simplicidade. Na capella do fundador,
cujas disposies elegantissimas j tentmos descrever, a ornamentao 
um pouco mais rica nos lambrequins dos arcos da cupula interna. No
falaremos no tumulo de D. Joo I e D. Filippa e nos bellos arcocelios
dos tumulos dos infantes seus filhos, porque na realidade no constituem
verdadeiros elementos de ornamentao architectonica.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Janela do Claustro principal]

No claustro principal pde dizer-se que toda a ornamentao se concentra
tambem nos pontos onde era indispensavel: nos grandes tecidos dos arcos
dos porticos, na porta e nas janelas da casa do capitulo e no pequeno
pavilho do lavabo, que existe proximo do refeitorio.

Os tympanos dos arcos do claustro, sustentados por finos columnellos,
so em geral magnificos. Apresentamos a gravura de dois arcos: um
servindo de porta, outro de janela. Em ambos, principalmente, no
segundo, ha vestigios e caracteres evidentes de renascena manuelina.

A porta e as janelas da casa do capitulo so excellentes. Na gravura do
portico oriental do claustro podem distinguir-se com certa nitidez estes
elementos. Do interior d'esta bella sala j falmos precedentemente.

O pequeno pavilho da fonte, ou lavabo,  talvez o ponto do Mosteiro
onde os architectos empregaram mais rica ornamentao, cujo caracter
melhor se comprehende pela inspeco da respectiva gravura, o que no
conseguiriamos em larga descripo.

Se da ornamentao das fachadas e do interior dos edificios passamos
para a dos coroamentos, a lei da simplicidade e da harmonia no soffre
excepo. _Parecem guarnecidos de renda ingleza_, disse-nos um dia
alguem, expressando perfeitamente a impresso, que elles produzem, pela
figura que melhor se adequava s tendencias e aos habitos do proprio
sexo.

De facto, os coroamentos dos edificios, formando grandes linhas
horisontaes em diversos planos, so contornados por largas fachas
rendilhadas, verdadeiras platibandas, em geral de espao em espao
divididas por pilastras lisas, encimadas de pequenos pinaculos. Damos o
desenho de um motivo asss frequente. O parapeito  guarnecido de um
bello entrelaado, onde predomina a flor de lyz; o corpo da platibanda,
de evidentes quadrilobulos, assenta sobre uma cornija, sustentada por
modilhes arqueados.

[Figura]

Este desenho pde considerar-se o _leit-motiv_ da bella symphonia
ornamental dos coroamentos dos edificios. Por toda a parte foi o fio
conductor, que dirigiu e deu unidade  inspirao do architecto. As
frmas variam, de certo, um pouco; mas, quasi sem excepo, ha sempre em
todas a aco e a reminiscencia do trecho inicial.

Alm d'esta ornamentao nada mais tem hoje os edificios seno dois
pinaculos mais elevados e a agulha, se tal nome merece o elegante e
rendilhado corucheo da pequena torre do relogio. N'outro tempo, a
capella do fundador foi, tambem, coberta por outro corucheo mais
consideravel, ignorando ns as rases do seu desapparecimento. Julgamos
que este importante elemento architectonico deve ser reconstruido, como
o exige a linha geral da fachada do Mosteiro, que assim ficaria muito
mais completa e majestosa[14].

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Porta do Claustro principal]

As tendencias horisontaes dos coroamentos, dispostos em planos no muito
differentes, a ausencia quasi completa dos elementos verticaes de grande
altura do ao conjunto do Mosteiro uma frma acastellada, muito
caracteristica do ogival inglez, que manifesta fortemente, por exemplo,
a Cathedral de York.

Este facto seria ainda mais um indicio, se necessario fosse, da origem
architectonica do monumento portuguez. A impresso , sobretudo, bem
definida vendo ao longe o desenho das suas grandes linhas em noite clara
de estrellas, ou de pouco luar; ora, este effeito cresceria de
intensidade, se o edificio ogival fosse construido em logar elevado, em
vez de occupar um pequeno e fundo valle.

No se supponha que esta impresso possa provir da elevao do monumento
sobre as edificaes proximas, ou do tom escuro da grande molle
desenhando-se mysteriosa e solemnemente nas semi-trevas da noute. Bem
maior e mais alta  a Cathedral de Sevilha, tambem desprovida de grandes
e numerosos elementos verticaes, e o seu enorme contorno no produz
egual impresso. Emquanto  Cathedral de Milo o effeito nocturno 
surprehendente; mas de natureza bem diversa, diremos mais, perfeitamente
caracteristica e propria d'aquelle admiravel colosso.

Sempre que nos foi possivel, no deixmos de ver os grandes monumentos
nas semi-trevas da noite, ou  luz do luar. No procuramos s o effeito
poetico, ainda que esse  um dos fins das artes plasticas. A physionomia
dos antigos monumentos toma na penumbra da noite uma grandeza especial;
fala mais ao sentimento, que tambem  origem de idas e excellente
mnemonica.

Assim, a impresso sentimental do Mosteiro da Batalha, principalmente do
claustro,  luz de um luar claro, no se oblitera da memoria; como
jmais esquece o effeito d'esse gigante ogival de Milo, visto de longe
 claridade suave do incomparavel luar de Italia.

Milo estende-se sobre vasta planicie d'esse fertil terreno de alluvio,
de que  formada quasi toda a Lombardia. Do corao da cidade irrompe a
grande molle da Cathedral, dominando tudo em volta de si, elevando-se,
montanha de marmore branco, com as frmas phantasticas e caprichosas de
um enorme _iceberg_ dos mares septentrionaes. Pelo silencio da noite o
monumento parece velar o somno da cidade, protege-a e fala-lhe quando o
enorme sino do relogio, collocado no alto da grande torre, marca
solemnemente as horas com graves sons, fortes, avelludados e severos,
que parece encherem o espao entre os Alpes e os Apenninos.

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Portico oriental do Claustro principal]

Tornando ao Mosteiro da Batalha, devemos concluir dizendo que o pobre
monumento portuguez no possue ricos vitraes, essa ornamentao to
bella e caracteristica dos tempos medievaes.  certo que Mousinho de
Albuquerque, a quem j nos referimos, comeou a restaurao methodica
dos antigos vitraes, que na maior parte encontrou partidos. Este
trabalho tem sido continuado com algum exito; mas bem merecia o
monumento obra mais completa e perfeita.

Da ornamentao subsidiaria dos grandes monumentos religiosos, nada
existe; nem um simples orgo, que daria  bella egreja esse mystico
encanto da musica religiosa.

Assim, temos descripto o Mosteiro da Batalha no com a inteno de lhe
fazer completa monographia, porque esse trabalho exigiria propores na
descripo, nos planos e nas gravuras bem superiores  do presente
livro, mas com o simples fim de darmos, quanto nos foi possivel,
exemplos nacionaes dos estylos architectonicos.

Quizemos escrever um livro portuguez, feito exclusiva e completamente em
Portugal; tel-o-emos conseguido?...

[Figura: MOSTEIRO DA BATALHA--Fonte]




CAPITULO QUINTO

RELAO DOS ARCHITECTOS E MESTRES


Ainda julgamos ser util dar noticia dos nomes dos mestres e architectos,
que em differentes epocas dirigiram as obras do Mosteiro da Batalha;
nomes citados em documentos, dos quaes hoje muitos se devem considerar
perdidos. Esta simples e incompleta enumerao poder talvez servir para
guiar futuras investigaes sobre o Mosteiro da Batalha.

_Affonso Domingues._ Apparecia em documento de 1402, que o dava j por
fallecido. Como a construco comeou em 1387,  muito provavel que
fosse um dos primeiros architectos do Mosteiro, se foi architecto.
Segundo a nossa opinio, expendida n'um dos anteriores capitulos,
Affonso Domingues foi o primeiro _vedor_ real das construces.

_Mestre Ouguet_, _Huet_ ou _Huguet_. Apparecia como testemunha, no
citado documento de 1402. Depois, documentos de 1450 e 1451 davam-n'o j
como fallecido. D. Francisco de S. Luiz affirma que bem pde ser este
mestre o Aquete, de que falla a tradio. Raczynski concorda com esta
opinio. Emquanto a ns, parece-nos que esta hypothese  forada, porque
o nome inglez sonicamente correspondente  Hewett e no Hacket. D.
Duarte em 1433 fez doao a este mestre de umas casas, que ficavam perto
do Mosteiro; portanto elle vivia ainda pelo menos n'este anno. Talvez a
casa doada fosse uma destruida ha poucos annos, sendo vendida por baixo
preo a ultima e bella janela antiga.

_Martin Vasques._ Apparecia em documentos de 1450 e 1451, dando-o j
como fallecido. D. Francisco de S. Luiz colloca-o entre os successivos
mestres do Mosteiro, desde 1438 a 1448, anno em que morreu, suppondo,
ignoramos com que fundamento, que este mestre e o seguinte foram os
constructores do segundo claustro, denominado de D. Affonso V.

_Ferno de Evora._ Era sobrinho do precedente mestre. Vinha mencionado
em documentos de 1448 a 1473.

_Mestre Guilherme._ Por morte de Ferno d'Evora, foi nomeado mestre do
Mosteiro por D. Affonso V em 21 de outubro de 1477. (Sousa Viterbo,
_Diccionario_).

_Matheus Fernandes._ Era mestre do Mosteiro, quando em 1480 D. Affonso V
lhe tirou o cargo para o dar a Joo Rodrigues, cuja competencia declara
superior.

O Sr. Sousa Viterbo pergunta se ser outro Matheus Fernandes, alem dos
dois seguintes, ou se o architecto, cado em desgraa, se rehabilitou
depois? Parece-nos mais provavel a primeira hypothese.

_Joo Rodrigues._ Nomeado em 1480 mestre do Mosteiro por destituio do
antecedente. Deve notar-se que j em 1490 era mestre do Mosteiro o
seguinte Matheus Fernandes. (Sousa Viterbo, _Diccionario_).

_Joo da Arruda._ Em 1485, sendo mestre do Mosteiro, foi mandado a Beja
por D. Joo II para avaliar certas propriedades. (Sousa Viterbo,
_Diccionario_).

_Matheus Fernandes._ Um documento de 1503 falava d'este mestre, dizendo:
o muito honrado Matheus Fernandes, vassalo de El-rei, juiz ordinario na
villa do Mosteiro de Santa Maria da Victoria e mestre de obras do dito
Mosteiro, por El-rei Nosso Senhor. Em documento de 1497 falava-se em
Margarida Fernandes, sua filha, o que leva a crer que o pae j era
mestre de obras do Mosteiro n'esse anno.  entrada da egreja da Batalha,
descendo os degraus da porta principal pode lr-se ainda o seguinte
epitaphio: Aqui jaz Matheus Fernandes, mestre que foi d'estas obras, e
sua mulher Izabel Guilhelme e levou-o Nosso Senhor aos 10 dias de abril
de 1515, ella levou-a... A ultima data no foi gravada.

D'aqui se pde concluir que Matheus Fernandes foi mestre de obras do
Mosteiro, desde o principio do reinado de D. Manuel at 1515; ora, como
n'esse periodo a construco das capellas imperfeitas foi muito activa,
pde, com bastante plausibilidade, attribuir-se-lhe o respectivo plano.
Sua mulher Isabel Guilhelme  provavelmente irm ou filha de Guilhelme
Belles, ou Belen, mestre vidraceiro que vivia de 1448 a 1473, ou do
precedente mestre Guilhelme, architecto.

_Matheus Fernandes_ (filho). Succedeu ao pae em 1516. Em documento de
1525, apparecia o nome d'este mestre, dando-o vivo; logo no podia ser o
precedente, devendo ser naturalmente seu filho. O nome d'este mestre no
se encontrava em mais documento algum; d'onde D. Francisco de S. Luiz
conclue que foi afastado para outra obra.

_Boutaca_ ou _Boytaca_. Apparecia em documento de 1509, como cavalleiro
fidalgo da casa de El-rei; era tambem citado em documentos de 1512, 1514
e 1519. D. Francisco de S. Luiz d-o como fallecido em 1528. Raczynski,
sem citar auctoridades, affirma que este mestre italiano foi o
constructor do Mosteiro dos Jeronymos em Belem. Varnhagen, em artigo
publicado no Panorama, de 9 de dezembro de 1843, diz que em documentos
existentes na Torre do Tombo, descobriu que este mestre italiano Potassi
foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos, bem como provavelmente o da
Egreja da Conceio Velha de Lisboa.

Em 1490 apparece um certo Diogo Boytaca, como auctor do plano do
Convento de Jesus, em Setubal, cuja construco comeou n'esse anno. A
este mesmo architecto concedeu D. Manuel, em 1498, a tena de 8$000 ris
annuaes, a vencer depois do seu casamento.

Sabe-se que depois, em 1512, um Boutaca, residente, ou pelo menos tendo
propriedades, proximo do Mosteiro da Batalha, era casado com Isabel
Amriques. Assim, foi rasoavel suppor que estes dois Butacas eram um s
individuo. Aconteceu, porm, que ha poucos annos se procedeu a obras de
restaurao na pequena Egreja de Santa Maria da Victoria, que durante
algum tempo serviu de freguezia  villa nascente; ora, subterradas no
solo d'esta egreja, foram encontradas duas lapides tumulares, que veem
lanar grande confuso nos trabalhos dos archeologos.

A primeira lapide tem o seguinte epitaphio:

_Sepultura, de mestre Boutac, cavalleiro da caza d'El-Rei nosso Senhor e
mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro de 157_...

O ultimo algarismo da data  illegivel.

Na outra lapide, encontrada junto  primeira, l-se:

_Sepultura de Isabel Amriques, mulher de mestre Boutac. Falleceu em 23
d'Abril de 1522_.

Assim,  primeira vista parece que este Boutac e sua mulher so os
individuos, anteriormente citados. Mas para que isto seja possivel 
necessario admittir que Boutac morreu com 100 annos, pelo menos. De
facto, se elle foi o auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal em
1490 e morreu em 1570, hypothese mais favoravel, entre estas datas
medeiam 80 annos. Ora, qual seria a edade do architecto, alis
estrangeiro, quando projectou to grande obra?

Concedamos 20 annos a Boutac, se  o mesmo; viveu, pois, _pelo menos_,
100 annos. Como isto no  nada provavel, resta a hypothese de Boutac
pae e filho; mas, n'este caso deviam existir logo duas mulheres do mesmo
nome Isabel Amriques, morrendo a a segunda 48 annos antes do marido!

O que nos parece singular, tambem,  a orthographia tumular do nome,
duas vezes escripto. Se o _c_ final foi cedilhado, o som  bem proximo
de Potassi.

D. Francisco de S. Luiz classifica Boutaca, entre os mestres de artes ou
officios desconhecidos; ora,  indiscutivel que foi architecto e to
importante que chegou--elle ou o filho?--a ser _mestre de obras do
reino_.

_Joo de Castilho._ Varnhagen, no seu opusculo sobre o Mosteiro dos
Jeronymos, em Belem, diz que Joo de Castilho foi nomeado para as obras
do Mosteiro da Batalha em 4 de julho de 1528, por morte de Matheus
Fernandes, filho, o que no nos parece exacto.

_Miguel da Arruda._ Em 25 de junho de 1533 foi nomeado por D. Joo III
mestre do Mosteiro, pela renuncia d'este cargo dada por Joo de
Castilho. (Sousa Viterbo, _Diccionario_).

_Dyonisio da Arruda._ Sobrinho do precedente, a quem substituiu por sua
morte. Foi nomeado por D. Joo III em 25 de outubro de 1563. (Sousa
Viterbo, _Diccionario_).

_Antonio Gomes._ Apparecia como mestre n'um documento de 1548; n'outro
documento de 1551 era, apenas, mencionado como pedreiro. D. Francisco de
S. Luiz conclue d'este facto, com boa critica, que as obras do Mosteiro
eram muito pouco importantes n'esse tempo.

_Antonio Mendes._ Figurava em documento de 1578, como cavalleiro fidalgo
da casa de El-rei, Nosso Senhor; na certido da ciza, junta a este
documento, lia-se: Antonio Mendes, mestre das obras de El-rei Nosso
Senhor. D. Francisco de S. Luiz cr que era um simples titulo
honorifico, dando apenas direito ao vencimento de mestre de obras.

_Guilhelme Bells_ ou _Bellen_. Apparecia em documentos de 1448, 1463 e
1473, como mestre vidraceiro. Este nome  estrangeiro, parecendo-nos de
origem franceza. Deve notar-se que a Cathedral de Bruges foi sempre
celebre pelos seus vitraes.

_Mestre Joo._ Apparecia como vidraceiro em documentos de 1489 e de
1528, tendo fallecido n'este anno ou no precedente.

_Antonio Faca._ Apparecia em varios documentos, como mestre vidraceiro,
sendo o primeiro de 1532. Era j fallecido em 1543.

_Antonio Faca_ (filho). Documentos de 1535 e 1538, demonstravam que o
mestre precedente tinha um filho do mesmo nome, designado pelo _moo_.
Como este nome apparecia em documentos de 1543, quando o anterior era j
fallecido, devemos concluir que o filho succedeu ao pae como mestre
vidraceiro. Era j fallecido em 1596.

_Antonio Faca_ (neto). Apparecia em documentos de 1608, o que deixa
presumir o parentesco apontado, Este appellido parece-nos ser
estrangeiro, talvez italiano ou hespanhol.


Mestres de artes ou officios desconhecidos

_Conjati._ Documentos de 1428, 1431 e 1443.

_Miguel._ Documento de 1440.

_Estao_, 1463. Contemporaneo de Ferno d'Evora.

_Conrate_, 1428.


Officiaes de algumas artes e officios

_Estevam Gomes_, pedreiro, mestre d'obras do Infante D. Pedro, 1428.

_Joo Affonso_, apparelhador, 1450.

_Gil Eannes_, imaginador, documentos de 1465.

_Affonso Lopes_, imaginador, documentos de 1534, 1544 e 1555.

_Duarte Mendes_, entalhador, documento de 1535.

_Henrique Francez_, entalhador, documento de 1535.

_Pero Faca_, entalhador, documentos de 1549 e 1561.

_Francisco Faca_, pintor, documentos de 1566.

_Alvaro Morato_, pintor, documentos de 1592.


Muitos d'estes dados so extrahidos da Memoria de D. Francisco de S.
Luiz sobre o Mosteiro da Batalha. Os documentos foram, pois, compulsados
por este escriptor, cuja auctoridade  incontestavel. Alguns provem do
_Diccionario dos Architectos, Engenheiros e Constructores Portuguezes_,
do Sr. Sousa Viterbo.




COLLOCAO DAS PHOTO-GRAVURAS


                                                         Entre pag.

 1.^a Schema do uma basilica romana                           48-49
 2.^a Roma. Basilica de S. Paulo, fachada principal           54-55
 3.^a Roma. Basilica de S. Paulo, fachada lateral             56-57
 4.^a Roma. Basilica de S. Paulo, interior                    58-59
 5.^a Roma. Basilica de S. Loureno, fachada                  60-61
 6.^a Roma. Basilica de S. Loureno, interior                 62-63
 7.^a Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, exterior        68-69
 8.^a Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, interior        72-73
 9.^a S de Lisboa. Planta geral                            148-149
10.^a S de Lisboa. Ruinas do terramoto de 1755             150-151
11.^a S de Lisboa. Fachada principal restaurada            152-153
12.^a S de Lisboa. Fachada lateral restaurada              164-165
13.^a Convento de Thomar. Fachada da egreja                 202-203
14.^a Convento de Alcobaa. Fachada da egreja               212-213
15.^a Convento da Batalha. Vista geral                      222-223
16.^a Convento da Batalha. Planta geral                     248-249
17.^a Convento da Batalha. Crte longitudinal da egreja     258-259
18.^a Convento da Batalha. Crte transversal da egreja      260-261
19.^a Convento da Batalha. Crte do claustro principal      262-263
20.^a Convento da Batalha. Portico sul do claustro          264-265
21.^a Convento da Batalha. Fachada principal da egreja      266-267
22.^a Convento da Batalha. Portal do sul da egreja          268-269
23.^a Convento da Batalha. Janela do claustro principal     274-275
24.^a Convento da Batalha. Porta do claustro principal      276-277
25.^a Convento da Batalha. Portico oriental do claustro     278-279
26.^a Convento da Batalha. Fonte no claustro principal      280-281


Estas gravuras, excepto a do n.^o 12--_Fachada lateral da S de Lisboa,
restaurada_--so das officinas do Sr. Thomaz Bordallo. A do n.^o 12,
alis uma das mais difficeis,  das officinas do Sr. Marinho. So, pois,
todas nacionaes.




INDICE


Introduco                                                  VII


PARTE PRIMEIRA

Origens da architectura christ

Capitulo 1.^o A lucta entre o paganismo e o christianismo      3
Capitulo 2.^o Os tres primeiros seculos do christianismo      17
Capitulo 3.^o As invases dos barbaros                        33


PARTE SEGUNDA

Os estylos christos primitivos

V seculo ao X seculo


Capitulo 1.^o Espirito e caracteres do Estylo-Latino          45
Capitulo 2.^o Espirito e caracteres do Estylo-Byzantino       63
Capitulo 3.^o Aco reciproca dos dois estylos christos
  primitivos                                                  81


PARTE TERCEIRA

Os estylos christos definitivos

X seculo ao XV seculo


Capitulo 1.^o Synthese social dos seculos XI e XII           101
Capitulo 2.^o Espirito e caracteres do Estylo-Romanico       119
Capitulo 3.^o A S Patriarchal de Lisboa e a sua
  restaurao                                                141
Capitulo 4.^o Synthese social do seculo XIII                 167
Capitulo 5.^o Espirito e caracteres do Estylo Ogival         181
Capitulo 6.^o O Estylo Ogival entre ns                      201


PARTE QUARTA

O Mosteiro de Santa Maria da Victoria

Capitulo 1.^o Origens e construco do mosteiro              223
Capitulo 2.^o O estylo architectonico do mosteiro            233
Capitulo 3.^o As epochas da construco do mosteiro          249
Capitulo 4.^o Descripo do mosteiro                         259
Capitulo 5.^o Relao dos architectos e dos mestres          281

Collocao das photo-gravuras                                289




Notas:


[1] O seguinte curioso facto demonstra a lenta formao dos estylos
architectonicos. Em 1870, quando a cidade de Lyo esteve ameaada pelos
exercitos allemes, o Arcebispo Genouilhae fez a promessa de reedificar
a pequena capella de Nossa Senhora de Fourvire, existente n'uma
montanha que domina a grandiosa cidade, se ella fosse poupada pela
guerra. O _milagre_ deu-se e o voto cumpriu-se; sendo elevada uma
sumptuosa egreja n'esse ponto, onde por signal se disfructa um dos mais
bellos e extensos panoramas do mundo.

Os architectos Bossan e depois Perrin, amhos de incontestavel valor,
_sonharam_ a formao de um novo estylo, em que o genio da arte classica
se alliasse ao mysticismo dos estylos christos n'uma unidade
comprehensivel pelo espirito moderno. Aos constructores no faltava
talento e sciencia para a tentativa, nem lhes escassearam recursos,
porque na egreja, alis no muito grande, se dispenderam, segundo
informaes recebidas que no julgamos exageradas, mais de 9:000 contos.
Pois a tentativa falhou por completo!

 extraordinario o effeito singular, at desagradavel, que produziu no
nosso espirito aquella formidavel _mistura_ de elementos heterogeneos,
constituindo, sem a menor duvida, um _monto_ de fabulosas riquezas e de
preciosos e admiraveis pormenores architectonicos!

Se nos fosse permittida a expresso, diriamos que julgmos assistir a
uma _mascarada_ de estylos, porque, havendo quasi todos, uns tomam as
feies dos outros, conservando algumas das respectivas linhas e
qualidades fundamentaes. Ha de tudo, at o boi Apis ornamentando uma
porta interior em Estylo Egypcio!

Todavia, considerados isoladamente, quasi todos os elementos so
admiraveis de concepo e de execuo. O caso  analysal-os separados
uns dos outros. Na fachada, por exemplo, tres lindissimos arcos de frma
ogival repousam sobre elevadas columnas de linha classica, onde todas as
propores e modulos foram desprezados. Por cima d'esta arcada rasga-se
uma galeria de caryatides classicas; mas... as estatuas so oito anjos
em posies mysticas, perfeitamente eguaes e com solemnidade byzantina.
O edificio  coroado por fronto tambem de contorno classico, cujo
tympano  preenchido por altos relevos de caracter byzantino. Esta
fachada  ladeada por duas torres, que tem _ares_ de romanicas, no
sendo afinal cousa alguma!

No interior reina egual confuso de estylos, e, para de tudo haver,
grandes superficies das paredes so revestidas por pannos tecidos
ornamentaes.

Eis ao que se chegou pretendendo crear um estylo!

Descendo a montanha, a curta distancia, encontra-se a bella Cathedral de
S. Joo, um primor ogival como  regra em quasi todas as magnificas
egrejas de Lyo. E todavia o Estylo Ogival fez-se com elementos de
variados e successivos estylos!

A differena est em que a aco dos seculos em lenta evoluo combinou
os elementos d'esses estylos, adoou-lhes as antinomias e esbateu-lhe as
linhas rudes dos caracteres; emfim, penetrou-os intimamente n'um
producto harmonico, como a fuso liga metaes differentes n'uma
constituio physica, onde todos contribuem para um composto homogeneo.
Assim, no seio de uma mulher se produz um novo ser, que se parece com os
antecessores, mantendo a propria originalidade.

Os novos estylos precisam de incubao no seio dos seculos.

Este exemplo da Egreja de Fourvire deve ser citado e apreciado na
Philosophia e na Historia da Arte.

[2] Durante os trabalhos de restaurao da porta lateral foram
descobertas umas galerias subterraneas, evidentemente anteriores 
construco do edificio, porque esto cortadas pelos alicerces d'elle.
Estas galerias tem crca de 1^{m},5 de altura por 0^{m},80 de largura,
sendo revestidas de silharia e abobadadas em arco circular com pedras
regulares. As que percorremos parece virem do lado do Castello de S.
Jorge, atravessam a Rua do Limoeiro seguindo por baixo dos edificios
annexos  fachada lateral-norte, at ao liminar da porta lateral da
egreja. Ahi a galeria bifurca-se, lanando em curva um ramo para dentro
da egreja e outro seguindo ao longo da parede do edificio, onde se
encosta a Capella de Bartholomeu Joannes. O primeiro ramo est cortado
pelo carneiro, onde jazem os restos do Cardeal Patriarcha de Lisboa D.
Rodrigo da Cunha, o segundo pelos alicerces da capella ou da torre; mas
ambos continuam manifestamente para alem d'estes pontos.

Ser facil encontrar esta galeria fazendo no solo do edificio annexo,
que fica  esquerda do vestibulo da porta lateral, um corte parallelo 
face interna da parede occidental; a pequena altura encontrar-se- a
galeria, se um dia houver curiosidade de o fazer.

Segundo pensamos, esta galeria, que nunca foi cano de esgoto ou
aqueducto,  de construco romana e pde ser um caminho secreto, que
ligava o velho castello romano com qualquer outro ponto da cidade, junto
s margens do Tejo.

Parece-nos muito provavel que os to falados subterraneos da S de
Lisboa se reduzam a esta galeria, que manifestamente percorre o subsolo
da egreja e porventura se ramifica no interior d'ella.

[3] As principaes dimenses da egreja so as seguintes:


                                                   Metros
    Comprimento da porta ao fim da capella-mr          59,20

    Comprimento do transepto                            35,00

    Largura total das tres naves                        21,90

                                  { Altura              18,70
    Nave central                  {
                                  { Largura              9,60

                                  { Altura               9,20
    Nave lateral (duas eguaes)    {
                                  { Largura              6,25

                                  { Altura               18,70
    Transepto                     {
                                  { Largura               7,80

                                  { Comprimento          17,80
    Capella-mr                   { Altura               15,65
                                  { Largura              11,40


Os comprimentos e as larguras referem-se s superficies interiores das
paredes e aos eixos dos pilares; as alturas aos fechos das abobadas.

[4] Este famoso arrendamento, feito pelo Ministerio das Obras Publicas,
produz 10$000 ris annuaes ao Thesouro!

[5] O convento tem servido de moradia a algumas familias, cujos foges
de cozinha foram alimentados por taboas arrancadas dos tectos e
naturalmente pelas portas _inuteis_.  provavel que o _uso_ continue com
os effeitos previstos.

[6]  verso geral por 40$000 ris.

[7] A Suissa em outros tempos foi tambem victima da pilhagem de objectos
nacionaes, artisticos e historicos; pois hoje no s a administrao
publica os defende, como os repatria, comprando-os quando  possivel. As
geraes actuaes emendam a ignorancia e os erros das geraes passadas.

[8] Observaremos n'este ponto que julgamos muito provavel o esquecimento
de alguns monumentos dignos de meno. No os conhecemos todos, e dos
que conhecemos, muitos vimol-os sem detido estudo. Assim, haja desculpa
para lacunas e erros, excepto n'aquelles de que damos maia larga
informao.

Temos percorrido, apenas, uma parte do paiz; ora, um trabalho completo e
seguro d'esta natureza nem seria este o livro para o fazer, nem o
poderiamos tentar com algumas probabilidades de exito sem percorrer todo
o paiz, estudando a distribuio dos seus monumentos e o valor
architectonico de cada um. A nossa vida, sempre um pouco trabalhosa, no
nos permittiu em tempo proprio a realisao d'este desejo, se alm
d'isso no existissem outras difficuldades obvias.

[9] Varnhagen attribue esta janela a Joo de Castilho e affirma ter
visto a data de 1533 gravada em qualquer pedra. O illustre engenheiro
condemna-lhe a esthetica com certa violencia, no que no tem raso
alguma. Esta _loggia_, como muito bem lhe chama Murphy,  um bello
trecho da renascena italiana, ornamentada com espheras armillares e a
cruz de Christo; embora, talvez, um pouco em desharmonia com a porta
descripta, que lhe fica inferior. Foi esta discordancia que feriu em
excesso o talentoso e mallogrado redactor do antigo _Panorama_.

[10] Todos estes cortes so reproduces reduzidas dos do livro de
Murphy sobre a Batalha, publicado em Londres em 1795. Esto
sensivelmente exactos e apesar da sua antiguidade so os _unicos_ que
at hoje se fizeram do nosso primeiro monumento ogival!

[11] Principaes dimenses da Egreja da Batalha:


                                                             Metros
                     { Comprimento total com a capella-mr   81,18
    Corpo da egreja  { Largura das tres naves                21,97
                     { Altura                                27,73

                     { Comprimento                           36,12
    Transepto        { Largura                                9,48
                     { Altura                                27,73

                     { Comprimento                           15,11
    Capella-mr      { Largura                                8,10
                     { Altura                                26,90

                     { Comprimento                           56,59
    Nave Central     { Largura                                9,48
                     { Altura                                27,73

                     { Comprimento                           56,59
    Naves Lateraes   { Largura                                6,24
       Duas eguaes   { Altura                                19,40

                     { Comprimento                           11,95
    Absides lateraes { Largura                                5,63
       Quatro eguaes { Altura                                12,80


Todas as medies se referem  face interior das paredes e aos eixos das
arcadas.

[12] A gravura d'esta fachada  reproduco da que apresenta Murphy no
citado livro, mas devidamente emendada, porque o original inglez tem
erros importantes. A da porta lateral  egualmente de Murphy.
Adoptamol-as, porque para a descripo offerecem mais nitidez de que as
photographias, visto que as fachadas do monumento no foram tambem ainda
rigorosamente desenhadas. As restantes gravuras so reduces de algumas
da obra sobre a Batalha, do Sr. Visconde de Condeixa.

[13] Citaremos um facto curioso. Os artistas da Exposio Universal de
1900, pretendendo fugir a estas leis fundamentaes, representaram a
cidade de Pars por uma estatua vestida no estylo moderno. O bom senso
popular deu-lhe o nome: fizeram uma _cocotte_.

[14] Este corucheo, que indubitavelmente faria parte do projecto
primitivo, para ns, pelos vestigios que encontramos nos traos da
capella, no padece duvida haver existido.

Alm d'isso, Murphy desenhou-o e com tal minuciosidade, que o
restaurador actual ter apenas o trabalho do crte e assentamento das
pedras, no sendo importante a despeza.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-------------------------+----------------------+
  |          |      Original           |      Correco       |
  +----------+-------------------------+----------------------+
  |#pg.   83| dan-lhe                 | dando-lhe            |
  |#pg.   88| espiritualist s         | espiritualistas      |
  |#pg.   90| a seculo                | o seculo             |
  |#pg.  121| racicionios             | raciocinios          |
  |#pg.  137| subtitue                | substitue            |
  |#pg.  170| perido                  | periodo              |
  |#pg.  274| ver-dadeiras            | verdadeiras          |
  |#pg.  277| mjaestosa               | majestosa            |
  +----------+-------------------------+----------------------+







End of the Project Gutenberg EBook of A architectura religiosa na Edade Mdia, by 
Augusto Fuschini

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ARCHITECHTURA RELIGIOSA ***

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